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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

08
Jun09

A saudosa Maria

pickwick
Uma das minhas colegas de trabalho deste ano (vá, chamemos-lhe Caty, para ninguém desconfiar) é familiar próxima (assim tipo prima) de um gajo com quem vivi durante cinco anos, num sótão de uma casa centenária, juntamente com mais três ou quatro rapazes. Éramos todos, na altura, jovens estudantes universitários, cheios de energia, sonhos e baboseiras.
Ora, acontece que, no passado fim-de-semana, a Caty calhou meter a conversa em dia com o primo e parece que veio à baila a minha pessoa. Será que o gajo contou algum disparate?, pensei eu. Será que me enterrou? Espero que tenha dito que eu era bom rapaz, muito zeloso e cumpridor, e que não me metia em confusões nem nos copos.
Ora, de todos os disparates que o primo lhe podia ter contado, qual é que ele foi buscar? A Maria, está claro. Ah e tal, contou a Caty a rir-se, ele contou-me de uma tal Maria…
E eu pensei logo para comigo: hum, sacana, andou-lhe a contar da minha ex-namorada que caminhava como uma pata, a abanar-se, e que um dia atirou uma mama para as minhas mãos e eu tive logo que pedir desculpa e livrar-me da mama…
No final do dia, não resisti mais tempo e resolvi meter conversa com a Caty, na esperança de ela me contar o que o primo se tinha andado a chibar. Felizmente, ou infelizmente, que ainda não sei, afinal, a Maria não era essa Maria, apesar de o nome Maria ter vindo por a outra também se chamar Maria, embora passado alguns anos eu já não gostasse tanto de lhe ter chamado Maria, mas também não ia voltar atrás e mudar-lhe o nome só por causa da outra, e como Marias há muitas, pronto, assim ficou.
E quem era a Maria? A Maria era uma faca-de-mato de estimação, que comprei há uns vinte anos atrás, para me acompanhar nas minhas deambulações pelas serras e matas. Tinha mais de um palmo de lâmina e o seu peso dava muito jeito na hora de desferir golpes nas giestas e silvas, enquanto que o fio bem afiado era de uma utilidade enorme quando se acabava de assar uma chouriça. Enfim. Uma ferramenta muito útil. Depois há aquela vez, num primeiro de Janeiro, quando saí do mato para pegar no carro na aldeia do Sabugueiro, e reparei que me tinham roubado a antena, e passei-me, e tirei a Maria da mochila e comecei a gritar e a esbracejar e a esgrimir a Maria e a ameaçar meio mundo, a tal ponto de ter espantado aquela malta toda que se reunia na praça onde jaziam os típicos troncos a arder. Mas, isso já lá vai.
Ora, não sei, ao certo, o que é que o primo lhe contou, mas, o certo é que, o que ficou na memória da Caty é que eu dormia com a Maria debaixo da almofada! Ou seja, está ali um gajo no patronato, a tentar dar um ar de civilizado, de consciente, de dedicado, de sereno, disto e daquilo, até toda a gente pensar que eu sou o gajo mais calmo e sereno à face da terra, e depois vem-me aquela rapariga com uma estória que ah e tal eu dormia com uma faca-de-mato debaixo da almofada e, ainda por cima, ela chamava-se Maria! A isto, chama-se uma valente facada na reputação!
Para mais, eu não dormia com a Maria debaixo da almofada. Há leitores deste blog que o podem confirmar. Vá, podia ficar assim a jeito, ao lado da mochila, mas, debaixo da almofada, é que nunca!
Reponha-se a verdade, carago!!! pickwick
08
Abr07

