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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

30
Jun07

Feng Shui? Ai, ai, ai…

pickwick

Ontem foi dia de tomada de posse do novo patronato da minha instituição. Foi uma cerimónia lindíssima, realizada com muita dignidade, cujos contornos se descrevem em breves palavras: dias atrás, cada um dos membros eleitos recebeu uma convocatória para a cerimónia, por carta em mão; no dia e hora marcados, comparecemos os quatro no auditório, para, na presença da presidente da Assembleia, assinarmos uma singela acta de tomada de posse; ah e tal, havia um compromisso que se costuma ler mas não encontrei o texto e vocês também não iam querer perder tempo com isso, comunicou ela com um sorriso; assinámos e fomos embora, não sem que antes a presidente da Assembleia rematasse a sua actuação com um “pronto, agora é convosco”. Bonita, não foi? Enfim. Viva a descrição! Descemos a escada para o piso térreo, a olharmos uns para os outros, e entrámos para o gabinete do patronato. Mesas vazias, armários praticamente vazios, computadores do tempo da senhora do telefone de tambores, um silêncio misterioso no ar. Então e agora? O ex-patronato não deveria aparecer para “passar a pasta”? Devia, mas não compareceu. Ninguém sabia de nada e apenas um pequeno molho de papéis com uma etiqueta de “assuntos pendentes” parecia esperar por nós. Nunca me vi nestes assados, e os outros três comparsas parecia que também não. É bonito termos um gabinete para nós. Dá classe. A mim, ocorre-me sempre ser este o palco ideal para se cobrar em géneros um qualquer favor. Como nos filmes. Meio encavacados, começámos por tentar dispor as secretárias de forma mais airosa, até porque, de novidade, havia o facto de deixar de existir o gabinete do patrão e o gabinete das vice-patroas, passando a haver um gabinete único para os quatro, para acabar de vez com o feudalismo medieval que imperou naquela instituição durante os últimos anos. Ou seja, dois gajos e duas gajas a tentar arrumar secretárias e computadores num gabinete generoso. Normalmente, até correria bem, mas, comigo, as coisas nunca correm bem. Há sempre… qualquer coisinha… que… Bem, começámos pela secretária do patrão. Atalhou logo a Maumau (nome de código da vice-patroa que tem uma cicatriz enorme na cara e faz caminhadas pelas serras ao fim-de-semana e cujo cão fugiu de casa no dia anterior e ainda não tinha aparecido e que é vegetariana e só bebe cerveja preta sem álcool) que ah e tal, seguindo as orientações do Feng Shui, a secretária do patrão não pode ficar na entrada/saída, porque ah e tal a energia e não sei quê. Feng Shui? Outra? E eu a pensar que, há uns anos atrás, me tinha visto livre de uma companheira que alinhou com esses esquemas… afinal, agora vou passar três anos num gabinete com uma vegetariana que acha que espalhar espelhos pequeninos em recantos estratégicos de uma sala vai melhorar o ambiente. Ela ainda não falou em espelhos, mas eu já estou a prever que, mais semana, menos semana, vão começar a surgir espelhos pequeninos no gabinete, naqueles sítios que não lembrariam ao Diabo. Pessoalmente, não tenho nada contra os crentes do Feng Shui. É uma sabedoria oriental e eu, que vivi alguns anos na China e pratiquei uma arte marcial japonesa durante quase uma década, tenho grande admiração e respeito por quase tudo o que vem de gente com os olhos em bico e que não parece óbvio à primeira vista. Quase tudo. Espelhos pequeninos é que, tenham paciência, mas não! Passadas umas horas sobre este episódio inicial, as duas vice-patroas apanharam-me sozinho no gabinete e entalaram-me: ah e tal, perguntou a Mizé, tu não tens nada contra plantas no gabinete, pois não?, é que dão um ar tão (suspiro)… Claro que não, respondi, com o ar mais conciliador que consegui arranjar. Desde que não choque contra nenhuma. A meio do dia, apareceu a Nanda. A Nanda é uma loira quarentona, que costuma falar muito baixinho, não vá a polícia política apanhá-la ao virar da esquina e deportá-la para a Somália. Entrou pelo gabinete dentro, aos saltinhos, como se fosse uma macaquinha a saltitar alegremente de nenúfar em nenúfar num qualquer pântano, com um sorriso rasgado do tamanho da coisa de um elefante fêmea (perdoem a brejeirice, mas não me ocorreu nada mais decente). Abracinhos, beijinhos, miminhos, a todos. Eu não curto muito estas cenas, entenda-se. Não fica bem. Para compensar, trouxe uma garrafinha de vinho verde de qualidade (presumo), que não abrimos por não se encontrar a uma temperatura conveniente. Foi um dia memorável. Ficou-me uma séria preocupação por causa das plantinhas. Um dia destes, arrisco-me a ter de ir para o gabinete de catana em punho, para conseguir abrir caminho até à minha secretária. Um dia destes, perderei toda a pouca dignidade que me poderia restar, quando um pombo pousado num ramo de uma planta de crescimento rápido defecar aquela mistela ácida e mal cheirosa em cima do meu ombro. Um dia destes, vou ter que me chatear com as plantinhas. pickwick