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Terça-feira, 9 de Outubro de 2007
Fábula erótica – volume um

Rebomilda era uma vaca leiteira, malhada, de porte majestoso, que passava os dias a pastar num lameiro na Serra da Freita, perdido num bonito vale verdejante. O facto de apenas pastar erva saudável e natural, evitando assim uma alimentação rica em porcarias sintéticas e industriais, permitia a Rebomilda ostentar um corpo fibroso e, quiçá, elegante. O sobe e desce no lameiro, a dificuldade inerente a progredir em terreno lamacento e a água natural abundante, contribuíam para essa elegância e fibra. Era, a bem dizer, aquilo a que se podia chamar uma bela vaca. Jeitosa, portanto. Certo dia de verão, em que o calor teimava em secar tudo o que não tivesse ao fresco, chegou ao vale verdejante uma esbelta lontra, de nome Magufas, com o pêlo lustroso e olhinhos bonitos. Chegou até ali subindo o ribeiro, saltitando entre penedos, calhaus e poças. Fez uma curva à esquerda, num raquítico afluente do ribeiro, subiu um pouco, e chegou ao lameiro da Rebomilda. Que verdura! Que paz! Que beleza! Uma nascente natural lançava um fio de água pelo lameiro abaixo, até ao ribeiro. Um enorme castanheiro, de braços longos e milhares de folhas, lançava uma apetitosa sombra sobre a erva húmida. Vendo Rebomilda ao fundo do lameiro, Magufas não fez cerimónias e dirigiu-se à vaca.

- Olá! Bom dia! Eu sou a Magufas e vim pelo ribeiro acima.

- Olá! Eu sou a Rebomilda. Como é que conseguiste subir o ribeiro sozinha? És tão pequenina!

- Oh, sou pequenina, mas oriento-me bem. Enquanto houver água, eu safo-me.

Rebomilda correu o corpo humedecido da lontra, de cima a baixo. Aquele palmo e meio de bicho parecia tão confiante. E tão engraçado. Que olhos tão giros.

- Então e vives aqui? – perguntou a lontra.

- Bem, passo aqui os dias, sim. De vez em quando, o meu dono vem mexer-me nas tetas e rouba-me umas dezenas de litros de leite. Eu não gosto muito.

- É melhor eu ter cuidado com o teu dono. Não me está a apetecer muito que ele me apanhe de surpresa e me mexa nas tetas para me tirar leite.

- Quais tetas?

- As minhas!

- Também tens tetas? – Rebomilda inclinou a cabeça, tentando espreitar para a barriga da lontra.

- Claro. Sou uma gaja! Uma lontra gaja! Por isso, tenho tetas!

- Oh, mas não te preocupes, o meu dono não vai perder tempo a tentar tirar-te leite. Daria muito trabalho e renderia quase nada. Ele quando vem para tirar leite é sempre para ir carregado.

- Mas podia querer meter-se comigo, se fosse tarado ou assim. Não gosto que me apertem as tetas à bruta.

- Bem, ele é assim um bocado tarado. Às vezes, quando vem com o nariz muito vermelho, põe-se a falar comigo, a fazer-me festinhas e a chamar-me Catarina. Não é que ele seja bruto, mas eu não gosto de sentir mãos calejadas em cima do meu corpo.

- Ah, pois é, mas sabes que mãos de macho são assim mesmo. Além de grotescas, não têm sensibilidade.

- Gostava que ele fosse um pouco sensível e me apertasse as tetas com mais delicadeza.

- Claro, até porque as tuas tetas são muito bonitas e é um crime maltratá-las.

- Achas?

- O quê?

- Que as minhas tetas são bonitas.

- Ora, claro que sim, notei isso logo que te vi. As tetas e não só.

- Ai… estás a deixar-me envergonhada…

- Não vale a pena ficares envergonhada. É um facto que és uma vaca muito gira, tens um corpo muito sensual, não és gorducha nem mal feita.

- Achas mesmo?

- Claro que sim.

- Bem, tu também…

- Sim…?

- Tu também.

- Eu também o quê?

- Oh, também és uma lontra muito gira, muito elegante, com uns olhos muito giros.

- Obrigada!

- Então e vais ficar por aqui?

- Estava a pensar passar aqui uns dias, aproveitar a paisagem, descansar, dormir umas sonecas e aproveitar a tua companhia. Achas bem?

- Ai, acho muitíssimo bem. Era excelente! Isto aqui é uma seca muito grande, passar os dias sozinha, de um lado para o outro. De vez em quando aparece uma raposa, para dar dois dedos de conversa.

- Ui, uma raposa? Eu adoro raposas! São tão… tão…

- Tão o quê?

- Eh pá, tão sexy!

- Sexy?

- Sim. Muito! Aquele focinho, aquela cauda sensual. Há três semanas atrás passei uns dias com uma raposa chamada Mimi. Conheces?

- Não, aqui perto só vive uma chamada Ana Teresa.

- Essa não conheço. Bom, mas a Mimi é uma doida! Passámos o tempo todo ora na toca dela, ora num charco. Fazíamos amor de meia em meia hora. Que maluca!

(silêncio no lameiro)

- Fizeste amor com ela?

- Sim. Foi tão bom! Nunca tinha experimentado, nem com uma raposa, nem sequer com uma lontra fêmea. Mas, adorei!

- Então e…

- Então e o quê?

- E é assim tão bom?

- Nunca experimentaste com outra vaca?

