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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

26
Ago07

A obsessão pelas maminhas

pickwick

Tenho andado a reparar que há uma obsessão teimosa e generalizada pelas maminhas, esses seres maléficos e endiabrados que se apresentam aos pares. Julgava eu, na minha inocência, que a ávida e selvagem obsessão pelos pares de maminhas era coisa só minha, um monstro psicológico criado na infância em resultado directo do contacto demasiado frequente com maminhas ao léu nas praias e parques de campismo do Algarve. Não, não é um monstro. Não, não me afecta só a mim. Para além de também afectar outros apreciadores da especialidade, afecta, em grande escala, as suas portadoras. Isto é, as portadoras das maminhas. Ou seja, as senhoras. Ou seja, o que eu quero dizer, sem querer ofender ninguém, isto é, sem querer ofender nenhuma senhora, ou menina, ou cachopa, seja galdéria ou mais séria que uma Santa, é que, a bem dizer, o sexo feminino tem uma obsessão intensa pelas respectivas maminhas. Cada qual, com as suas, mas, também, cheira-me, com as das outras, ou não fosse a mulher comum uma magnata da cobiça. Veio-me esta crença à lembrança depois de um estudo rigoroso e científico, ao longo de vários meses. E, pergunto a mim mesmo, como nasceu a queda para esta crença? Bom, acredito que tenha começado de forma inconsciente, pelo contacto mundano e quotidiano com incontáveis seios arredondados, em forma de bola-de-berlim-sem-creme, esferas perfeitas, quais bolas de cristal forradas a pele com aroma a baunilha e morango e rosas e outras mistelas com que as mulheres se perfumam. Semi-esferas carnudas, constantemente a apanharem sol e aragem, firmemente suportadas por evoluídas armações e complexos sistemas. Evolução e complexidade, é o que é. Pelo menos, é o que se deduz com uma leitura atenta de algumas descrições. Ah e tal, “invisível graças às suas copas moldadas”. Não sei quê, “alças amovíveis multiposições, duas posições de alças para cada copa à frente, para variar a profundidade dos decotes”. E tal, “barbas de baleia dos lados e barra antideslizante para assegurar um bom suporte”. Pois, e “colchete triplo atrás”. E também, “forro fino em microfibra”. Já agora, “muito elástico e com memória de forma, adapta-se às suas formas, segue todos os movimentos, realça o peito para um decote bonito e, finalmente, é completamente invisível sob a roupa”. Depois, “alças amovíveis com pequena mola atrás que permite transformá-lo em costas à competição”. Não há que ter dúvidas: há uma obsessão profunda das mulheres pela aparência das suas maminhas, e o resto é conversa. Tanta esfera, só podia ser. Aliás, é incrível como praticamente não se vêem maminhas espalmadas! Claro, há excepções, como o caso dramático e enjoativo da minha colega de trabalho, a tal loira dentuça, que continua a insistir na dispensa do uso de suportes, deixando que as maminhas descaiam quase até aos joelhos, dentro de vestidos e blusas escandalosamente decotados. Mas, bom, essa é uma excepção à generalidade, para a qual já deixou de haver esperança: nem para as maminhas, nem para aqueles dentes em forma de carapau-frito-em-curva. Fora esta excepção, a generalidade é mesmo as bolas-de-berlim-sem-creme. É bom para a vista, tenho que reconhecer. Dá um aspecto agradável, tipo teenager-18-maminha-rija. No capítulo dos sonhos, saltita entre aquele sonho que todos temos de comer alarvemente duas bolas-de-berlim-com-creme no meio da praia à mistura com incomodativos grãos de areia e um aroma no ar a protector-solar-20-aroma-pêssego, e aquele sonho que todos temos de que a consistência das maminhas aos dezoito anos seja eterna ou pelo menos até aos quarenta e nove anos. Antigamente, quando esta obsessão não estava tão implantada, circulava-se na rua ou no trabalho e, cá para com os nossos botões, comentávamos: ui!, tão direitinhas!, oh!, chegam ao umbigo!, eh lá!, que par!, chiça!, que foleiras!, e por aí fora. Não havia monotonia, portanto. Ora se chocava com a decepção da maminha-espalmada, ora se tonificava o olho com a alegria proporcionada por duas bolas-de-berlim-sem-creme. Hoje, a vida é um tédio. O cérebro dos apreciadores e das apreciadoras desta temática parecem a praia numa tarde de verão, com os vendedores de bolas-de-berlim a fazerem-se anunciar repetidamente, sem concorrência. Bolas-de-berlim, bolas-de-berlim, bolas-de-berlim… Não há um palmier, nem um caracol, nem um pudim tremelicando debaixo de uma blusa. pickwick