A Espada do Rei

pickwick

Não é a do Afonsinho, não. É o título do pior filme que vi nos últimos anos. Pior que isto, só mesmo ver um do Manoel de Oliveira em dia de dor de barriga. O original em inglês é “The King Maker”, para que os interessados se possam situar no universo cinematográfico. Bom, e onde é que eu fui buscar esta pérola estragada? Ao clube de vídeo da minha terrinha, claro está. Ainda se chama “clube de vídeo”, mas já não tem vídeos. Não faz mal, a gente compreende. Olhei para o panorama de filmes desconhecidos, paranormais, policiais de cueca e algibeira, monstros medonhos, gajas semi-nuas e sei lá mais o quê, e dei com a capa do que parecia ser um épico. Eu adoro filmes épicos: espadas, valores morais, braços cortados, decapitações, mais espadas, muitos cavalos, sangue, amor, gajas com túnicas transparentes e seios comedidos, lanças, gajas sujas de lama, mais cavalos e mais espadas. Gosto e pronto! E este parecia ser um, tal e qual. Todo contente, volvi a casa, para me deliciar com a sessão cinéfila, num sábado à noite, a sós, na paz e no sossego do meu canto. O pormenor de ser baseado numa história verídica, passada na Ásia em 1547, atraiu-me ainda mais. Mas, mais ainda, era o facto de a aventura se passar com portugueses! Sim, daqueles portugueses que deram meia-volta ao mundo para chegarem ao Oriente e andarem a negociar com chinocas e outros povos de olhos em bico e pele de cor suspeita. No caso presente, algures no que aparentava ser a Tailândia. O filme começa com um naufrágio de um navio supostamente português, cujo único sobrevivente se chama Fernando De Gama e dá à costa cheio de fraquezas. Quando acorda, vai ao mato procurar água potável e vai beber a um charco onde está um crocodilo enorme. Normalmente, num filme que meta crocodilos, há sempre um deles que abocanha ferozmente outro ser vivo, para gáudio dos espectadores. Neste caso, e apesar de o Fernando De Gama ter enfiado a cabeça no charco, mesmo a dois palmos do focinho do crocodilo, este não faz mais do que arrotar-lhe para cima. Foi o prenúncio de que algo não batia bem neste filme. Entretanto o homem é apanhado por uns árabes, que o levam para uma cidade onde abunda a mistura étnica para ser vendido como escravo. Quando sobe ao palanque para ser admirado pelos compradores, dá-lhe uma coisa ruim, esmurra um dos guardas, dá um triplo salto com pontapé certeiro nas queixadas de outro guarda e… pronto… a partir daí foi o fim da macacada! Disse para mim mesmo: já me lixei com o filme! Parecia um daqueles filmes do Jackie Chan, a saltitar em varandas, por cima de canoas, a voar para aqui e acolá, a lutar com três e quatro de cada vez, etc. Depois levou com uma moca na mioleira, desmaiou, foi comprado pela Maria De Torres que era portuguesa e filha de um construtor civil e podre de boa, foi recrutado para lutar pelo rei, depois foi promovido a guarda-costas do rei, depois o rei morreu porque a rainha o mandou assassinar, depois a rainha convenceu o povo de que ele é que tinha conspirado para a morte do rei, depois teve que desmascarar a rainha má, depois apareceu o irmão do rei que resolveu o problema, e depois viveram todos muito felizes e ele deve ter ido para a cama com a Maria De Torres. Não sei se já referi, mas a Maria De Torres era toda boa. A história não interessa. O filme ganha pelos pormenores fantásticos, alguns dos quais passo a descrever:

1. O De Gama, soldado português pela primeira vez no oriente, já dominava perfeitamente o karaté, ao nível dos melhores mestres. Os pontapés rotativos e os pontapés em voo parece que já haviam nascido com ele.

2. Nem todos tinham olhos em bico. A começar pelo irmão do rei da Tailândia (se é que aquele país esquisito era mesmo a Tailândia), que tinha os olhos tão em bico como os meus. Até a feiticeira com aspecto asqueroso que vivia numa caverna e deu à rainha a ervinha para envenenar o rei!

3. Naquele tempo, certamente, todos voavam. Não há cena de pancadaria no filme em que não haja gajos pendurados por cordas, a rodopiar no ar e a trepar andaimes e paredes sem mãos. Todos voam, até o velhote português que era pai da Maria De Torres e já estava fora do prazo.

4. Para grande desilusão minha, a Maria De Torres usava um corpete muito conservador. Inaceitável, especialmente numa terra asiática onde o corpo necessita de muito arejo. Incompreensível.

5. Os portugueses envolvidos no enredo têm nomes muito suspeitos. Fernando De Gama ainda se compreende, se bem que o “De” era escusado. Maria De Torres, idem, até porque sou fã das mulheres portuguesas chamadas Maria. Quanto ao pai da Maria, o Phillippe De Torres, francamente! Isso é lá nome de um construtor civil português que se preze?!

6. Regra geral, ninguém falava como gente normal. Além de todos falarem sempre em inglês (que os produtores nem se dignaram meter uns diálogos em tuga ou em tailandês, para tornar as coisas mais giras), pareciam ter sempre uma meia suja enfiada na boca a dificultar a fala. Ou como se tivessem metido à boca um rolo de papel higiénico embebido em cola para madeira. Enfim…

7. A rainha, assim que se apanhou com o marido a partir para uma dolorosa batalha, atirou-se para a cama com um amante secreto, um borra-botas qualquer. Minutos depois de terem sexo, a rainha é acometida por um súbito enjoo. Questionada pelo amante sobre a origem do enjoo, a rainha responde que vai ter um filho. Estes tailandeses são todos muito instantâneos, carago!

8. E as lutas de espadas? Uiiii!... Nunca vi tal coisa. Muito movimento em câmara-lenta, cada um à espera da sua vez para desferir o próximo golpe, machados contra espadas, espadas contra armas inventadas na hora, arcabuzes, canhões, setas em desenhos animados, sei lá.

9. E a cor do sangue derramado na batalha? Claramente cor-de-rosa. Então quando andam à pancada no rio, é tal e qual um batido de morango! É que nem um daltónico convencem com aquilo!

10. E ninjas? Também teve ninjas, ah pois é, todos de preto, a caírem do tecto e a rebolarem e depois levaram nas trombas do Fernando De Gama que sabia mais de karaté que eles todos juntos.

11. E os actores? Parecia que estavam a ler directamente das cábulas, e pela primeira vez!

12. E a Maria De Torres? Uiiiiiii… pickwick