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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

07
Out07

Duo fracasso

pickwick

Não sei se já disse isto, mas a minha colega grávida é podre de boa. Sorte a do namorado. Faça bom proveito, pois então. Entre os mil defeitos que já lhe arranjei, há o tal de falar e rir ao mesmo tempo. É a segunda gaja que conheço pessoalmente que tem esta paranóia. Fala e ri ao mesmo tempo, em vez de rir primeiro e contar a estória depois, ou contar a estória primeiro e rir depois, como é normal em qualquer pessoa que faz questão que os outros a compreendam. Na prática, é como estar a contar uma estória com a boca cheia de malaguetas e o polegar direito entalado numa porta. Não se percebe nada. Enquanto não passam de um brinquedo engraçado – ao nosso alcance ou nem por isso -, a coisa até escapa, sorrimos com ar condescendente, fazemos de conta que a estória é mesmo engraçada, embora não saibamos o que ela está a dizer, e fica tudo bem. Mas, quando a coisa é mais séria, como numa relação laboral em que é necessário o entendimento mútuo para que tudo corra bem, ou numa relação amorosa em que não convém dizer coisas que não se percebem e que podem ser confundidas com declarações perigosas, as gajas que sofrem deste mal podiam fazer um esforço. Sei lá, fazerem estas cenas apenas quando estão a falar com o gato persa, ou quando estão no MSN a contar às amigas aquelas coisas importantes da vida que não têm importância nenhuma. No caso de ser a namorada, é meio caminho andado para passarmos vergonhas em público. No caso de ser no trabalho, há um risco elevado de um gajo espetar-lhe dois bufardos nas bochechas assim que perder a paciência para tentar perceber os gatafunhos orais. Vale a pena repreender? Vale, sim senhor. Vale, porque já o fiz uma vez e teve resultados líquidos. No caso da minha colega podre de boa apesar de estar grávida e usar uns óculos foleiros todos os dias, vou deixar como está. Se lhe faço o reparo, ainda começa a ir para o trabalho com os botões da camisa todos abotoados, ou com umas calças largas, ou com um espalma-mamas. E não vamos querer que isso aconteça, pois não? Claro que não. É deixá-la fazer figuras tristes, que é mais feliz assim. Quanto a esta habilidade de fazer duas coisas ao mesmo tempo (rir e falar), tenho a dizer que, como já meio mundo deve ter constatado, as mulheres apregoam incessantemente essa capacidade extraordinária. Muitas delas, inclusive, fazem alarido de conseguirem fazer três coisas ao mesmo tempo. Não sei o quê do cérebro, porque são mais dotadas, blá blá blá. Sinceramente, ainda não vi tal coisa provada cientificamente. A minha ex, por exemplo, é uma das que apregoavam sistematicamente essa habilidade, ainda por cima na versão tripla. E conseguia? Claro que não. Basta atender um telefonema dela para perceber que não consegue: fala, trabalha no computador, e come. Tudo ao mesmo tempo. Ou não. Na prática, ela opera com slots temporais, dando a impressão que fala ao mesmo tempo que come e que trabalha no computador. Na prática, e embora com um desfasamento temporal pequeno, ela ora come, ora mexe no computador, ora fala. Não as faz ao mesmo tempo, portanto. Obviamente que isto torna qualquer conversa numa luta perdida contra a eternidade. Enquanto mastiga, não fala (embora tente imitar um inteligente “huummm”), nem mexe no computador. Enquanto fala, não mexe no computador nem mastiga. E, enquanto mexe no computador, não fala nem mastiga, embora faça a mesma imitação rasca de quem é inteligente e está simplesmente a meditar profundamente num assunto qualquer de suma importância. É, como diria o meu professor de Electrotecnia, o Professor Morais, uma farsa! Uma autêntica farsa! É nesta farsa que se baseia a explicação para a alegada dificuldade que assiste as mulheres na senda do orgasmo. Na prática, e baseado no mesmo princípio dos slots temporais, o que se passa é que as mulheres aproveitam o coito para fazerem mais duas ou três coisas, nomeadamente contas de cabeça e planeamento avançado. Fazendo as contas por baixo, vamos considerar que os slots são igualmente repartidos pelas actividades. Ou seja, num slot de nove segundos, três são dedicados ao prazer carnal, três são para fazer contas de cabeça e os restantes três para planear o futuro mais ou menos próximo. Considerando que o prazer carnal ocupe o primeiro slot, só passados seis segundos a mulher voltará a debruçar-se sobre esse aspecto da sua existência, provocando um compreensível retrocesso na sua evolução. Digamos que um segundo para recuperar o ponto onde ia, sobrando outros dois segundos para poder evoluir. Ou seja, em cada slot de nove segundos, a mulher só evolui no prazer carnal durante dois segundos. Se atentarmos ao facto documentado de que um homem pode atingir o orgasmo em dezoito segundos, nesse tempo a mulher apenas terá evoluído durante quatro segundos de prazer. Tomando esta perspectiva, as mulheres que mais prazer tiram na cama ou no areal ou no banco de trás de um carro são as que sabem perfeitamente que só se faz uma coisa de cada vez. pickwick