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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

14
Ago07

Serra abaixo, serra acima

pickwick
Para finalizar mais um dia de séria labuta no patronato, tivemos a sempre divertida visita da loiraça dentuça, esse belo exemplar de gaja que devia submeter-se a um processo intensivo de recauchutagem geral. Para variar, trouxe uma mini-saia toda na moda, sendo que o meio palmo superior da saia era de ganga e o meio palmo inferior da saia era de folhos, tipo anos-50-como-eu-queria-ser-apalpada. Sinceramente, se não fosse aquela armação de dentes a esticar-se cá para a frente, até fazia as delícias ao olho. Mas, assim, não obrigado. Não bastante a mini-saia nova, a loiraça trouxe-nos uma caixa de bolinhos, obviamente num descarado gesto de passar-nos graxa no céu da boca. Malandreca! Deves pensar que nos compras com bolos baratos, deves. Bom, de regresso a casa, final da tarde, numa daquelas viagens fantásticas entre a nostalgia de um passado glorioso e a desilusão de um presente mórbido, decidi-me por um futuro arrebatador, a começar logo daí a parcos minutos. E assim foi. Chegado a casa, troquei de indumentária, algo mais informal e desportivo, mochila às costas, e fui à garagem ver das minhas fabulásticas duas rodas. Coitada da bicicleta. Da última vez que esteve a uso, há uns meses atrás, a coisa não correu muito bem, choveu até mais não, e caiu a noite, enfim, um desespero. Hoje, tinha os pneus em baixo, sinal de falta de uso. Nada que não se resolvesse. Daqui, do cimo da minha aldeia, embalei o velocípede serra abaixo, em direcção ao rio Mondego, pelos trilhos que abundam entre pinhais e eucaliptais e mato. Quase atropelei uma matilha de cães sem dono que batiam uma sesta à sombra de umas mimosas. Passei ao lado do posto de trabalho de uma nova meretriz, que por azar não estava de serviço. Desci, desci, desci. Como é bom descer. Cansa mais os dedos nos travões do que as pernas a dar ao pedal. É relaxante. É fácil. Um gajo sente-se bem com os astros, acha que agora é que vai dominar o mundo, e tem quase a certeza que quando chegar a casa já está com um corpo fibroso, musculado e irresistível, ao qual sucumbirão resmas de donzelas. Depois chega-se lá abaixo, à beira do rio, circula-se mais umas centenas de metros na horizontal, a acompanhar o leito, e acaba-se a brincadeira. Na Póvoa-de-não-sei-quê, termina a horizontalidade do asfalto e é tudo a subir até São não-sei-quantos do Monte. Um gajo pára vinte e nove vezes pelo caminho, a arfar que mais parece que vai saltar um porta-aviões de dentro dos pulmões. Soltam-se pragas, o corpo musculado dá lugar a um excesso de peso embaraçante, a vida torna-se cinzenta, resmunga-se pela compra idiota de uma bicicleta sem motor, tenta-se disfarçar o desespero com uma exclamação de admiração pelo pôr-do-sol magnífico e as pernas não dão mais. Ali, a única coisa positiva é o reconhecimento da inteligentíssima escolha do trajecto: na Póvoa-de-não-sei-quê um gajo passa com o vigor todo de quem ainda não deu aos pedais, para apanhar uma estrada onde não passa ninguém e na qual pode parar-se quantas vezes forem necessárias sem passar vergonhas. A chegada a São não-sei-quantos do Monte teve que ser teatral, valendo as duas centenas de metros na horizontal que antecedem a aldeia, para recuperar o fôlego e dar um ar de garanhão. No verão, estas aldeias enchem-se de emigrantes saudosistas, cheios de filhas topo de gama com saias e vestidos adequados ao calor intenso, cabelos pintados de loiro e chinelos no pé, ansiosas por sexo fácil entre dois fardos de palha. Olé! À entrada de São não-sei-quantos do Monte, a filha ninfomaníaca e meia despida de um emigrante foi substituída por uma miudinha de sete anos, que ficou de boca aberta ao ver-me pedalar pela rua principal acima, que, naquela zona, era bem íngreme. Exclamou “Ah!”. Porquê? Mas, “Ah!”, porquê? Raio da miúda! Já não há respeito? Podia ter uma irmã com dezanove anos e ir chamá-la para ver aqui o candidato a garanhão a passar na rua, não podia? Podia, mas não foi. Enfim. Já não fazem miúdas de sete anos como antigamente. Adiante, rumo à minha aldeia, ainda passei por uns quantos lugarejos e aldeolas, felizmente já num planalto confortável, para poder dar ao pedal e manter o ar de garanhão. Correu bem, num dos lugarejos, ao passar à beira de uma capela, ao lado da qual estava uma gaja toda boa à espera de não sei quem. Correu mal, porque era a descer e eu devia ir pelo menos a 190 km/h. Tão depressa que ela nem me viu. Raios partam a minha vida, a comprar bicicletas demasiado velozes. Depois, dá nisto. Após duas horas montado no selim, cheguei à porta da minha garagem. Se houvesse elevador, tinha-o apanhado para o 1º andar. Um gajo já não tem idade para estas brincadeiras em cima de duas rodas. Depois do jantar fui levar o lixo à rua e estava a ver que caía pelas escadas abaixo, sem força nas pernas. A minha sorte é que não há gajas espalhadas pelas escadas e um gajo pode cambalear à vontade. A minha sorte é que não há gajas a fazer tempo à beira dos contentores do lixo e um gajo pode gemer por todos os lados só para erguer a tampa do contentor. A minha sorte é que não há gajas na minha rua e ponto final. pickwick
03
Jul07

