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Sábado, 10 de Fevereiro de 2007
Ana e o motorista II

Bom, com a conversa toda do Euromilhões e do motorista novo e jeitoso, a Ana ia atropelando violentamente uma jovem inocente de cerca de dezoito anos. Segundo a versão da própria Ana. Consta que, segundo relato pormenorizado e dramatizado a rigor, ia um camião do lado direito, perto da passadeira, a Ana não repara que vai o camião nem que há uma passadeira, pimba prego a fundo com a ansiedade de chegar ao lar-doce-lar, e, quando dá por isso, está em cima da passadeira, na qual uma apavorada jovem agita os braços no ar, ali numa fracção de segundo com a morte a cheirar-lhe o chulé dos pés. Ana mete travão a fundo, o carro já é um bom carro, apesar de ser o mesmo, e afocinha mesmo a tempo de não passar a ferro a moçoila em pânico. A colega da Ana, que entretanto viajava no seu próprio carro a poucos metros, ainda lhe vociferou um “és maluca!”, mas parece que a Ana ficou vidrada de todo e nem ligou. O descontrolo emocional apoderou-se da Ana, que quase não conseguiu tirar dali o carro, com tantos tremores e pestanejares de olhos, e eu ainda pensei que ela ia ter ali um ataque durante o próprio relato, tão bem que ela imitou a situação de pânico pessoal desse dia. Chegou a casa, o marido quis saber a que se deveu o filme, blá blá blá. Enfim. No fim do relato, ao qual assistiram várias pessoas, não resisti em gracejar com a fabulosa solução de ela contratar um motorista. Novo e jeitoso, obviamente! E, pasme-se, a Ana voltou a ter aquele nervoso miudinho, aquele arrepiar de espinha de quem ouve falar numa situação imaginária que a levaria ao rubro desde as peles até à ponta dos cabelos. Os lábios mexeram-se naqueles tiques denunciadores. Eu ri-me para ela. Do género, ai tu gostas de levar com ele. Gostas, gostas, sua maluca! Ela olhou-me. Deve ter telepatia! Ai se o meu homem me ouvisse a falar destas coisas! Boca aberta de medo, só de imaginar. Ela finge muito bem. Ai que o meu homem é assim todo direitinho. Aiiii… E aí é que comecei a perceber melhor o filme. Esta mulher vive uma segunda personalidade! É uma maluca, só pensa em gajos novos e jeitosos, tem o pé pesado, guincha por tudo e por nada, deixa transparecer uma personalidade de rigor e seriedade mas, no fundo, é uma maluca. A conversa deu para o MSN, que ontem ela tinha-se ligado no MSN, pela primeira vez. Eu meti-me com ela, ah e tal, foste lá, tão pouco tempo, entrar e sair. Bem, pensava eu que tinha sido por falta de tempo, como ela diz sempre. Mas não. A Ana descaiu-se e contou a verdade. O marido chegou a casa e ela entrou em pânico, não fosse ele apanhá-la nesse antro de depravação e sexo barato que é o MSN e a Internet. Correu para não sei onde, fechou a porta do escritório, foi sacudir o marido para outro lado qualquer, e regressou depois, sorrateiramente, para desligar o MSN e a Internet, não fosse ele desconfiar de qualquer coisinha. Oh Ana… bem, andas-me a sair cá uma maluca… que até fico espantado! Portanto, começou o descalabro daquele casamento. E de quem é a culpa? Das modernices, pois claro. E a Maria? Ah pois é! A Maria também entra na estória. Ainda a conversa ia no motorista, quando a Maria intervém em força, indagando se a Ana também estaria interessada numa motorista. Tipo a própria Maria, que estaria disponível para ganhar um ordenado de motorista de uma euromilionária. Ora bem, eu aí calei-me, mas fiquei cá a pensar para comigo se a Maria estava a tentar transmitir alguma mensagem em ultra sons, ou se não tinha percebido qual era a ideia do motorista novo e jeitoso. Esta gente é toda muito esquisita. Mas a Ana nem lhe respondeu, que devia estar com a mente completamente atravessada com um motorista seminu alapado no banco de trás de um Mercedes. Não é, Ana? Sua maluca, pá! Não tens vergonha? pickwick

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Quinta-feira, 8 de Fevereiro de 2007
Ana e o motorista
