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Segunda-feira, 25 de Junho de 2007
Uma queca de 10 em 10 anos

Neste fim-de-semana que passou, fui à bela da capital. Aproveitei, entre lasanhas, arroz-doce, cervejolas e muita TV, para ir ao cinema! Cinco euros e quarenta cêntimos, e embrulha! Por esse dinheiro, eu… enfim... Bem, uma das partes boas de se ir ao cinema, nomeadamente junto à capital, como por exemplo numa vilazeca chamada Oeiras, mais concretamente num centro comercial daqueles cheios de tias e tops, é a paisagem que se vislumbra em redor. Meu Deus! Já não há decoro? Não, não há! É um mundo de melões e meloas, redondinhos e aconchegados, como que a brotar para fora do algodão. Ui! Pormenores à parte, fui ver o “Piratas das Caraíbas”, episódio 3. Eu gostei muito dos outros episódios: monstros, costeletas, tiques gay, quase nenhum sangue, tiros de canhão, golpes de espada, piratas, fantasmas, água, enfim, uma coisa muito divertidíssima e cultural. Como tal, havia que ver o terceiro episódio. E assim foi. Acontece que, para mal dos meus pecados e da minha carteira, o filme saiu uma borrada. A tal ponto que, no intervalo, ponderei seriamente a possibilidade de levantar e sair, antes que morresse de tédio. Não sei bem, explicar, mas fiquei com a impressão que o Manoel de Oliveira tinha metido a sua colherada na realização. A coisa começou logo mal, com uns gajos a serem enforcados, ah e tal, depois começam todos a cantar uma suposta canção de piratas (já não há canções de piratas para homens?), e aparece um puto a cantar com um aparelho nos dentes. Ah, pois é! Aparelho! Tipo armação metálica! Tipo gradeamento! No século não sei quantos! Admite-se? Claro que não! Uma borrada, é o que é! Depois, o filme é uma sucessão desidratada de pirosices, enredos aborrecidos, chineses sujos, chineses com unhas compridas sujas, barcos de pernas para o ar, passeios ao mundo dos mortos, barcos a atravessarem desertos em cima de caranguejos, feiticeiras desdentadas e com mau hálito, mapas rotativos, gajos com cara de polvo (bom, este já aparecia nos outros, mas podiam ter variado e metido um gajo com cara de pizza de cogumelos, não?), a Keira Knightley que ainda não foi fazer um implante de silicone, coitada que tanto precisa, e por aí fora. Estava a ver que nunca mais acabava! Em jeito de conclusão, e porque quero contar já o fim do filme para ver se menos pessoas têm a mesma desilusão que eu, a aventura termina com a fatalidade de a Elisabete e o Will se passarem a encontrar de dez em dez anos, numa ilha qualquer, para darem uma queca. E só pode ser de dez em dez anos! Portanto, tantas aventuras, tantos putos com aparelhos nos dentes, tantos barcos, tantos canhões, tantos piratas emporcalhados, para quê? Para o casalinho acabar assim? Dez anos é muito tempo! Alguma coisa ainda murcha pelo caminho! Ou apodrece! Ah, pois é! Mas, vejamos, em dez anos, a Elisabete pode ir fazer um implante. Ou dois. Os dois podem tomar banho. Ela pode comprar uma lingerie oriental, em vez de andar com aquela vestimenta achinesada que de chinês não tem nada. O Will pode ir ao barbeiro e arrancar aquela penugem das beiças. O puto pode ir ao dentista e tirar o aparelho. A feiticeira pode ir com ele e remendar aqueles buracos negros no meio do marfim apodrecido. Aliás, podem ir todos com eles ao dentista, porque o que há ali mais naquele filme é dentes podres! E o Jack, esse ser mítico, pode ir lavar o rímel das olheiras com um esfregão da loiça e Fairy. E o Pérola Negra também podia ir ali à estação de serviço levar uma escovadela, que com tanta lapa e estrela do mar agarradas ao casco fica com muito mau aspecto. Depois, passados os dez anos, ah e tal, ilha, Will, Elisabete, areia, upa, upa. E ainda chamam isto um filme de piratas? No meu tempo, os filmes de piratas eram a sério: o bom da fita acabava com uma gaja debaixo de um braço e uma arca de ouro debaixo do outro. Era simples e era de homem. Hoje, como se pode constatar, acaba-se com uma vida conjugal vivida com intervalos de dez anos. Um dia a rebolar na praia, mais dez anos, outro dia a rebolar na praia, mais dez anos, mais praia, mais anos. Não há condições! Aliás, este filme bate certo com os valores que a sociedade e a comunicação social vão valorizando: o convite ao adultério por falta de uso (dez anos?! poxa!...), o sexo ao ar livre e em zonas públicas (a polícia marítima devia intervir…), o sadomasoquismo mal disfarçado (sexo com areia pelo meio havia de ser o quê?), a ausência de hábitos alimentares saudáveis (gajo que é gajo, tem mesmo que comer! e não pode passar um filme inteiro a alimentar-se do ar conspurcado de um convés), a anorexia (aquela Keira até é gira, mas os ossos sempre a chocalharem uns nos outros dão muito mau aspecto e são um péssimo exemplo para as nossas jovens), e, claro, a violência. A bela da violência. Que aprendem as nossas crianças com este filme? Pois claro: quando aparecer o bicho papão, em vez de lhe darem Chocapic e o encaminharem para um jardim, atacam-no barbaramente com espadas e pistolas de carregar pelo cano! pickwick 

publicado por pickwick às 23:01
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