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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

27
Set07

Na senda dos malfeitores

pickwick
(comentário sociológico… talvez as televisões estejam mais numa de entrevistarem sociólogos, em vez de políticos rascas)
Hoje as notícias traziam uma notícia humorística. Eu adoro notícias humorísticas. Falava sobre um malfeitor, tipo ladrão, que rouba as pessoas, e que tinha assaltado umas casas ou lá o que era. Um gatuno, portanto. Azar do catano, uma das casas era de um juiz qualquer. Eu não gosto de juízes. Deviam morrer todos afogados numa fossa séptica. Fiquei logo em pulgas com a notícia, porque as notícias de assaltos de há largos meses para cá, terminam sempre da mesma maneira: a polícia esfalfa-se para caçar os malandros que andam a meter-se com as pessoas de bem, apanha-os, levam-nos a tribunal, e o senhor doutor sua excelência excelentíssima manda-os em liberdade coitados, para qualquer dia se pensar em julgá-los ou pagar-lhes umas cervejinhas ou outra coisa qualquer que esteja dentro da mesma onda e tenha igual importância. Assim que vi a notícia, pensei: será que o pobre coitado vai sair em liberdade com aquela medida manhosa que permite à escumalha dar cabo da vida a qualquer cidadão e continuar a viver calmamente, com uma palmadinha nas costas? Cheirava-me que não. E, claro que não! Preventiva com o desgraçado. É preciso ter azar. Os juízes deviam ter as suas residências identificadas com um pano cor-de-verde-limão içado numa vara de bambu, mesmo no cimo do telhado. Enfim. Ou não terem residência, pronto. Ou não existirem. Ou assim. Bom, o tema e o choque que não deveria ter tido, remeteram-me, durante uns momentos, para uns pensamentos “vintage”, próprios de uma juventude cheia de hormonas inflamadas e muito pouco juízo. Nesse tempo, havia soluções rápidas para tudo. Depois de roubarem uma televisão de casa dos meus pais, era óbvio que a nação necessitava de uma perseguição eficiente e fatal. Dediquei horas a elaborar planos e perspectivar cenários. Sempre gostei de elaborar planos e perspectivar cenários. Os meus primeiros planos de sempre foram elaborados aos onze anos, encavalitado no cimo de uma parede que fazia de divisória nas casas-de-banho de uma caserna militar. Nesse tempo (a isto chama-se um “nested flashback”), e derivado da revolta que nutria por todo o ser humano que me chateasse o juízo, a solução óbvia era evadir-me para o outro lado do Atlântico. Assim, no cimo da parede, de caneta e bloco de notas na mão, fiz os planos. Material necessário, embarque clandestino num barco de transporte de contentores ou porcarias com destino ao Brasil, desembarque às escondidas, viagem para a Amazónia, construir cabana, caçar, fogueira, água, tanga à Tarzan, paz e sossego. O amigo que estava empoleirado na parede do lado e me escutava cheio de paciência, dava conselhos, punha questões, ria-se e abanava a cabeça. O bloco já não deve existir, nunca fui ao Brasil, mas a mania de planear idiotices, fugas e tropelias, tinha acabado de começar, prometendo uma carreira de sucessos. Quanto às perseguições aos malfeitores, como forma de contribuir para a limpeza da nação, mereceu planos também muito elaborados. Dupla personalidade e identidade, treino intensivo nas planícies alentejanas, armas silenciosas, métodos pouco convencionais de abater pessoas, matrículas falsas, criação de situações-armadilha para caçar gatunos em flagrante, sessões de tortura nos casos mais negros, e por aí fora. Um projecto de Pelotão da Morte, se conseguisse arranjar simpatizantes. Bairros inteiros a desaparecerem em chamas. Zonas de chuto transformadas em charco de caça aos patos. Depois ah e tal já não sei o quê as gajas e nunca mais me lembrei disto. A culpa, portanto, foi das gajas. Se não fossem as gajas a distraírem-me, a nação portuguesa seria hoje um paraíso de gente de bem, com a gatunagem erradicada. Os jornais bater-se-iam para noticiar coisas bonitas e iniciativas altruístas. Enfim, os caminhos da humanidade sofrem destes revezes. Não querendo parecer machista, embora não deixando de ser macho, relembro, a este propósito, o célebre pensamento da nação chinesa: as mulheres são a causa de todos os problemas que há no mundo. Têm toda a razão. No dia a partir do qual a ciência permita a procriação humana sem a intervenção directa dos seres humanos, as mulheres verão o peso da culpa da Humanidade sair-lhes de cima dos ombros. A partir desse dia, as provetas, ou o que faça o papel, serão a causa de todos os problemas que há no mundo. pickwick