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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

17
Jul07

Miss t-shirt molhada de Ermelo 2

pickwick
A continuação da relaxante saga no Parque Natural do Alvão.
 
7. Banha espanhola
Pouco antes de cair a noite, um bando de raparigas apareceu na nossa praia fluvial. Tinham passado o dia mais abaixo, nas piscinas junto às fisgas, e vinham atravessar o rio para regressarem não sei a que aldeia. A maior parte eram espanholas, algumas delas bem jeitosas, segundo apreciação posterior. Atravessaram graciosamente o rio, com um pé num calhau e o outro numa rocha, tão giras que elas ficavam. Uma delas, contudo, recusou-se ao salto. Pudera! Devia pesar uns vinte quilos para além dos cem, e a chicha à volta dos joelhos era tanta que até os meus colegas de expedição ficaram visivelmente chocados! O único gajo que acompanhava o bando de fêmeas, também espanhol, e de aparência normal, deu numa de cavalheiro e fez companhia à baleia na jornada que os levou até à China para conseguirem atravessar o rio. Eu, se fosse ele, atirava-a à água e montava-me em cima dela, qual jangada. Até o Nando, que costuma ser de um cavalheirismo inigualável, não mexeu uma palha para ajudar a rechonchuda donzela a virar-se para a outra margem, ficando-se quietinho com um sorriso muito mal disfarçado.
 
8. Manjar dos deuses
Pois foi. Parecia mesmo um daqueles banquetes no Olimpo: chouriça assada, vinho tinto Dão, queijinho, mais vinho tinto Dão, pão, outra chouriça assada, mais pão, e pronto. Não há nada como uma ementa diversificada e saudável. Para finalizar, mesmo antes da bela da cigarrilha, apareceu um salame de chocolate e uma garrafa de vinho do porto. Ambos deliciosos. Bem, depois há uma estória qualquer, muito mal contada, segundo a qual eu fiquei não sei o quê, que mal me segurava de pé, que só me faltou começar a cantar, ah e tal, que já não aguento nada, e blá blá blá, e que acabei por beber o leite achocolatado e as argolinhas de chocolate do pequeno-almoço, e não sei que mais. Boatos! É só boatos, ok?
 
9. A pastora número um
A manhã surgiu escura e fria, com nuvens a tapar o azul do céu. Nem parecia Julho! Que foleirada! Bom, no cimo da encosta de frente para a nossa praia fluvial, surgiu uma pastora a correr, como se tivesse o rabo a arder. À sua frente, a serem quase apedrejadas, meia dúzia de caprinos com chifres de metro e meio corriam desesperados. Ela enxotava-os, coitados, e já vinha tão cansada que começou a tirar o casaco. Meu Deus! Era uma pastora gorda, gorda, gorda, que eu nunca imaginei que houvesse pastoras tão gordas. Sinais dos tempos, só pode. Quando as cabras e os bodes se lançaram encosta abaixo, mais à frente, a pastora deu por terminada a sua labuta e virou costas, ora correndo, ora andando, de regresso à aldeia mais próxima. No meu tempo, as pastoras não eram assim.
 
10. A pastora número dois
Depois de levantar campo, e assim que chegámos ao cimo da encosta do outro lado do rio, começou a pingar. Acho que nunca mais parou, desde então. Apanhámos uma molha daquelas, passámos o resto da manhã a dar às botas debaixo de chuva, mas a vida é mesmo assim: ora secos, ora molhados. Poucos metros mais à frente, cruzámo-nos com uma pastora: a pastora número dois, sendo que a número um era a gorducha que andava a enxotar cabras. Esta, embora não fosse propriamente elegante, não abundava em banha. Cumprimentou-nos e continuou a ameaçar as cabras e até os bodes com a sua longa vara com bola na extremidade. A moca perfeita! A determinado momento, e numa clara demonstração de força e poder, a pastora número dois gritou para as suas cabras e bodes que seguiam por um trilho: vira! Pasmos, observámos a pronta obediência dos caprinos, que num ápice viraram à esquerda, como tropas bem treinadas e comandadas, deixando o trilho e descendo a encosta. Uma coisa é certa: lá na casa da pastora número dois, é ela quem usa as calças!
 
11. Cabras à cornada
Eu sempre achei piada ver gajas à porrada umas às outras. Guincham, usam o vocabulário que fica bem aos trolhas embriagados, puxam os cabelos, arrancam os cabelos, guincham mais ainda, rebolam pelo chão, lambadas para aqui, chapadas para ali. A sério, é mesmo um espectáculo a não perder. O mesmo não se pode dizer de um combate de cabras. Especialmente quando uma cabra sozinha tem que enfrentar a persistência e má disposição de meia dúzia de outras cabras, às quais se juntam uns quantos bodes de barbicha, num combate desigual e injusto, todos contra um, cornos nos cornos. Interessante, do ponto de vista científico e cultural. Mas com alguma falta de graça.
 
12. Miss t-shirt molhada
Alguns quilómetros mais abaixo, na encosta da montanha, voltámos a cruzar-nos com a pastora número dois, que tinha atalhado caminho por entre giestas e cardos, na retaguarda das suas cabras. A pastora número dois, não tendo saído de casa prevenida para o dilúvio celeste, vinha tão encharcadinha como eu. De t-shirt. Sem mais nada por baixo. Toda molhada. É com estas e com outras que um gajo perde o apetite para o almoço. Fica-me a curiosidade: o que levará uma pastora a sair para os montes de t-shirt, num dia de chuva, sem nada por baixo? Já tinha ouvido falar no pastor e na cabra, que ah e tal… mas, e uma pastora e um bode? Será? pickwick