(continua) pickwick

publicado por pickwick às 00:10
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Segunda-feira, 16 de Julho de 2007
Miss t-shirt molhada de Ermelo 1
Serve o presente post para dar conta das desventuras do passado fim-de-semana, numa intensa e cansativa expedição ao Parque Natural do Alvão, de botas e mochila.
 
1. Rumo às fisgas
O Parque Natural do Alvão não é assim uma coisa muito grande… é como um bidé em relação ao rio Tejo, em termos comparativos. Mas é bonito, verdejante e cheio de fios de água. A escolha recaiu sobre Ermelo, como destino para largar o carro e avançar mato dentro de mochila às costas. Ermelo, essa bela localidade de casas de pedra, plantada na encosta da montanha e ah e tal. Perto, mas não demasiado perto, ficam as Fisgas de Ermelo, fenómeno natural muito procurado pelos turistas. Era o nosso destino desse dia. Optámos por um trajecto menos óbvio, fora de alcatrão. Aliás, fora de tudo e mais alguma coisa, a avaliar pelo ribeiro que tivemos que atravessar, saltitando harmoniosamente sobre uns calhaus. Foi neste ribeiro, de água límpida e gelada, que aproveitámos para almoçar e bater uma valente sesta. Vida difícil, a de quem se mete pelo mato em busca de momentos descontraídos e em contacto directo com a natureza.
 
2. Pornografia de graça
Por falar em natureza, dediquei mais de uma hora à fotografia, aproveitando o facto de o dono da máquina estar esparramado em cima de uma rocha a roncar que nem um porco. Já tinha saudades de tirar fotografias. Borboletas, calhaus, quedas de água, calhaus, ervinhas, calhaus, árvores, calhaus, folhas, árvores, etc. Uma das últimas fotos, teve como protagonista uma libelinha que se abanava toda rente ao chão, junto a um calhau, para a frente e para trás. Se fosse um urso, eu diria que estava a procriar. Aproveitei para fotografar a libelinha, que não parecia querer sair dali. Até que, de repente, afastou-se definitivamente. Aí, pude ver, então, que não era uma libelinha, mas duas. Estavam a dar uma queca à sombra e ficaram tão incomodadas com a minha indiscreta presença que foram continuar o serviço para a sombra de outro carvalho. Desculpem lá, ó pá, não sabia…
 
3. Raio do lameiro
Já me tinha esquecido do que é um lameiro. Quando se anda, assim, por locais esquisitos, corre-se o risco de encontrar um lameiro. Um lameiro, que não sei bem o que é nem para que serve, é um terreno inclinado, numa encosta, permanentemente inundado, cheio de marcas de cascos de bovinos, com erva até mais não. Provavelmente serve para as vacas lá irem empanturrar-se com ervas. Para o excursionista, o lameiro serve apenas para um gajo se enterrar com lama até ao tornozelo, borrar as botas todas, e obrigar o cérebro a processar rapidamente palavrões e obscenidades. Uma nojeira, portanto.
 
4. As fisgas
No meu tempo, as fisgas serviam para dar um ar macho, colocadas no bolso de trás de uns calções rotos. Agora, há estas modernices dos telemóveis com sons polifónicos e muito maricas, e quedas de água a que dão o nome de fisgas. Pronto, assim seja. Tivemos o privilégio de chegar às Fisgas de Ermelo pelo lado contrário dos turistas. Do outro lado do caudal de água, portanto. Abancámo-nos no cimo de um penhasco, feitos lordes, a observar a gigantesca queda de água. É uma coisa bonita de se ver. Os turistas aparecem do outro lado do vale, nos seus carros e autocarros, ah e tal, tão bonito. Enfim.
 
5. As banhistas
As quedas de água dão lugar a piscinas naturais, onde se amontoam banhistas. Também é bonito de se ver. No Verão, os jovens das aldeias trazem os outros jovens das aldeias cujos pais emigraram para algures. As jovens, essas, exibem os melhores dos biquinis, com os melhores dos penteados e os apetrechos de maquilhagem mais modernaços. Um gajo nem consegue apreciar a natureza e a transparência das águas. É uma chatice!
 
6. Paz e sossego
Com o cair do dia, os banhistas metem-se a milhas, de regresso às aldeias, onde os papás já estão com copos a mais e as mamãs ultimam o repasto para o jantar, sendo que a noite terminará bem tarde, provavelmente com umas cambalhotas atrás de uns fardos de palha. Com a debandada, procurámos um local adequado para abancarmos, tomarmos o gosto à água, jantarmos e passarmos a noite. Uma praia fluvial em miniatura esperávamo-nos, a uns cem metros das fisgas, rumo à nascente do rio Olo. Do outro lado da praia, um fio de água escorria lentamente para o leito do rio, rocha abaixo. Na perspectiva de uma noite agoniante de desidratação, derivada do muito provável consumo de vinho tinto ao jantar, utilizei uma série de refinadíssimas técnicas para conseguir captar alguma da água potável. Pura e fresca. Enquanto o jantar não era servido, aproveitámos para ficarmos enfiados na água até ao pescoço, tipo morsas. O termómetro especial-de-corrida do Paulo, que faz parte do seu relógio também especial-de-corrida, marcava vinte graus, depois de meia hora soterrado debaixo de calhaus, a vinte centímetros de profundidade. A isto, chama-se boa vida. A única coisa a perturbar o ambiente relaxante era mesmo o coaxar das rãs, esses estúpidos seres saltitantes. Por várias vezes, ponderámos seriamente a hipótese de trocar a chouriça por coxas de rãs. Optámos por manter a chouriça e enxotar as rãs com calhaus certeiros. pickwick
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publicado por pickwick às 22:22
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