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Segunda-feira, 7 de Julho de 2008
50 passos para começar mal um fim-de-semana
  1. Combine encontrar-se com um amigo de infância na véspera de um acampamento de reencontro de amigos de infância (designe-se por Miguel o nome de código do amigo).
  2. Combine que o encontro seja para jantar, à beira de um lago, na base dos petiscos tradicionais portugueses.
  3. Apareça atempadamente, com quarenta minutos de atraso.
  4. Traga uma geleira cheia de cervejas bem frescas.
  5. Estenda uma toalha e comece a assar uma chouriça tipo caseira.
  6. Abra uma garrafa de tinto para acompanhar adequadamente.
  7. Vá mordiscando um queijo de cabra entalado entre pedaços de pão.
  8. Coma umas batatinhas fritas, para salgar o manjar.
  9. Queime alguns pêlos do antebraço, durante a assadura da chouriça.
  10. Faça equilibrismo de alto nível, para evitar que o copo se entorne quando pousado no terreno vertical.
  11. Vá arrotando, de três em três minutos, para demonstrar que está a ter um grande prazer.
  12. Teça bonitos comentários sobre a natureza, o vinho tinto e os porcos dos quais se fazem belas chouriças.
  13. Depois de acabar o vinho tinto, consuma algumas cervejas bem frescas, deixando o gás destas actuar na digestão.
  14. Discretamente, largue uma ou duas bufas, que são rapidamente levadas pela brisa nocturna.
  15. Repare como já é meia-noite.
  16. Beba mais umas cervejas.
  17. Fume uma cigarrilha, para acentuar o efeito do álcool ingerido.
  18. Aceite o convite do amigo para passarem ao digestivo.
  19. Beba meio-litro de digestivo, nomeadamente aguardente de pêra.
  20. Como está calor, beba mais uma cerveja.
  21. Convide o amigo para apreciar um licor de uva caseiro, produção pessoal.
  22. Prepare a bagageira do carro para passarem a noite, que montar uma tenda dá muito trabalho e ainda por cima ninguém trouxe uma.
  23. Já na horizontal, aceda à necessidade crónica que o seu amigo tem de encher os copos com o licor.
  24. Continuando na horizontal, fique com a sensação de que o amigo acabou de lhe impingir mais uma cerveja fresca.
  25. Na mesma posição, prove mais um bocado do licor de uva, servido em copo cheio.
  26. Aceite outra cerveja, mas perca a noção do que está a beber.
  27. Perca a noção do que bebeu, do que comeu, de onde está, e comece a roncar, para fazer um dueto sinfónico com o seu amigo.
  28. Acorde já com o sol no horizonte, estique-se até ao pára-choques e “gregorie” (conjugação do verbo “gregoriar”, isto é, chamar pelo Gregório).
  29. Enquanto tenta retomar o sono, assista ao espectáculo do seu amigo também “gregoriar” com sucesso, com os beiços no pára-choques.
  30. Desligue o despertador do telemóvel, quando este toque para avisar que está na hora de receber o resto dos amigos que vão chegar de bem longe para o reencontro.
  31. Durma profundamente, embalado pelo roncar do seu amigo.
  32. Acorde sobressaltado, completamente agoniado e num planeta distante.
  33. Salte para fora da bagageira do carro.
  34. Repare como a garrafa do licor de uva ficou fazia.
  35. Conte as garrafas de cerveja vazias.
  36. Repare no escandaloso nível da garrafa de aguardente de pêra.
  37. Faça um ar de enjoado ao ver as poças de vomitado azedo mesmo debaixo do pára-choques.
  38. Tente, em vão, acordar o seu amigo, até porque falta menos de meia-hora para chegar o resto do pessoal.
  39. Dê uma volta pelas redondezas, aproveitando para “gregoriar” mais um pouco, apoiando-se acrobaticamente no tronco de uma árvore.
  40. Diga mal da sua vida.
  41. Vá a correr buscar um rolo de papel higiénico e refugie-se numa densa mata de fetos.
  42. Alivie essa pressão matinal.
  43. Beba uma água com gás Vimeiro, trazida estrategicamente dentro da geleira.
  44. Tente, com sucesso limitado, acordar o seu amigo.
  45. Assista, com compaixão, ao percurso do seu amigo: uma voltinha, um chamamento pelo Gregório, e uma corrida para a mata com um rolo de papel higiénico.
  46. Receba, com um ar visivelmente transtornado, os seus amigos que entretanto vão chegando de Lisboa, Porto, Santarém e Angola.
  47. Faça um ar transtornado quando lhe perguntam pelo almoço.
  48. Aproveite enquanto todos almoçam, para tentar dormir mais um bocado e curar a maldita dor de cabeça e a irritante tontura.
  49. Diga ainda mais mal da vida.
  50. Ao jantar, já depois de uma hora a remar em cima de uma jangada, de uma valente sesta e de um grande escaldão no corpo quase todo, faça um esforço e prove um pedacinho de cada petisco que os seus amigos trouxeram. pickwick
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publicado por pickwick às 23:13
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Quinta-feira, 28 de Junho de 2007
Marte não é verde?!