Concorrência desleal

pickwick

Ontem, que por acaso foi Domingo, fui até à capital do meu distrito fazer uma palestra sobre várias coisas, entre as quais a Guerra Anglo-Boer na transição entre os séculos XIX e XX. Como se eu percebesse alguma coisa do assunto! Enfim, o povo contenta-se com pouco e quaisquer blasfémias projectadas pelos ares são recebidas com júbilo e cânticos de aclamação. A caminho da cidade, a cerca de vinte quilómetros da minha aldeia, concretamente na travessia de um rio que dá nome a uma famosa zona demarcada de vinhos, vi-a. Top branco e justo, saia preta esvoaçando graciosamente, botas de cabedal preto de cano alto, joelho ora à vista ora escondido, caminhar decidido e ritmado como se estivesse numa qualquer passerelle, cabelo solto pelas omoplatas, e uns óculos enormes para proteger os olhos do sol ou o sol das olheiras. Vi-a de costas, atravessando a ponte. Coisa bonita de se ver, confesso. Completamente deslocada geograficamente. Que faria uma raridade daquelas, num Domingo de manhã, sozinha, vistosa, a atravessar uma ponte perdida numa estrada entre montes e vales e matas? Olhei de lado e pareceu-me reconhecer uma menina-de-serventia que costuma plantar-se num cruzamento cem metros mais à frente. Nunca a tinha visto tão bem arranjadinha, tão cuidada, tão bonita, tão menina-inocente. Passei no cruzamento e lancei a vista para onde é hábito ela estar de serventia, sentada num balde de tinta vazio virado a contrário, a puxar umas fumaças. Junto ao balde, um cão rafeiro morto. Será que ela se ia plantar por lá, naquele cenário, à espera de cliente? Segui em frente e fui à palestra. Regressei já quase no fim da hora do almoço, com o estômago ainda vazio. Voltei a passar junto ao balde de tinta virado ao contrário com o cão morto a fazer-lhe companhia. Ao entrar na ponte, vi-a novamente, caminhando na minha direcção, com uma garrafa de água de litro e meio na mão, com a maior das descontracções. Realmente, estava mesmo muito apresentável. Se a memória não falha, costuma estar de serventia com umas calças de ganga rafeiras e uma camisola qualquer. Por ser Domingo, sei lá, estava toda catita, como se houvera picado o ponto na missa dominical. Sob o top branco notava-se, na perfeição, um soutien normalíssimo. Para que raio é que uma meretriz anda com um soutien? Faz sentido? Claro que não. E a que propósito é que uma graciosidade daquele calibre faz serventia num local ermo como aquele cruzamento, sujeita a toda a lixarada, poluição, canídeos mortos, ratazanas esfomeadas e clientes mal cheirosos? É um desperdício. É como atirar pérolas a porcos, digo eu. Uma mocinha daquelas devia trabalhar num bordel decente, com ar condicionado, banhos quentes, campainha na recepção, chão encerado e copos de água nas mesinhas de cabeceira para clientes com dentaduras postiças. E doze mudas de cuecas por dia! Condições de trabalho, portanto. Fiz uma pequena pesquisa na Internet e encontrei a foto de uma mulher que em muito se parece com a figura da menina-de-serventia em causa. A cor do top é ao contrário e a saia era preta. O corpo, muito