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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

06
Ago08

Malditos veraneantes

pickwick

Domingo, acordei às 8h da madrugada, ainda o sol vinha a subir no horizonte e os caraças dos passaralhos não tinham feito mais nada senão chilrear debaixo da minha janela, ou vá, no quintal da vizinha.

 
A cambalear, completamente bêbado de sono, uma mão a coçar a nuca e a outra a fazer o mesmo dentro da cueca, avancei decidido até à sanita, para cuidar das necessidades. Satisfeitas, tomei aquela banhoca que tira o mau cheiro do sovaco e refresca a alma.
 
Com aquele jeito de mestre que só os homens conseguem, passei a lâmina dupla pelas beiças, levando a eito a espuma e os pêlos, como se fosse o começo de uma nova vida. Todo nu, completamente nu, passei a ferro uns calções e uma t-shirt a dizer “Impossível”. É um acto arriscado, pois um gesto imprudente pode levar a uma catastrófica queimadela na ponta da pilinha, gerando um drama e muitos decibéis.
 
Vesti-me, meti a máquina a tiracolo, catei os pertences pessoais imprescindíveis e desci para o carro, com aquele prazer de sentir que a vizinhança ainda estava toda na cama, deixando a rua toda por minha conta. Bom, agora que descobri que há uma gaja toda boa a morar no prédio mesmo em frente ao meu, poderia acrescentar que o prazer foi parcial, pois faltou ir a entrar no carro e a gaja estar a pentear-se em plena varanda, ainda com a minúscula roupagem de dormir, abanada pela brisa matinal. Enfim. Parece que não se penteia na varanda.
 
Pela fresca é que se anda bem na estrada: temperatura agradável e pouca gente a conspurcar o asfalto. Um dos trajectos que tinha pela frente, era uma parte do troço Seia-Covilhã, naquela curvatura permanente que passa por Loriga e Unhais-da-Serra. Apesar de ninguém parecer gostar daquele trajecto, eu, que o fiz semanalmente durante um ano inteiro, nos remotos anos de 2000 e 2001, tenho particular simpatia por ele.
 
A meio do percurso, dei de caras com uma povoação que dá pelo nome de Alvoco da Serra. E pensei cá para comigo: mas que é isto? Alvoco da Serra? Carago! Já me enganei!
 
Dei meia volta e tentei regressar a um suposto cruzamento onde supostamente teria tomado a estrada errada. Não encontrei cruzamento algum, pelo que, mais adiante, tive que voltar a inverter a marcha, resignando-me a um muito provável lapso no sistema de armazenamento de dados. Pouco depois estava a entrar noutra povoação, também com um nome estranhíssimo: Outeiro da Vinha. Este não era um dia de sorte, sendo provável que a povoação seguinte fosse Faro ou Beja.
 
Ao atravessar Outeiro da Vinha, tentei lembrar-me das aldeolas por onde costumava passar naquele trajecto, ocorrendo-me duas delas, cujos nomes me saltavam para a frente do processador: Vasco Esteves de Baixo e Vasco Esteves de Cima.
 
Assim que cheguei a Vasco Esteves de Baixo, compreendi como me estão a fazer falta umas férias e como o Alzheimer me anda a afectar em larga medida.
 
O meu destino ficava bem mais à frente, numa aldeola que responde pelo nome de Barco, embora não tenha encontrado nenhum veículo aquático, nem sequer um leito de água. Objectivo? Mais uma reportagem fotográfica, com a minha Canon SX100IS e o estúpido cartão de 4Gb.
 
Mais um desastre, com a parelha Canon-4Gb a deixar-me embaraçado, centenas de fotos a desaparecerem de vista, às dezenas de cada vez. Mesmo assim, fui teimoso e insisti no gatilho. Que se lixe, pensei eu.
 
Para além do desatino com a tecnologia, ainda apanhei um daqueles escaldões de lagosta, passei horas a pingar suor que nem um porco e comecei a ter delírios com aquele fantástico e gelado néctar de cevada.
 
Pelas 16h30, despedi-me dos meus anfitriões e meti-me à estrada, quase engolindo a frescura gelada do ar condicionado do carro. Na mente, tinha-se desenhado um programa de festas fantástico: ia parar na primeira tasca à beira da estrada, beber sofregamente uma caneca de meio litro de cerveja geladíssima, e, depois, parar na primeira fonte à beira da estrada e beber água que nem um animal até ficar a verter água com ranho pelas narinas.
 
Obviamente, a tasca seria daquelas mesmo à beira da estrada, numa aldeia perdida no meio dos montes, com pouquíssima clientela, propriedade de um fulano barrigudo e todo suado que estava a dormir a sesta enquanto a sua filha de 19 anos toda boa fazia o atendimento aos clientes. Ela também estaria cheia de calor, com um top laranja arregaçado e calções tipo mangueira-dos-bombeiros.
 
Para meu desespero, que fui viver para a província para poder ter paz e sossego, todas as tascas estavam a abarrotar de clientes. Veraneantes. Resmas! Por todo o lado. E não eram só carros com matrícula amarela com um “F” estampado no meio das estrelinhas. Fui somando quilómetros, às dezenas, sem encontrar qualquer tasca onde pudesse ser atendido com um raio de privacidade superior a meio metro.
 
