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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

10
Jun12

Mirador de gajedo

pickwick

Há gente que, por meia palha, faz julgamentos sumários de personalidade. Apelida fulano e sicrano, bate palmas, pega fogo às barbatanas, aponta o dedinho, enfim. Tem dias em que eu também sou assim e não perdoo.

 

Ora, estava eu distraidíssimo a divagar sobre coisas importantes da vida, quando uma leitora deste blog traçou implacavelmente o meu suposto perfil: “mirador de gajedo”. Podia ter-se lembrado de outra coisa, eventualmente mais bonita? Podia, claro que podia, mas deu-lhe para isto. Curiosamente, não encontrei argumentos imediatos para refutar tal traçado, mas isso agora não interessa.

 

No dia seguinte, calhou ir almoçar com colegas de trabalho. Quando dei por mim, estava sentado à mesa com seis mulheres. Em princípio, é agradável almoçar numa mesa só com mulheres.

 

À minha frente, a colega que me apalpou obscenamente o braço num dia de chuva. À minha direita, a colega que o mais majestoso par de coiso-e-tal que deambula lá pelo local de trabalho, sendo que o dito par sobressai predominantemente entre a Primavera e o início do Outono, devido às temperaturas mais amenas que incentivam à condução de camisas descapotadas. Em frente a esta, uma colega com dentadura estilo “Aliens, o oitavo passageiro”, mas que compensa pela sua boa disposição e disponibilidade. Ao lado da colega do majestoso par, uma de par inferior, da qual não há muito a dizer, excepto que o pai quase que se afoga em dinheiro. Na extremidade da mesa, a eguazita saltitona com cérebro de ervilha e uma colega discreta sobre quem jamais teria assunto para escrever.

 

À distância de uma jogada do Cavalo no xadrez, estava uma colega que veio almoçar connosco para matar saudades. Já escrevi sobre ela várias vezes, porque aquela elegância toda combina muitíssimo bem com a respectiva dimensão peitoral. Mas, neste dia, a minha impressão sobre ela tomou uma nova perspectiva. O cabelo liso, pintado de carmim, caía pelo crânio abaixo, apenas se desviando para deixar passar duas orelhas-de-abano. Acima dos lábios pintados, dois olhinhos de carneiro-mal-morto. Tive um flash e juro que vi nela Neytiri, a personagem feminina saída-da-casca de “Avatar”, numa versão atacada de palidez súbita. Só lhe faltava a pele azul e a cauda sexy a mergulhar na sopa para aferir a temperatura. Entretanto, aproveitei a minha camuflagem natural para verificar se os restantes adereços eram compatíveis com a Neytiri e dei de caras com um decote exótico e improvável: o extraordinário decote-de-alguidar!

 

O termo “decote-de-alguidar” surgiu-me naturalmente. Por comparação: imagine-se um alguidar cortado ao meio (na vertical) e colado a uma parede de onde brotam duas maminhas que parecem ficar a nadar no vazio dentro de um meio-alguidar tão grande. Ou seja, houve ali um claro lapso na escolha do tamanho do sutiã… ou… é algo que estará a entrar na moda e eu tive a honra de ver um dos primeiros exemplares. Seja como for, não fica bem. Não fica bem, porque alguém pode começar a atirar azeitonas ou ervilhas lá para dentro. Não fica bem, porque o empregado pode descuidar-se, confundir o prato da sopa com o decote e provocar uma queimadura. E não fica bem, porque, de onde eu estava sentado, garanto que conseguia encestar uma bola com, pelo menos, 18 cm de diâmetro! pickwick

14
Abr12

Recalibrar

pickwick

Páscoa, é época de rever a família, atulhar o organismo com calorias e gorduras, e passar uma imensidão de tempo afundado num sofá em frente a uma TV.

 

Por vezes, um gajo satura as nádegas e a espinha de tanto descanso de qualidade e aspira a uma lufada de ar fresco. Propus ao meu irmãozinho fazermos uma investigação breve sobre o “gajedo” no mega centro comercial da cidade, ao que ele contrapôs com um comentário de elevadíssimo nível intelectual: não, irmãozinho, vamos é recalibrar! Eu sei que o meu irmãozinho anda a ficar meio apanhado de tantas horas a trabalhar em investigação ao nível da fusão nuclear e outras coisas do mesmo calibre, mas, ainda assim, fiquei impressionado. Vamos ao centro comercial recalibrar. Soa bem. Parece que vamos recalibrar um osciloscópio, quando, de facto, a verdade esconde o desejo obsceno de recalibrar dezenas de elásticos de cuequinhas e sutiãs.

 

Já no centro comercial, não aguentei mais e obriguei o meu irmãozinho a pronunciar-se mais profundamente sobre o conceito da recalibração aplicado ao sexo feminino. O que dali saiu, foi uma teoria lindíssima, surpreendentemente aplicável no dia-a-dia, a saber:

 

Do ponto de vista masculino, quando convivemos algum tempo com a nossa namorada, amante colada, companheira ou esposa, há um processo insuspeito do nosso subconsciente que nos convence progressivamente de que a dita cuja é realmente gira. Tal não corresponde à realidade, claro, porque a sorte não é para todos e há razões que a escassez de dinheiro desconhece. Mas, aos poucos, vamos ficando convencidos. Elas dão uma mãozinha, um perfume novo, lingerie fatal, menos saia, depilação cuidada, culinária apurada, carinho quanto baste, etc. Assim, e a bem daquele pragmatismo que nunca devemos abandonar (uma gaja boa, é uma gaja boa), é de suma importância que seja feita uma recalibração periódica dos parâmetros que assistem à definição da beleza feminina. Tal consegue-se, com alguma facilidade, lavando as vistas em qualquer centro comercial ou praia onde abundem exemplares do sexo feminino. Um gajo observa, tira as medidas, arreganha as beiças, deixa escorrer um fio de baba pelo canto da boca, sussurra umas exclamações pouco católicas, e, aos poucos e poucos, começa a recalibrar a bitola da qualidade. A fasquia sobe, evidentemente, até à medida standard, pelo que a namorada ou esposa sofre uma queda brutal na reapreciação, com uma aproximação consistente à realidade. Já não é “gira”, mas apenas “engraçada”. De “boa”, passa a “dá para umas trincas”.

 

Já agora, o que é uma amante colada? É uma namorada que não se assume como namorada, mas que vive colada como uma, embora seja apenas amante. Dá para perceber? Pois claro.

 

Este processo de recalibração deve ser usado com algum cuidado e critério. Se decorrer em ambiente adverso, apinhado de gajas feias, peludas, gordas, mal feitas e forradas com trapos, incorre-se no risco de ficarmos convencidos que a nossa namorada ou coiso e tal é uma forte candidata a Miss Universo (já ganhou) e uma excelente capa para a Playboy. pickwick