A Ana é uma colega minha com quarenta e troca o passo. Muitíssimo bem conservada, olhos azuis (acho eu, que se não forem azuis, é qualquer coisa assim sem ser castanho), cabelo preto, preto, preto e liso, mas em balde. O preto, é pintado, só pode, mas não faz mal. O liso em forma de balde, bom, é um tipo de penteado que inventei agora, numa transição entre o cabelinho daquela actriz portuguesa a preto e branco do cabelo à tigela e a gadelha da Manuela Moura Guedes. Cuida-se fisicamente, no corpo e no vestuário, estando mesmo naquele limite em que o corpo quase não aguenta mais e um dia destes explode para uma quarentona balofa e reboluda, que nenhum homem tem já paciência para aturar. Por falar em homem, a Ana é casadinha, tem uma filhota, e o marido é dono de um restaurante. Eu simpatizo com a Ana, note-se, acho-lhe uma certa graça, especialmente quando cerra a boquita e esbugalha os olhos. Fica muito gira. Também acho graça quando entra em pânico por ter de conduzir para outro destino que não seja o trabalho ou a casa. O “Bora” que o marido lhe ofereceu é uma porcaria de carro, nas palavras dela, mas não deixa de o embalar a 160 na primeira recta que encontra pelo caminho, faça chuva, sol, ou a esteja a estrada ladeada por árvores perfeitas para um encaixe perfeito entre os dois faróis dianteiros. Pronto, é uma gaja. O marido ganha muito dinheiro e ela também não ganha assim muito mal, mas, em comparação, o marido deve ganhar uma fortuna. Uma vez, ia ela para o trabalho, e ao passar numa ponte o carro deu com o rabo na curva à entrada, quase provocando um daqueles acidentes em que as gajas caem ao rio dentro de um carro despistado, como nos filmes. Se ela fosse loira, então era o filme perfeito, especialmente tratando-se do rio Mondego. Bem, quando chegou a casa, ah e tal ia quase tendo um acidente, dizia ela, porcaria de carro. No dia seguinte o marido ofereceu-lhe um carro novo, um Volkswagen Bora. Para juntar a um descapotável qualquer que já lhe tinha oferecido há uns tempos atrás. Agora o Bora também é uma porcaria. Sim, Ana, pois é. Bem, conversa puxa conversa, vai daí ao Euromilhões, ah e tal, que a Ana já devia ser a quinquagésima vez que comentava “se eu ganhasse o Euromilhões…”, e diz ela, desta vez: detesto conduzir, se ganhasse o Euromilhões, não deixava de trabalhar, porque gosto muito de trabalhar, mas arranjava um motorista para me trazer todos os dias. Pausa. Assim um motorista novo e jeitoso, rematou. Pausa escandalosa na mesa. Aposto que todos pensámos o mesmo: olha m’esta, casada e mãe de filhos, com idade para ter juízo, a querer um motorista novo e jeitoso… A Nanda, que é quarentona em fim de linha, solteirona e tia compulsiva (tia do tipo irmã de um dos pais das crianças), não se conteve: para que queres um motorista novo e jeitoso, se só o vês de costas? Nova pausa. Para meditação profunda. A Ana, com aquele jeito que só ela tem, saltitava com os lábios entre a posição de sorrisinho perverso e posição do ar sério e severo e puritano. Com mais incidência para a primeira posição. Portanto, traduzindo-lhe o pensamento, saía mais cedo, parava num pinhal, pimba no motorista, motorista pimba nela, voltam à estrada, manhã de trabalho, motorista vem buscá-la para almoço, pimba e pimba, tarde de trabalho, motorista regressa, pinhal, pimba, estrada, casa, e pronto. Parece um bom programa para uma ganhadora do Euromilhões. Ficou no ar: e o marido, não anda a dar conta do recado? Afinal, a rapariga ainda tem muito para dar, com aquele cabelinho pretinho, aqueles olhos clarinhos, aquela roupinha sempre a cair bem, as botinhas, os lábios fechadinhos como que a pedir, o sorrisinho a tremer no canto dos lábios como que a tentar fazer transparecer uma timidez feminina inexistente mas muito provocante, as costas direitas, a postura firme, os abanões pelo corpo todo, sei lá. Já agora, porque é que as mulheres se abanam? Será uma tentativa para chamar atenção para os volumes carnais em movimento, hei estamos aqui e somos abundantes e suculentos? Isto e outras coisas davam um livro. Davam, davam. pickwick
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publicado por pickwick às 20:44
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