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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

02
Mai12

Garganta funda

pickwick

É feriado, que por acaso é Dia do Trabalhador, e um gajo mete-se a jeito para um dia de sossego, na paz e harmonia de um lar isento de stress. Começa-se por abrir as janelas, para deixar entrar um projecto falhado de luz solar. Um passeio matinal de pouco mais de dez metros pelas assoalhadas, para verificar se há monstros mutantes renascidos das cinzas da noite. Um copo de água. As plantinhas estão na mesma, que sem sol não há quem cresça. Ligam-se os dois computadores, verifica-se o mail, tiram-se uns apontamentos, abrem-se uns documentos, planeia-se o dia de trabalho, come-se uma bolachinha ou duas ou cinco, suspira-se de prazer por um dia tão sossegado e promissor. Entretanto, tira-se um generoso naco de lombo de porco do frigorífico e esfaqueia-se cirurgicamente em quatro locais distintos, pelos quais se introduz, a seguir, outras tantas linguiças picantes. Unta-se com especiarias que fazem mal aos corações mais sensíveis e mergulha-se a coisa em vinho branco. Ao almoço, irá ao forno com umas batatinhas. Um gajo até se baba, só de imaginar o petisco. Regressa-se ao computador e prossegue-se com uma pesquisa na lista de espécies autóctones.

 

Nisto, ia a manhã a meio, a campainha da porta começa a zurrar desalmadamente. Deve ser um vendedor de sabonetes lava-rabos ou técnicos de TV por cabo. Devia, mas não foi. Eram dois compinchas de longa distância, que por essa hora deviam estar algures a passear-se pelas serras de Arada e S. Macário. Em vez disso, estavam à minha porta, a sugerirem-me calçar as botas e abalar com eles para o passeio pedestre. Ora, um gajo com tanto trabalhinho para fazer, tanto lombo para assar e comer, tanta paz e tanto sossego, não cede facilmente. Ao fim de muita conversa da treta, e de uma actualização de conhecimentos aos comandos do Inkscape, não tive outra alternativa senão calçar as botas, meter meia dúzia de tarecos na mochila, e sair porta fora, renunciando heroicamente, qual mártir de uma causa desconhecida, a um dia de trabalho e paz e sossego e lombo de porco.

 

Algures no meio de nenhures, ou na Serra de Arada ou na Serra de S. Macário (venha o diabo e escolha!), deixámos o carro numa amostra de povoação, com um nome do género covas-de-qualquer-coisinha, e partimos rumo a uma garganta que subia quase até aos céus, por entre calhaus afiados e vegetação rasteira.

 

Umas fotos artísticas às folhas de carvalho salpicadas por pingos de água da chuva, uma gincana por entre incontáveis poios de vaca, tira impermeável, mete impermeável, volta a tirar, volta a meter, ora chuva, ora sol, enfim. Entretanto, hora do almoço. Paragem numa encosta, pseudo-abrigados do vento e da chuva numa curva abrupta. Chouriça a assar, queijinho, pão da véspera, bolachas, e uma mísera e única garrafinha de tinto alentejano, tudo para repartir por três estômagos esfomeados pelo esforço da caminhada e pelo avançado da hora. Com chuva a meio, o que deu muito jeito para deixar que algumas pingas aumentassem o volume do tinto nos copos – o desespero tem destas coisas… estragar um tinto requintado (Reguengos) com água da chuva.

 

