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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

15
Mai06

Os amigos da Meia Via

riverfl0w
Há passeios românticos, numa solarenga tarde de primavera, que facilmente se transformam em passeios nostálgicos. Por certo haverá casais de licenciados que passearão por ruas outrora calcorreadas com uma capa nojenta às costas, apontando para ali e para acolá, entre espasmos bestiais (de besta, entenda-se), recordando em voz alta as efemérides e as companhias que deram azo a cenas tristes de vómitos ao virar daquela ou de aqueloutra esquina. É uma forma de realizar um passeio nostálgico. Cada um tem a sua. Eu cá, foi mais de um saltinho à Meia Via. Para os menos sabidos e menos doutos em geografia nacional, a Meia Via é uma pacata aldeola ribatejana, banhada agora pela moderníssima A23, e alvo do malfadado progresso que assolou todo (ou quase) o país, remetendo para um outrora longínquo a paz e o sossego que faziam de nossa vida uma vida com qualidade de vida. Portanto, uma vida de qualidade. A Meia Via também devia ser assim. No passeio, recordei-me de alguns fogachos, à guisa de “felaches” e picos de acesso ao Memory Stick. Muito cansativo, digo já, ou não tivessem passado mais de três décadas sobre a última vez que estive na Meia Via. Como o tempo voa. Ou, adaptando à modernidade, o tempo agora passa a vida a andar de avião. Bom, entrado na Meia Via, o único pedaço que de lá me poderia recordar era mesmo a escola. Não que lá tivesse estudado, mas porque a minha mãezinha lá trabalhou durante um ano e eu tinha de ir com ela para lá, fazer tempo, entregue à liberdade condicionada do recreio de uma escola primária. Ao dobrar a curva, mesmo antes de bater de frente no edifício escolar, uma encosta suave fazia descida para a auto-estrada. Eu não sou muito de pesadelos, mas há que referir que tenho sorte por nunca ter tido sonhos atribulados com uma cena foleira que me aconteceu naquela encosta. Acho que foi o primeiro dá-de-frosques da minha vida, um verdadeiro brilharete dos “100 metros encosta acima”. A cena foleira deu-se numa tarde qualquer, tinha eu seis anos. Como puto que é puto a sério, e não os pedaços de carne amorfa e enjoada de que são feitas as crianças hoje em dia, não tardei enquanto não quebrei a liberdade condicionada, atravessei a estrada e abalei encosta abaixo, na ganância de explorar novos territórios de baldios, pinheiros e mata rasteira. A coisa é que correu mal, pois um cigano dos seus dez anos, que não tinha mais nada para fazer, topou-me ao longe e em pouco tempo estava também na encosta, aproximando-se de mim com um arame ferrugento nas mãos, esticando-o repetidamente e exibindo um ar sinistro e pouco amigável. Não me lembro bem, mas mandou umas bocas quaisquer sobre enrolar-me o arame ao pescoço e ah e tal. E eu, nem esperei para lhe responder educadamente que fosse à m****, até porque só umas semanas mais tarde é que devo ter aprendido a ser assim educado, vai lá saber-se com quem tive as lições. Em três tempos tinha esgalhado a encosta toda e saltava ligeiro por cima do muro da escola, provavelmente branco que nem umas ceroulas, e muito ofegante, com o coração a saltar-me pelas narinas. É fixe ser-se ameaçado com um arame e escapar. É bonito, até. Lembro que, a seguir ao muro, o conforto veio mesmo dos meus únicos amigos de então. Naquele pátio enorme aos olhos de um puto de seis anos, mas pequenino como agora pude constatar, costumava passar muito tempo com os alunos mais velhos, os da “tele-escola”, tudo acima da barreira dos 12 anos. Uns matulões, pensava eu, lá de baixo da minha minorca estatura. O “russo”, era como me chamavam, a propósito da cor do meu cabelo. Acho que só passados muitos anos é que percebi essa expressão, mas pronto, eles eram felizes assim, a chamar-me destas coisas. Fui ter com eles e fazer queixinhas. Tipo apresentação de queixa de tentativa de agressão numa esquadra da GNR, mas com a diferença que ali se obtinham efeitos práticos. Tal como eu entrei de um salto por cima do muro para dentro da escola, assim saiu um bando de matulões em direcção à encosta baldia. Não assisti a nada, mas desde aí nunca mais voltei a ter problemas com arames e tal. Só com ciganos atrás da minha bicicleta, mas isso é outra estória, noutro local. Uns gajos muito fixes, esses amigos da Meia Via. É curioso regressar a um local passados tantos anos. Especialmente pela nova perspectiva arquitectónica da coisa, pairando os olhos ao dobro da altura de antigamente. Um recreio gigantesco, agora tão mediano. Foi nesse recreio que andei “à porrada” a primeira e única vez da minha vida. Por acaso, mas só por mero acaso, foi por instigação dos meus amigos fixes da Meia Via, curiosos por verem como é que um puto pãozinho de leite com seis anos se safava embrulhado à pancada com um gandulo de dez anos, da aldeia. Lindo serviço! Mas safou-se bem, graças à boa alimentação caseira e à azelhice bilateral. Uma daquelas cenas de pancadaria muito violentas, em que os dois contendores se abraçam, espumam, gemem, rebolam, urram, fingem que matam o outro, mas não acertam uma. No fim, sobram umas caras muito vermelhas, um nariz alheio amassado com a pressão dos abraços, talvez um bocado de ranho a escolher pelas beiças, as gadelhas todas alvoraçadas, as fraldas de fora e a cabeça a andar à roda. Altamente! Teoricamente, como o outro é que teve o azar de ficar com o nariz amassado, sobrou-lhe a derrota. Eu cá não dei por nada, de tão desorientado que estava. Os meus amigos é que estavam todos contentes, que paródia! E o dia estava a correr muito bem, até chegar a minha mãezinha e prometer ajustar contas comigo em casa. Pior, foi chegar a casa e ela ajustar mesmo contas comigo! Foram tantas neste coiro que jurei para nunca mais na vida alinhar numa daquelas. Mas pronto, foi pelos amigos da Meia Via. Uns gajos fixes. pickwick