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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

09
Out07

Fábula erótica – volume um

pickwick

Rebomilda era uma vaca leiteira, malhada, de porte majestoso, que passava os dias a pastar num lameiro na Serra da Freita, perdido num bonito vale verdejante. O facto de apenas pastar erva saudável e natural, evitando assim uma alimentação rica em porcarias sintéticas e industriais, permitia a Rebomilda ostentar um corpo fibroso e, quiçá, elegante. O sobe e desce no lameiro, a dificuldade inerente a progredir em terreno lamacento e a água natural abundante, contribuíam para essa elegância e fibra. Era, a bem dizer, aquilo a que se podia chamar uma bela vaca. Jeitosa, portanto. Certo dia de verão, em que o calor teimava em secar tudo o que não tivesse ao fresco, chegou ao vale verdejante uma esbelta lontra, de nome Magufas, com o pêlo lustroso e olhinhos bonitos. Chegou até ali subindo o ribeiro, saltitando entre penedos, calhaus e poças. Fez uma curva à esquerda, num raquítico afluente do ribeiro, subiu um pouco, e chegou ao lameiro da Rebomilda. Que verdura! Que paz! Que beleza! Uma nascente natural lançava um fio de água pelo lameiro abaixo, até ao ribeiro. Um enorme castanheiro, de braços longos e milhares de folhas, lançava uma apetitosa sombra sobre a erva húmida. Vendo Rebomilda ao fundo do lameiro, Magufas não fez cerimónias e dirigiu-se à vaca.

- Olá! Bom dia! Eu sou a Magufas e vim pelo ribeiro acima.

- Olá! Eu sou a Rebomilda. Como é que conseguiste subir o ribeiro sozinha? És tão pequenina!

- Oh, sou pequenina, mas oriento-me bem. Enquanto houver água, eu safo-me.

Rebomilda correu o corpo humedecido da lontra, de cima a baixo. Aquele palmo e meio de bicho parecia tão confiante. E tão engraçado. Que olhos tão giros.

- Então e vives aqui? – perguntou a lontra.

- Bem, passo aqui os dias, sim. De vez em quando, o meu dono vem mexer-me nas tetas e rouba-me umas dezenas de litros de leite. Eu não gosto muito.

- É melhor eu ter cuidado com o teu dono. Não me está a apetecer muito que ele me apanhe de surpresa e me mexa nas tetas para me tirar leite.

- Quais tetas?

- As minhas!

- Também tens tetas? – Rebomilda inclinou a cabeça, tentando espreitar para a barriga da lontra.

- Claro. Sou uma gaja! Uma lontra gaja! Por isso, tenho tetas!

- Oh, mas não te preocupes, o meu dono não vai perder tempo a tentar tirar-te leite. Daria muito trabalho e renderia quase nada. Ele quando vem para tirar leite é sempre para ir carregado.

- Mas podia querer meter-se comigo, se fosse tarado ou assim. Não gosto que me apertem as tetas à bruta.

- Bem, ele é assim um bocado tarado. Às vezes, quando vem com o nariz muito vermelho, põe-se a falar comigo, a fazer-me festinhas e a chamar-me Catarina. Não é que ele seja bruto, mas eu não gosto de sentir mãos calejadas em cima do meu corpo.

- Ah, pois é, mas sabes que mãos de macho são assim mesmo. Além de grotescas, não têm sensibilidade.

- Gostava que ele fosse um pouco sensível e me apertasse as tetas com mais delicadeza.

- Claro, até porque as tuas tetas são muito bonitas e é um crime maltratá-las.

- Achas?

- O quê?

- Que as minhas tetas são bonitas.

- Ora, claro que sim, notei isso logo que te vi. As tetas e não só.

- Ai… estás a deixar-me envergonhada…

- Não vale a pena ficares envergonhada. É um facto que és uma vaca muito gira, tens um corpo muito sensual, não és gorducha nem mal feita.

- Achas mesmo?

- Claro que sim.

- Bem, tu também…

- Sim…?

- Tu também.

- Eu também o quê?

- Oh, também és uma lontra muito gira, muito elegante, com uns olhos muito giros.

- Obrigada!

- Então e vais ficar por aqui?

- Estava a pensar passar aqui uns dias, aproveitar a paisagem, descansar, dormir umas sonecas e aproveitar a tua companhia. Achas bem?

- Ai, acho muitíssimo bem. Era excelente! Isto aqui é uma seca muito grande, passar os dias sozinha, de um lado para o outro. De vez em quando aparece uma raposa, para dar dois dedos de conversa.

- Ui, uma raposa? Eu adoro raposas! São tão… tão…

- Tão o quê?

- Eh pá, tão sexy!

- Sexy?

- Sim. Muito! Aquele focinho, aquela cauda sensual. Há três semanas atrás passei uns dias com uma raposa chamada Mimi. Conheces?