Após o repasto, retoma-se a caminhada, sempre a subir. Entretanto, estala uma acesa discussão sobre vacas, a propósito dos incontáveis poios de vaca que evitávamos pisar, os quais, para surpresa de todos, eram maioritariamente provas inegáveis de que as vacas daquelas paragens não andam a ter a melhor das alimentações. Quem já andou pelo Portugal profundo, em terras frequentadas por bovinos, conhece muito bem o aspecto de um saudável poio de vaca – uma espécie de bolo de côco em cima do qual assentou as nalgas um simpático babuíno. Mas, os poios de hoje, eram mais do género arroz doce com ervas aromáticas e uma pitada de pimenta preta. Uma nojeira. Daí até começarmos a insultar a vacaria da região, foi uma questão de segundos. Só que, a bem dizer, houve ali uma dificuldade linguística conceptual que limitou a nossa agressividade: não se vai insultar uma vaca, chamando-lhe “vaca”. Ainda começámos com isso, aproveitando a liberdade dos montes. Mas, soou tão mal, que… “suas cabras!...”, ainda começou o Miguel… mas, nããã… ainda soou pior… E andavam três gajos, a subir um monte, a chover, no meio de giestas e tojos, a pensar que nomes feios haveriam de chamar às vacas que se borravam todas a subir o mesmo monte. Entretanto, a uns cem metros, três vacas pardas olhavam-nos com alguma atenção. Fiz “mmmm” e uma delas respondeu, mas depois falhou o vocabulário e a conversa ficou por ali.

 

Entretanto, actualização geográfica, o Nando saca das cartas militares para nos posicionarmos no terreno e melhor planearmos a ascensão até ao cume. Ups! Eram da Serra do Caramulo! A conversa mudou rapidamente das vacas indígenas e da falta de consistência do respectivo cocó, para os sinais evidentes e inegáveis de pré-senilidade do Nando – mas ele é que tocou no assunto, nós limitámo-nos a anuir simpaticamente!

 

Umas centenas de metros mais à frente, o terreno começou a complicar-se. O acesso à garganta era impraticável, e o Nando, que era o guia da expedição, descobriu que tínhamos falhado o trilho correcto ainda antes do almoço. Mais um sinal de pré-senilidade, claro. Logo a seguir, outro sinal de pré-senilidade: a bateria da máquina fotográfica tinha vindo praticamente descarregada, assim como a bateria extra!

 

Voltámos para trás, depois de cinco minutos de paragem estratégica para deixar cair livremente uma carga de granizo, regressando ao carro e encerrando oficialmente o passeio pedestre. A meio da descida, mais um sinal de pré-senilidade: a única laje de xisto escorregadia que havia ao longo do trilho, foi precisamente onde o Nando meteu as botas e zás!, de rabo na pedra. Então, partiste o cóccix? Ah e tal, não, não, que tenho umas boas nalgas. Prontinho, adiante, adiante. Conversa sobre nalgas, e as nalgas da amiga do Miguel que tinha quase partido o cóccix porque não tinha as nalgas tão acolchoadas como as nossas e mais não sei o quê… Nestas alturas, dou graças por não termos companhia feminina, senão, não haveria reputação que sobrevivesse ao nível tão eloquente das nossas conversas...

 

À chegada ao carro, o nosso guia fez mais uma descoberta estonteante: olhem, ainda bem que voltámos para trás lá em cima… é que íamos na garganta errada… estou mesmo a ficar senil… - e apontou para uma majestosa garganta afunilada entre medonhos penhascos, sobrevoada por uma camada de nuvens do mais negro que havia disponível, à direita da garganta que tentámos subir e que não nos levaria a lado algum, até porque não tinha mesmo trilho algum para levar ao cume. Mas, aquela outra, sim, era uma garganta para Homens! Enfim, fica para uma próxima. De preferência, quando o guia se lembrar de levar as cartas militares certas! pickwick

