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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

11
Mai12

Pêra murcha

pickwick

A Nélia (nome de código) é uma jovem de cerca de trinta anos que colabora esporadicamente com o viveiro florestal onde dedico parte dos meus fins-de-semana. A mãe dela, também colabora e também se chama Nélia (nome de código). Obviamente, mãe e filha partilham o mesmo apelido: Facadas (código para um apelido semelhante). Daí que, quando preciso referir-me a uma delas, tenho sempre que distinguir: Nélia Facadas filha, ou Nélia facadas mãe. Como se um gajo não tivesse mais nada na vida para fazer.

 

Ora, andar a mexer em plantinhas, a meter sementes na terra, etc., que é um trabalho nobre em prol da Mãe Natureza, é uma excelente oportunidade para deitar o olho para o lado. Não devia ser assim, mas é mais forte do que eu. E assim é, de cada vez que partilho o espaço com a Nélia filha.

 

Acontece que a Nélia filha pode ser catalogada numa categoria que eu denomino “pêra murcha”. Não me ocorreu nome melhor para uma categoria, lamento. A Nélia filha, que é uma moça muito fofinha, daquelas que dá vontade de dar umas palmadinhas nas nádegas (é brejeiro, eu sei, mas é daquelas coisas que se sonham e não se fazem), tem uma desproporção corporal que é algo comum nas mulheres: nádegas a alargarem substancialmente e peito mirrado. Faz o efeito de uma pêra murcha, portanto.


Não tenho nada contra, é verdade. Só que, lá está, é daquelas coisas que, ou se gosta, ou não se gosta. E eu não aprecio. Deu-me para isto, agora, já com esta idade. Não lhe falta cintura. Não lhe falta um sorriso muito feminino. Não lhe falta aquela penugem fofinha a descer da nuca para as costas. Mas… menos em baixo e mais em cima, era o que fazia falta.

 

Entretanto, uns quantos espertalhões andam a pressionar-me para ser mais atencioso para com a rapariga. Corre a teoria de que o pai da miúda é que teve a ideia de a meter lá a colaborar: via-se livre da mãe e da filha, já que passavam a vida em casa a azucrinar-lhe o juízo. Teorias. Eu chuto para canto. O facto de me ter passado pela cabeça a inovadora ideia de lhe afagar as nalgas com umas palmadinhas, não implica que lhe queira pegar ao colo e arrancar-lhe as cuequinhas com os dentes. A menos que fosse possível abocanhar-lhe uma nádega e a pressão empurrar alguma chicha até ao tórax… pickwick

29
Abr12

Catalpa x cataplana

pickwick

Quando um gajo normal começa a lidar com uma área científica nova qualquer, abraça obrigatoriamente um leque de conhecimentos e de vocabulário técnico. Ora, eu nunca tive sensibilidade para a biologia, apesar de gostar de estar na natureza. Provavelmente, tal deve-se ao facto de só ter tido dois professores de Ciências da Natureza durante toda a minha vida: um oficial do exército que tinha o triplo da minha altura e uma senhora moderadamente humorada que me dava sempre 49% nos testes. Além do mais, nunca tive queda para a memorização de nomes, apesar de sempre ter cumprido os mínimos, isto é, jamais esquecer (ou trocar) o nome da namorada.

 
Obviamente, há limites. Um gajo mete-se a ler tratados científicos sobre propagação de plantas e fica logo chateado nas primeiras linhas, quando não percebe nem metade das palavras. Por exemplo, havia necessidade de usar a palavra “ritidoma”? Claro que não, bastava usar “casca” e o leitor percebia logo, mas há gente que gosta de se armar aos cágados, sempre a puxar de palavras de setecentos e cinquenta cêntimos… E amanhã de manhã já não me lembrarei do que quer dizer “ritidoma”.

 

A cena dos nomes em latim dá muito jeito, em especial para espécies que têm vários nomes na cultura portuguesa, e muiiiiito em especial para as espécies a que os portugueses trocam os nomes, baralhando tudo. Começando a falar em latim, o povo entende-se logo e deixa de haver problemas de comunicação. Depois, há as espécies não autóctones, a que a cultura portuguesa não deu nenhum nome. Aí, o mais frequente é adoptar-se o primeiro nome em latim.


Uma das árvores mais comuns nos arruamentos de cidades e vilas é a “catalpa bignonioides”, originária do sul dos Estados Unidos. É fácil pronunciar “catalpa”, mas nem completamente sóbrio consigo pronunciar “bignonioides” antes da décima tentativa.