Ontem foi noite de convívio. Assim que me despachei das burocracias, rumei ao Feira Nova para me abastecer do essencial para uma jantarada: chicha e álcool. Daí, andor para casa das miúdas que não sabem cozinhar: a Maria e a Carlota (nomes de código, obviamente). Objectivo: fazer o jantar para sete pessoas. Em casa só estava a Carlota, que não percebe nada de culinária e ficou a observar aqui o artista: fura o lombo, enfia linguiça toda lá dentro (ui), enfia também uma cenoura, ensopa em sal, azeite e cebola, fatias de bacon a rechear, batatinhas cortadas ao meio ainda com a casca, uma película de alumínio por cima et voilá. Sem palitos! Sem nada para fazer, começámos a ver o Piratas das Caraíbas 2 no portátil, para tentar fugir ao tédio das telenovelas que estavam a começar na televisão. Entretanto, chega o Fil. Ah e tal, estão a ver os piratas? Eu tenho ali o Homem Aranha 3. Busca! Nem a um quarto do primeiro filme íamos e já estávamos a mudar para o segundo. E que segundo: filmado com uma câmera dentro de um cinema, mais cinzento do que aquilo não era possível. E, ainda nem a um quarto do segundo filme íamos, quando surge o resto dos convivas, mais cedo do que o esperado. Ah e tal, que o lombo ainda não estava no forno e o povo com fome. Acende-se o forno, mas passada meia hora ainda nem o azeite fervilha. Bela porcaria de forno! Já não há gajas com fornos que aquecem? Ou só lhes aquece o outro forno? Hem?! Para passar o tempo, que a assadura ainda demorava, começámos a jogar Trivial Pursuit, com a edição Genius que me lembrei de levar. Mais valia ter estado quieto! Devo andar mesmo arredado do mundo, nestes últimos meses. Ao fim de uma hora, os meus adversários tinham os queijos quase todos e eu ainda com o barco vazio, a apanhar moscas. Onde raio é que meti a cultura? Mas que perguntas maricas foram aquelas que me calharam? E, já agora, saber o nome do guarda-redes do FCP na época mil novecentos e troca o passo é cultura? Não me parece! Enfim, mais envergonhado eu não poderia ficar. É o que dá restringir as vivências e as leituras a um mundo demasiado estreito e limitado. É o que dá a especialização cultural. Um gajo depois passa vergonhas e não sabe coisas simples... Ah e tal, então qual é a cor de Marte? Ah e tal, respondi eu, os marcianos são verdes, portanto, Marte é verde. O pessoal olhava para as garrafas de Super Bock vazias à minha frente e ria-se. Algumas eram de Super Bock Green, o que poderá ter influenciado a minha brilhante resposta. A minha mãezinha espancava-me se soubesse destas figuras. Enfim. Deprimente. Por falar em deprimente e em Super Bock, experimentei a Green e até não dá vómitos. Escapa, portanto. Por falar em escapar, a colega da cueca laranja escapou-se. Ah e tal, se beber um copo respondo a todas as perguntas que me fizerem e conto tudo o que quiserem saber, disse ela há umas semanas atrás. Ui! Quem responde a tudo, também salta para cima da mesa e faz um strip ao som da banda sonora de uma novela pirosa qualquer, pensei eu. Não a estava a ver nesses preparos, mas nunca se sabe… a cerveja tem razões que a própria razão desconhece. E a colega da cueca laranja escapou-se porque o carro dela enguiçou e deixou-a a pé algures na A25. Por falar em saltar para cima da mesa, chegou-me agora à alembradura que o recheio da casa da Maria e da Carlota deixa muito a desejar. Para começar, não tem pratos e talheres e copos suficientes para meia dúzia de pessoas. Portanto, era comer lombo de porco recheado em cima de pires e pratos de sobremesa, espetar a carne com garfinhos para ervilhas, servir da travessa com uma tenaz da salada, comer o gelado num púcaro, e por aí fora. A desgraça era tanta que, já depois da sobremesa, a mulher do Clau – grávida de oito meses e com uma barriga que mais parecia ir parir um boi daí a minutos -, que estava sossegada na sua cadeira, estatelou-se ao comprido no chão da sala, com bocados de madeira a saltarem e o pânico a instalar-se nos convivas. Convenhamos que uma mulher muito, muito, muito grávida, acabada de jantar por dois, a dar um trambolhão do cimo de uma cadeira que se desfez em paus por obra e graça do espírito do caruncho, não é propriamente uma situação para relaxar e beber mais um copo. Aparentemente, não houve azar e daqui a um mês o Clau vai ter que andar a limpar a caca do traseiro de um bebé. Por falar em copo, levei uma garrafinha de 25 cl de licor de uva, uma especialidade caseira produzida aqui neste ninho dos disparates onde habito. A Maria, que já tinha bebido uma ou duas Green’s, parece que gostou da pomada. Tanto gostou, que esvaziou a garrafa. E tanto esvaziou a garrafa, que descobrimos que, nela, a quantidade de asneiras (leia-se palavrões e obscenidades) que lhe salta dos beiços é directamente proporcional ao álcool ingerido. Melhor dizendo, não é bem um caso de proporcionalidade directa. Se assim fosse, para zero centilitros de álcool ingerido, saltariam dos beiços zero asneiras. Na verdade, e porque devemos sempre honrar a verdade, a Maria debita asneiras até com água mineral. Juntando a isso o facto de fumar LM Light (se fumasse Kentucky mata-ratos, eu ainda a desculpava, mas LM é que não), temos aqui uma forte candidata a tia solteira ad eternum. Para mais, ela passou a noite a responder a uns telefonemas estranhos e compridos e melosos e suspeitos, sendo que ficou a sensação que seria um rabo de saias do outro lado das ondas, o que a projectaria para o universo das lésbicas. Era bonito, não era? E mais, num dos telefonemas, refugiou-se no quarto para uma maior privacidade, mas o Clau não resistiu (e eu segui-lhe as pegadas) e foi espreitar à porta do quarto para ver o que se passava. Imagine-se, de um lado para o outro, com um pau de incenso a arder. Quem é que acende um pau de incenso só para atender um telefonema, quando no piso de baixo estão os convidados para um jantar de convívio? Quem? Hum?... Ah, pois é!... pickwick

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publicado por pickwick às 22:53
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