- Não, aqui perto só vive uma chamada Ana Teresa.

- Essa não conheço. Bom, mas a Mimi é uma doida! Passámos o tempo todo ora na toca dela, ora num charco. Fazíamos amor de meia em meia hora. Que maluca!

(silêncio no lameiro)

- Fizeste amor com ela?

- Sim. Foi tão bom! Nunca tinha experimentado, nem com uma raposa, nem sequer com uma lontra fêmea. Mas, adorei!

- Então e…

- Então e o quê?

- E é assim tão bom?

- Nunca experimentaste com outra vaca?

(continua) pickwick

10
Fev07

Ana e o motorista II

pickwick

Bom, com a conversa toda do Euromilhões e do motorista novo e jeitoso, a Ana ia atropelando violentamente uma jovem inocente de cerca de dezoito anos. Segundo a versão da própria Ana. Consta que, segundo relato pormenorizado e dramatizado a rigor, ia um camião do lado direito, perto da passadeira, a Ana não repara que vai o camião nem que há uma passadeira, pimba prego a fundo com a ansiedade de chegar ao lar-doce-lar, e, quando dá por isso, está em cima da passadeira, na qual uma apavorada jovem agita os braços no ar, ali numa fracção de segundo com a morte a cheirar-lhe o chulé dos pés. Ana mete travão a fundo, o carro já é um bom carro, apesar de ser o mesmo, e afocinha mesmo a tempo de não passar a ferro a moçoila em pânico. A colega da Ana, que entretanto viajava no seu próprio carro a poucos metros, ainda lhe vociferou um “és maluca!”, mas parece que a Ana ficou vidrada de todo e nem ligou. O descontrolo emocional apoderou-se da Ana, que quase não conseguiu tirar dali o carro, com tantos tremores e pestanejares de olhos, e eu ainda pensei que ela ia ter ali um ataque durante o próprio relato, tão bem que ela imitou a situação de pânico pessoal desse dia. Chegou a casa, o marido quis saber a que se deveu o filme, blá blá blá. Enfim. No fim do relato, ao qual assistiram várias pessoas, não resisti em gracejar com a fabulosa solução de ela contratar um motorista. Novo e jeitoso, obviamente! E, pasme-se, a Ana voltou a ter aquele nervoso miudinho, aquele arrepiar de espinha de quem ouve falar numa situação imaginária que a levaria ao rubro desde as peles até à ponta dos cabelos. Os lábios mexeram-se naqueles tiques denunciadores. Eu ri-me para ela. Do género, ai tu gostas de levar com ele. Gostas, gostas, sua maluca! Ela olhou-me. Deve ter telepatia! Ai se o meu homem me ouvisse a falar destas coisas! Boca aberta de medo, só de imaginar. Ela finge muito bem. Ai que o meu homem é assim todo direitinho. Aiiii… E aí é que comecei a perceber melhor o filme. Esta mulher vive uma segunda personalidade! É uma maluca, só pensa em gajos novos e jeitosos, tem o pé pesado, guincha por tudo e por nada, deixa transparecer uma personalidade de rigor e seriedade mas, no fundo, é uma maluca. A conversa deu para o MSN, que ontem ela tinha-se ligado no MSN, pela primeira vez. Eu meti-me com ela, ah e tal, foste lá, tão pouco tempo, entrar e sair. Bem, pensava eu que tinha sido por falta de tempo, como ela diz sempre. Mas não. A Ana descaiu-se e contou a verdade. O marido chegou a casa e ela entrou em pânico, não fosse ele apanhá-la nesse antro de depravação e sexo barato que é o MSN e a Internet. Correu para não sei onde, fechou a porta do escritório, foi sacudir o marido para outro lado qualquer, e regressou depois, sorrateiramente, para desligar o MSN e a Internet, não fosse ele desconfiar de qualquer coisinha. Oh Ana… bem, andas-me a sair cá uma maluca… que até fico espantado! Portanto, começou o descalabro daquele casamento. E de quem é a culpa? Das modernices, pois claro. E a Maria? Ah pois é! A Maria também entra na estória. Ainda a conversa ia no motorista, quando a Maria intervém em força, indagando se a Ana também estaria interessada numa motorista. Tipo a própria Maria, que estaria disponível para ganhar um ordenado de motorista de uma euromilionária. Ora bem, eu aí calei-me, mas fiquei cá a pensar para comigo se a Maria estava a tentar transmitir alguma mensagem em ultra sons, ou se não tinha percebido qual era a ideia do motorista novo e jeitoso. Esta gente é toda muito esquisita. Mas a Ana nem lhe respondeu, que devia estar com a mente completamente atravessada com um motorista seminu alapado no banco de trás de um Mercedes. Não é, Ana? Sua maluca, pá! Não tens vergonha? pickwick