Apesar da aparente facilidade na pronúncia, parece que um outro colaborador do viveiro tem algumas reticências misteriosas quando o assunto é esta árvore. Misteriosamente, porque se trata, de facto, de um mistério, ele insiste em tratá-la carinhosamente por “cataplana”. Já o alertei para a confusão linguística, vai para cima de vinte vezes, mas ele não desarma e insiste na “cataplana”. Começo a pensar seriamente se não quererá transmitir-me uma mensagem subliminar qualquer, relacionada com o âmbito gastronómico dos momentos de pausa nos trabalhos rurais. Eventualmente, trocar a carne grelhada por uma mariscada, a manteiga do pequeno-almoço por um paté de delícias do mar, o pudim por gambas, e o tinto por um verde gelado… pickwick

28
Abr12

Manteiga de amendoim

pickwick

Há pouco mais de dois anos que colaboro - como voluntário - num viveiro florestal, o qual está englobado num projecto de reflorestação de um terreno pouco pequeno, ali quase a chegar a Espanha, mas não tanto. É daquelas coisas em que um gajo se mete quando não consegue criar uma agência de modelos femininos ou montar um bordel de luxo ou arranjar namorada. Acontece.

 

Acontece, também, que um viveiro florestal desperta-nos para uma série de desafios inesperados. São as sementes que germinam de mais, as sementes que germinam de menos, a rega automática que entope, rega a mais, rega a menos, uma rabanada de vento mais pujante, um mangusto que assalta as instalações pela calada da noite, e… ratos!

 

Os ratos, são do catano! Começaram por venerar as centenas de bolotas de carvalho americano que foram semeadas em tabuleiros. Sobraram umas singelas covinhas vazias. Fizeram uma razia e instalaram-se de armas e bagagens algures onde lhes pareceu que tinham melhor vizinhança e não ficaria demasiado longe do supermercado para não ser preciso ir às compras de carro. Meteu-se rede metálica oito milímetros e encerrou-se o assunto (que estafadeira!). Mas, num viveiro, fechar a tasca das bolotas, é como fechar o restaurante chinês, mesmo ao lado do japonês, do mexicano, do italiano, e por aí fora. Os malandros podiam ter mudado para uma dieta sofisticada, baseada em saborosíssimos rebentos de ervas daninhas, tenrinhos e crocantes. Mas, não. Feitos brutos e de mau feitio, passaram a atacar sementes de prunus lusitanica, uma espécie autóctone que já raramente se encontra nas nossas matas. Não havendo rede para tantos tabuleiros de sementeira, inventou-se um esquema ao bom estilo Tarzan, pendurando-os com cordas que começaram a ceder após as primeiras regas.

 

Entretanto, procedeu-se a uma aprofundada investigação sobre armadilhas para ratos.

 

Ponderou-se, também, vedar todo o viveiro com rede e promovê-lo a resort tropical para um ou dois gatos – sem whiskas, nem sardinhas. Deliciosos ratos do campo, alimentados sem qualquer hormona, apenas à base de produtos naturais.

 

Da investigação, resultou um projecto de armadilha, recorrendo a um garrafão de água, peças móveis em arame, e manteiga de amendoim como isco. Adianto já que a armadilha não resultou, provavelmente porque o rato-do-campo português desconhece por completo a manteiga de amendoim, esse bedum do imperialismo americano, ao contrário dos ratos americanos que protagonizaram os inúmeros vídeos demonstrativos de armadilhas que abundam no Youtube. Valeu-nos umas pastilhas com veneno, e as coisas acalmaram por lá…

 

Mas, há muitos anos que não comia manteiga de amendoim. Desde… 1987. Entre 1984 e 1987, comia manteiga de amendoim como quem come caldo verde com rodelas de chouriça e um naco de broa. Não estava em Portugal, obviamente, porque, por cá, nessa altura, até a Coca-cola era “artigo de meio luxo”. Admira-me como não fiquei com diabetes, à custa disso. O mais habitual, era que a camada de manteiga de amendoim fosse de espessura superior à da fatia de pão. Um abuso, portanto. Desta vez, foi tudo mais comedido. Provámos a manteiga de amendoim ao pequeno-almoço, só por causa das cócegas, e o resto que sobrou das armadilhas ainda continua no frigorífico, à espera de passar o prazo de validade.

 

Pensando bem, acho que, pior que as fatias de pão barradas com manteiga de amendoim, eram as sandes de açúcar amarelo e canela com que a minha avozinha me presenteava ao lanche, quando ia passar algumas semanas a casa dela (ai, adolescência, onde já vais…). Ah e tal, é bom, come. Pois é, avozinha, e pumba, a boca toda empapada com açúcar e canela, os dentes acastanhados, uma nojeira completa. Depois, chegava o jantar, ah e tal, hoje o jantar é diferente, dizia a minha avozinha, e pumba, uma pratada de arroz doce a fazer as vezes da entrada, da sopa, do prato e da sobremesa, e um “não digas nada à tua mãe”. Já havia diabetes nessa altura? Ou é uma doença moderna que se propagou através dos macacos?

 

Bom, mesmo em minha casa, era um abuso. Recordo-me de, um belo dia, um dos meus vizinhos ter aparecido à hora do lanche e apanhado aqui o rapaz a preparar o leitinho numa caneca, segundo a receita habitual diária: um terço da caneca para o açúcar e o cacau, e dois terços para o leite. Qualquer coisa como uns quatro centímetros de depósito. O vizinho ficou escandalizado, eu fiquei com má fama nas redondezas, mas os grossos nacos de pão barrados em Tulicreme ficavam tão divinais quando mergulhados naquele néctar lácteo… pickwick