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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

21
Mai12

Falha de pontaria

pickwick

Depois de três horas de viagem, desde a capital, chegámos finalmente a Coimbra. Parecia estarem em curso as celebrações de um qualquer mega-casamento, tantos eram os carros que apitavam à nossa volta. Um deles atravessou à nossa frente, com três jovens alojados na bagageira aberta, de pernas penduradas no para-choques e segurando copos e garrafas. Provavelmente, não seria um casamento, mas um festejo futebolístico. 

 

Fui levar o meu companheiro de viagem até onde havia deixado o seu carro, numa ruela manhosa algures na zona antiga da cidade. Durante alguns minutos, fizemos a trasfega do material dele para o respectivo bólide. Mochilas e caixinhas, basicamente.

 

Entretanto, enquanto o Miguel ultimava a arrumação perfeccionista na bagageira, dei conta de uma moça ao longe. Loira e elegante, trajada com roupas de cores vistosas, entre o preto e o vermelho, acabava de fechar a porta do seu carro e metia-se a caminho, rua acima, na nossa direcção. Passo lento, como quem não tem pressa, em cima de um par de saltos altos - o calçado perfeito para uma rua com chão de “paralelos”.

 

O Miguel bateu com a porta da bagageira e eu fui ter com ele, com o meu ar de gajo chateado com a sorte: oh pá, já fechaste isso? que pressa! devias demorar mais tempo, para apreciarmos a gaja que aí vem… Fiz de conta que encetava o discurso de despedida, para ver se ela passava por nós. Pelo canto do olho, topei que já estava a poucos metros. Ui! Ui!

 

Nisto, ouço o Miguel: então? andas a passear?

 

Pensei logo: ah e tal, querem ver que a gaja é uma galdéria e o Miguel anda aí na má vida para a conhecer? Olhei-a de frente, enquanto eles trocavam beijinhos e faziam conversa de circunstância. Afinal, era moça para a minha idade, ou pouco mais velha. Mas fazia cá um vistaço! Uiiii!... Muito bem apresentada, realmente. No entanto, a combinação de elegância, roupa e cor de cabelo, fazia-me imaginar rapidamente uma mulher para todo o serviço.

 

Em menos de cinco segundos, o Miguel estava a apresentar-me a moça, beijinho-beijinho, nome para lá, nome para cá, ah e tal esta é a mulher do Fernando. Claro que é, pensei eu, mas que grande argolada! O Fernando é um amigo comum e excelente pessoa. Fiz meia dúzia de palavras de circunstância e meti-me a olhar para as fachadas das casas antigas à volta, na esperança de que a moça jamais percebesse que poucos segundos antes estava rotulada de rameira. Nunca se deve menosprezar a capacidade feminina para adivinhar, apenas com uma simples troca de olhares, o que vai na cabeça de um homem…

 

Pouco depois, despediu-se e foi embora, aguentando-se habilmente por cima dos “paralelos”, qual penico equilibrista. Não troquei palavra alguma com o Miguel sobre o assunto. Fiquei tão engasgado que não me ocorreu mesmo nadinha. Só dei Graças por não ter tido uma inoportuna descaída ao género da construção civil: nem assobios, nem caça aos macacos, nem meio-fósforo entalado nos caninos, nem um piropo de vocabulário refinado. Teria sido um incidente diplomático sem reparo possível. pickwick