08
Set07

Na Sopinha da Aguieira - 1

pickwick
No passado fim-de-semana, combinei uma ida à Barragem da Aguieira com o Nando e o Miguel. Porquê? Porque sim, e porque o Miguel queria ir treinar windsurf, e porque a água é salobra e dá vontade de ficar-se por lá de molho, como numa sopinha, e porque ainda é Verão. Para condimentar a coisa, obriguei-me a fazer o percurso de bicicleta, que é coisa de homem, até porque a distância de minha casa até ao sítio combinado é de cerca de 36 km. O Nando, que arranjou maneira de habilmente não trazer a bicicleta dele, ofereceu os seus préstimos para servir de “carro de apoio”. É bonito, ter-se um “carro de apoio”. Ah e tal, porque eu não sou como vocês, eu trabalho e preciso de descansar e mais não sei quê. Pois sim. Bem, os primeiros quilómetros da jornada correram bem, pelo menos até chegar à Lapa, num sítio onde a estrada passa por cima da linha e que, por isso mesmo, se eleva em altura, facto que serviu de pronta desculpa para desmontar da bicicleta e ir a pé. Vá lá, foi a única vez em todo o percurso que sucumbi à tentação de poupar-me ao esforço. Enfim. A sorte, é que o percurso tinha sido cuidadosamente estudado, havendo a certeza de que era quase sempre na horizontal, o que é muito bom para a saúde e facilita. As partes irritantes foram aquelas em que se atravessavam aldeias e aldeolas, trocando-se o piso de alcatrão perfeito por um montão de “paralelos” de pedra, obrigando a um passo de caracol e à sensação de que a bicicleta se iria desmembrar toda a qualquer momento. Não se pode ter tudo, é sabido. Em jeito de reclamação, tenho a dizer que fiquei extremamente desiludido por não haver exemplares do sexo feminino nas ruas das aldeias por onde passei. É desmoralizante! Só gajos com mau aspecto e automóveis estacionados. Assim, não estão reunidas condições para um passeio de qualidade! Adiante, mais à frente, já quase a chegar à barragem, e na dúvida sobre qual o caminho a tomar para rodear as bombas de gasolina e atravessar a ponte, liguei para o meu “carro de apoio”. Do outro lado, um toque de conforto: “estou perdido”. Excelente! Não sei quê IP3, nomes de aldeias para aqui, nomes de aldeias para acolá, mas, pronto, lá nos encontrámos e rumámos ao local combinado com o Miguel. Contudo, achei por bem obrigar o “carro de apoio” a pagar um fino no “Lagoa Azul”, até porque estava muito calor, a garganta estava seca e uma cervejinha cai sempre bem a qualquer hora. O Miguel, já na “praia”, tinha acabado de chegar com o seu C3, prancha de windsurf no tejadilho e um desejo enorme de se fazer à água. Fomos testar a qualidade da sopa, que se mantinha a uma temperatura agradável, convidando-nos a ficar a boiar, como se fossemos feijões e ervilhas. Ui! Do melhor! Não sabia que montar o equipamento para a prática de windsurf dava tanto trabalho! É só mecanismos esquisitos, fitas para aqui, esticadores para ali, encaixa dali, estica de acolá, enfim. O Miguel já suava por todos os cantos. Um caiaque acho que dava menos trabalho. Mas, pronto, gostos são gostos. Levámos a prancha para a água, para encaixar o mastro da vela, e puf. O encaixe da vela na prancha partiu-se. Ah e tal, isto tudo custou-me 100 euros em segunda mão, material de mil novecentos e oitenta e não sei quê, tinha o Miguel anunciado minutos antes. Eu ainda gostava de saber quem foi o anormal que inventou um encaixe daqueles, em plástico, com cerca de quinze milímetros de diâmetro. É normal? Claro que não é normal! Não lembraria a ninguém! No mínimo, um encaixe em aço, com trinta milímetros de raio, que é para não se partir e estragar o dia ao dono e aos amigos do dono que tinham vindo de tão longe para apreciar a arte de surfar com a força do vento. Por falar em vento, esse estava de férias, de tal maneira que um barquinho à vela que velejava algures no meio da barragem, ficou sem energia e os desgraçados ficaram ali incontáveis minutos completamente parados no meio do nada. Com tanta energia dispendida na montagem do equipamento (o Miguel a montar e nós a darmos apoio moral), e com o choque psicológico de vermos o encaixe partido, fomos atacados por uma fome horrível. Corremos para a pseudo-sombra de umas mimosas e começámos a tratar do almoço. Ementa: presunto, chouriço assado, pão e batatas fritas. Acompanhamento: três garrafas de tinto. Sobremesa: licor de uva caseiro. Há uma grande vantagem em não se fazer um piquenique com gajas. A ementa é muito mais restrita e limitada, sendo possível, assim, apreciar com mais rigor a qualidade e o sabor dos itens disponíveis. Não somos obrigados a comer rodelas de tomate, a catar lascas de cenoura, a debicar folhas de alface, a provar a colheita de sumo de laranja e a mordiscar uma maçã, só para ficarmos bem na foto e sermos simpáticos. Não há rissóis, croquetes, empadas, doces caseiros, rolinhos de fiambre e queijo, e outras iguarias perfeitamente dispensáveis. No fim, até podemos terminar tudo com uma boa cigarrilha. E a meio, quando nos apetece, como aconteceu, podemos levantar da “mesa” e ir a correr para a água refrescar o corpo aquecido por um intenso dia de Verão. Só tivemos um pequeno deslize, cuja culpa nos é alheia: uma das garrafas de tinto estava estragada, sendo que o líquido sabia a groselha com detergente para a loiça e fazia muita espuma. Azar. pickwick
20
Jun07

