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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

01
Jul12

Como desenhar uma linha torta

pickwick

Breve manual de instruções para conseguir desenhar uma linha torta numa manhã de domingo:

1. Senta-te numa mesa ampla e prepara-te para trancar a tinta vermelha as quase quarenta provas do exame nacional de matemática que te calharam na rifa, a onze páginas cada uma.

2. Decide intercalar cada prova com uma série de levantamento de pesos, por causa das cócegas.

3. Lá para a oitava prova e outras tantas séries, és apanhado de surpresa pelo agradável ti-ti do telemóvel, sinalizando a recepção de uma SMS.

4. Afinfa o telemóvel com três dedos e sorri, pois é uma SMS da miúda por quem estás completamente pelo beicinho, provavelmente desejando um bom dia a trancar provas.

5. Abre a SMS e descobre que, afinal, não é um desejo de bom dia, mas, antes, um singelo depoimento expressando uma grande vontade que ela sente de te beijar.

6. Toma consciência de que o sorriso parvo com que ficaste não irá desaparecer nos próximos sessenta minutos.

7. Sem pingo de consciência, regressa à oitava prova, convencido de que continuas concentrado.

8. Uma força misteriosa desvia-te a caneta do caminho dos justos e atropela meia equação.

9. Descobre que: a) a força misteriosa, afinal, não foi mais do que uma quase imperceptível pocinha de baba viscosa que te caiu da beiça quando leste a SMS; e que, b) matematicamente, a intersecção de uma linha vermelha com uma poça transparente resulta numa mancha de “nhanha” alaranjada.

10. Qual bombeiro de secretaria, socorre a situação lançando papel higiénico sobre o acidente, para absorver o líquido.

11. Complementa a acção com um golpe genial de tinta correctora branca, como se fosse um spray, e repara como, em alguns microlocais, a brancura apenas diluiu a “nhanha” alaranjada que não tinha secado ainda, transformando-a em “nhanha” salmão-desmaiado.

12. Um rasgo de lucidez atinge-te o cérebro e ocorre-te que não se usam porcarias destas em provas nacionais.

13. Soluciona a questão de forma exemplar, puxando do canivete suíço e raspando o agora naco seco de tinta correctora com algumas tonalidades salmão-desmaiado.

14. Assim que o naco se soltar, levando consigo pouco mais de dois centímetros quadrados de papel de prova e deixando um medonho buraco, expande as tuas mandíbulas num esgar de pânico, enquanto o cérebro se desmultiplica em estratégias de remediação e soluções milagreiras.

15. Ao fim de alguns minutos de intensa actividade cerebral, conclui que no dia seguinte terás que ir desencantar uma prova virgem e nela reproduzir integralmente todo o conteúdo da prova danificada, incluindo os gatafunhos do/a aluno/a, as assinaturas dos professores vigilantes e a parte da equação que ficou colada no naco de tinta correctora.

Nota do editor: a partir do oitavo passo, inclusive, as instruções correspondem a pura ficção e resultam somente da fértil imaginação do autor. pickwick

19
Jun12

A cor do primeiro encontro

pickwick

Ao fim de longos meses de espera, de anseio, de lábios mordidos, de talvezes, de qualquer-dias, a Liliana viu-se a braços com o facto de ter três dias para escolher a roupa para o seu primeiro encontro com o Mateus. Naturalmente, recorreu ao meu aconselhamento técnico, dadas as minhas excepcionais capacidades para debitar baboseiras sobre vestuário feminino.

 

A primeira coisa que me veio ao pensamento, foi o meu primeiro encontro com uma mocinha, lá para o ano de 1985. Era uma rapariga engraçadinha, que me enchia as medidas, com uns lábios imprevisivelmente carnudos naquelas feições orientais. Uma mulher, é sempre uma mulher, seja chinesa, como ela, ou nem por isso, com as mesmas expectativas, preocupações e anseios. Acontece que a rapariga deve ter procurado aconselhamento técnico para aquele primeiro encontro. E tal foi a intensidade do aconselhamento, que eu quase não a reconhecida, tal era a transformação. O longo cabelo negro, que eu tanto desejava afagar e sentir, estava todinho apanhado no cimo da nuca, num enrodilhado artístico que mais parecia um cocó de São Bernardo. Desilusão completa! Semanas a fio, a imaginar-me pendurado nos fios do cabelo dela, qual Tarzan romântico, deitadas pela sanita abaixo com aquela amarração escusada. O corpinho, que eu venerava, e que conhecia ora debaixo de um uniforme escolar branco e imaculado, ora debaixo de um vestuário sóbrio, estava escondido debaixo de um exercício de alfaiate muito mal conseguido. Um vestido armado ao chiquérrimo, a atirar para o balão, que tira a qualquer homem a vontade de abraçar a cintura feminina. Uma desgraça. Para completar, uma mistura impressionante de bodegas a cobrir-lhe o rosto, que hoje compreendo, mas que na altura me deu a volta ao estômago. Para mim, que aprecio a sobriedade e a naturalidade, foi uma tacada de basebol no queixo. A coisa começou logo a correr mal, muito mal, e terminou pessimamente. Nunca mais ela falou comigo, nem eu com ela, e muitas pragas me deve ter rogado. Eventualmente, poderá ter ido para freira, à semelhança da… coiso… bom… adiante…

 

Portanto, tentei orientar o meu aconselhamento técnico no sentido do desaconselhamento. Isto é, nestas coisas, mais vale uma mulher ficar “quieta”, do que meter-se com invenções e acabar num estado desagradável à vista. Apesar disso, a Liliana insistiu em ir de vestidinho. Tem corpinho para isso, obra das longas horas quase diárias que tem passado no ginásio desde há muitos meses. Só faltava escolher a cor. Preto, vermelho, branco e preto, salmão.

 

Branco e preto, não, porque baralha. Não se pode deixar um homem baralhado, quando o objectivo é não o deixar fugir. É uma espécie de gelado “Perna de Pau”: não se sabe se começar pelo chocolate, pelo branco, ou pelo vermelho, ou mudar para uma sandes de presunto.

 

Vermelho, também não. Fere a vista e atinge o cérebro masculino, podendo provocar lesões atitudinais indesejáveis. Parece um fogo que não queima, como uma roseira que não pica, pelo que o homem, seja bombeiro, pirómano, ou maricas, não terá receio algum em se atirar de cabeça para as chamas.

 

Salmão, só a partir do segundo encontro. Salmão transmite uma ideia de fragilidade. Um homem a olhar para uma mulher vestida cor de salmão, é como um urso no Alasca a olhar para as águas baixas de um ribeiro, onde um salmão de aspecto delicioso aguarda pacientemente pelo seu fim, entalado entre dois calhaus.

 

Preto, é que é. Primeiro, ninguém desconfia. Depois, impõe respeito. Não baralha. E tem a vantagem de concentrar o olhar masculino, que fica hipnotizado como que à procura do fundo num buraco negro. E, como diria o poeta, homem concentrado, é homem garantido.

 

E nem penses em levar aquela mini-saia rodada e arejada! Senão, acabas o encontro romântico no hospital, com o pobre Mateus em estado grave de encravanço cardíaco, de língua de fora, espasmos na perna esquerda, olhos revirados, súbito crescimento capilar, e um prolongado uivo disfarçado de suspiro… pickwick