idêntico. Enfim, bonito de se ver. No entanto, e para compensar estes dois “encontros” à beira do asfalto, um à ida, outro à vinda, falta-me relatar um terceiro “encontro”, ocorrido entre aqueles dois. Aconteceu à chegada às fraldas da cidade, quando virei da estrada principal para uma secundária que dava acesso a uma aldeia que já havia sido praticamente engolida pelo crescimento desenfreado da grande cidade. A cerca de vinte metros do cruzamento, já a deixar para trás a fila de carros a caminho do reboliço citadino, apanhei um daqueles sustos que nem com água gaseificada se recupera. Mesmo ali, ao lado esquerdo, debaixo de umas mimosas, entre ramos caídos e restos de entulho, estavam duas senhoras com idade para terem filhos a acabar a universidade, gorduchinhas como manda a idade e a falta de brio, com um ar altamente suspeito. Estavam de serviço! Obviamente. Não percebi qual das duas era a mais feia, mas aposto como passam o tempo a roer-se de inveja por cada qual ser menos feia que a outra qual. Aposto como adoram ser feias, mal feitas e terem um aspecto asqueroso tipo máquina-de-encerar-o-chão com defeitos causados por uso excessivo e continuado e momentos de sobreaquecimento. Aposto como pelo menos uma delas é desdentada e a outra tem borbulhas de pus nas virilhas. Aposto como fazem serventia a pares, quando assim solicitado pelo cliente. Aposto isto tudo. Mas, o que não consigo perceber, é como é que há seres humanos com pila ao pendurão que solicitam a serventia destas matronas fora de prazo e sem inspecção feita, quando há um exemplar de qualidade inegável, a poucos quilómetros dali, que presta serviço idêntico (à parte os pormenores técnicos de flexibilidade corporal e o caderno de encargos do serviço, claro). Assim, à primeira vista, parece-me um caso de concorrência desleal. Afinal de contas, como é que duas gajas naquele estado terminal (nem com tripla recauchutagem numa clínica brasileira ficavam em condições) podem competir, naquela profissão, com uma moçoila tão jovem e tão bem apresentada? Teoricamente, não haveria, sequer, competição. As duas, debaixo daquelas mimosas, acho que nem se fossem elas próprias a pagar, ou a oferecer bolos de frutos secos, se safavam. Mas, isto, sou eu a pensar, com a minha visão redutora e limitada do mundo. Às tantas, pensando de forma mais aberta, com um olho no horizonte do mau gosto do homem e o outro nas razões da mente que a própria mente desconhece, talvez chegue à conclusão de que a concorrência é desleal, sim, mas para o lado da moçoila jeitosa e bem apresentada. Basta, assim por momentos, contabilizar as coisas que as outras duas têm a mais: mais chicha, mais buracos de serventia, mais crostas, mais unhas podres, mais cataratas, mais banha, mais espaço entre dentes, mais lubrificante natural (banha derretida com o calor, entenda-se), mais área almofadada para posições cansativas, mais volume para amarfanhar com os dedos, mais batom esborratado à volta das beiças, etc. Pobre moçoila do cruzamento. Assim, com esta feroz concorrência, só mesmo dando serventia sem recibo, para poupar no IVA. pickwick