Um copito

pickwick

Hoje, à hora do almoço, e como já é costume desde há dois anos, fiquei sozinho na paz e no sossego enquanto os meus colegas debandaram para o restaurante. Às vezes, há uma ou outra colega simpática que, por motivos obscuros eventualmente relacionados com problemas de passagem nas portas, fica a fazer-me companhia. Mas, hoje não foi o caso, até porque soa a Verão, apesar de ter acabado de cair uma carga de água dos céus daquelas que metem medo ao susto. A paz e o sossego souberam mesmo bem e consegui dar um adiantamento razoável no trabalho. Mas, como tudo o que é bom ou sabe bem, acabou-se com o regresso do magote de gente. A Lena, essa aterrorizadora de criancinhas, regressou extremamente bem disposta, com as bochechas rosadas e uma vontade incontrolável para dizer piadinhas e soltar disparates. Foi só um copo de tinto, comentavam as colegas no intervalo de mais uns disparates. Risinhos, mais uma gracinha, ah e tal. Eu, com um ar de pilar inabalável da moralidade, abanava a cabeça em jeito de reprovação. Fica-me bem este ar, devo confessar, mas acho que não já não convenço ninguém. Bom, com a brincadeira do copito de tinto, abriu-se-me a mente para mais uma realidade factual: o monstro-das-bolachas que se esconde no corpo feminino e que é facilmente acordado pelo degustar de pomada de uva. A Lena, que normalmente é uma pessoa séria e grave embora humorada, transformou-se no Jô Soares com um ataque de urticária hilariante. Não comparei com o Jô Soares à toa, como se depreende, embora lhe faltem uns quilos. Será por causa deste monstro-das-bolachas que muitas mulheres preferem não beber umas pomadas, ou umas cervejolas, ou uns licores? Porque têm medo que o monstro lhes salte para fora da pele e façam figuras inimagináveis e altamente comprometedoras? Porque vão perder a compustura? Porque nunca mais ninguém as vai levar a sério? Será? Medo? Pavor? Ora, francamente! Não era preciso serem assim. A avaliar pela Lena, até ficam muito engraçadas quando bebem um copito e começam a dizer disparates e a atirar graçolas picantes. É bonito de se ver. Quem assiste, fica sempre com a impressão de que nos próximos três minutos ela vai arrancar a camisola e fazer uma fisga com o soutien para atingir a plateia atónita, mas não é preciso stressar com os pensamentos alheios. Quem assiste, fica sempre com a impressão de que ela vai pendurar-se de surpresa na braguilha do gajo com quem tem sonhos eróticos secretos, mas não há problema. Bom, se a Lena se pendurasse na minha braguilha, com aqueles presuntos todos, haveria problemas sérios… de hérnia! Chiça! Não que ela tenha sonhos eróticos comigo. Ou que tenha sonhos eróticos, sequer. Hum… bem, é capaz de ter… é loira, mesmo que o cabelo seja pintado, portanto, tudo é possível. Medo! Ok! Adiante. Mas nem todas reagem assim. Há delas que ficam incapazes do que quer que seja. Há delas que começam a chorar. Enfim. O melhor, mesmo, é beberem um panaché. Ou sumo de framboesa. Copos à parte, e para terminar, o relatório do dia: Gorety, cuequinha laranja; Maria, cuequinha branco-sujo; Patrícia, cuequinha vermelha; Celine, provavelmente cueca XXXXL. pickwick