Às tantas, comecei a compenetrar-me que a cerveja teria que ficar para outras núpcias. Mas, a garganta estava tão seca e a desidratação era tal, que seria obrigatório parar na primeira fonte que me aparecesse.
 
Acontece que os veraneantes são, de facto, uma praga impressionante. Em todas as fontes por onde passei, havia resmas de veraneantes a empestar o ambiente, alapados nas sombras, ocupando o espaço público. Uma após outra, fui deixando para trás todas as fontes, rogando pragas e insultando ferozmente todos os veraneantes que andavam fora de casa, atravessando-se no meu caminho.
 
Felizmente, num golpe de sorte, já quase a chegar a São Romão, encontrei uma fonte sem ninguém. Pudera, não tinha zona de estacionamento em cima da fonte. Parei o carro a uns metros e, de uma corrida, não fosse aparecer algum veraneante com ares de melga, atingi a saída de água. Com um ar ganancioso, numa pose parecida com aquele mutante do “Senhor dos Anéis” que passava a vida a sussurrar pelo anel, bebi água até ficar quase o depósito cheio, com aquela sensação de que bastaria um tímido arroto para me sair água pelo nariz e pelas orelhas e pelos olhos.
 
Muitos quilómetros mais à frente, chegado à minha aldeia, fui direitinho ao Pingo Doce atulhar o cestinho com cervejas. Já em casa, esperei uns intermináveis 25 minutos para que o congelador cumprisse a sua missão, findos os quais comecei a concretizar o sonho que se tinha iniciado logo a seguir ao almoço, quando o calor do dia era mais abrasador. E foi com a cerveja meio gelada a escorrer pela goela que comecei a escrever este post.
 
Entretanto, parei de beber, porque me lembrei que mais logo ainda tenho de sair para ir regar as plantas a casa de uma amiga que foi de férias… uma veraneante, portanto. Ora bolas… pickwick
14
Jan07

One night in Aveiro

pickwick

Ora bem, situemo-nos. Sábado de manhã, Alfa Pendular rumo a Lisboa. Duas cadeiras atrás e do lado oposto, uma moçoila de vinte e poucos anos, cabelo preto escuro, sentada de esguelha, dossier no regaço, casado aberto por cima de um top preto muito descaído à frente. Linda. Sexy! Suspiro. Já em Lisboa, a chegar à estação de Santa Apolónia, coloco-me estrategicamente dois palmos atrás dela, mesmo à porta da carruagem. Olho de soslaio. Quilos de rímel pesam-lhe nas pestanas com vinte centímetros de comprimento. Vá, vinte centímetros também não, mas aí uns dois, valia. Mais uma mulher completamente estragada pela maquilhagem. Enfim. Na gare, e para descomprimir, reparo nas mulheres que desceram do mesmo comboio. Uma delas, dois metros à frente, leva uns sapatos com uns saltos altos, daqueles assim altos. Algo vai mal com um deles, que a cada pisadela tomba todo de lado, obrigando a dona a gingar-se num movimento pouco elegante. Mas estas gajas não têm vergonha de saírem para a rua assim com sapatos destes, correndo o risco de fazerem figuras tristes destas? Francamente. Bom, passou o dia, voltei a apanhar outro Alfa Pendular, já sem gajas com decotes, e desembarquei em Coimbra, já noite. Meti-me no bólide e, como combinado de véspera, abalei até Aveiro para jantar. Espetada mista, para quem interessar saber. Nando, para a próxima, é tinto ou cerveja, está bem? Aquela porcaria cor-de-rosa sabia a detergente para o bidé, não tinha gás e estava à temperatura ambiente. Depois, e por uma questão de tradição, uma tripa com ovos moles para sobremesa. Entretanto, Aveiro vivia a folia desgarrada da Festa de São Gonçalinho. A quem não sabe, passo a descrever, em traços gerais, esta festividade. Estão a ver a capela de São Gonçalinho? Pronto, as gajas sobem lá acima com umas sacas enormes cheias de cavacas doces. As cavacas são uns doces foleiros, pintados de branco, que parecem pensos higiénicos fossilizados. Bom, lá de cima, bem de cima, que a capela é alta, onde uma varanda circunda por completo a cúpula da capela, as gajas atiram as cavacas cá para baixo. Muitas cavacas. São atiradas com suavidade e carinho, mas, por alguma razão que desconheço, de vez em quando há uma gaja que se passa e dispara umas cavacas em velocidade rapidíssima. Deve ser dos desgostos amorosos. Cá em baixo, o largo em volta da capela enche-se de gente. Uma dúzia de gajos, de todas as idades, uns com dentes e outros sem eles, erguem para os céus varas enormes, em cujas pontas amarraram sacos, tipo cesto de basquetebol. Objectivo? Pois claro, conseguir apanhar as cavacas com os sacos. Também há uns heróis que se aventuram com as mãos livres, mas só quem não levou com uma vinda lá de cima é que não sabe o quanto dói no osso. No meio disto tudo, há sempre uns caramelos a fazerem batota: em vez de sacos, ou cestos, usam um guarda-chuva todo aberto, tipo antena parabólica. Que falta de desportivismo, francamente. Na rua da capela, dezenas de bancas ocupam um lado e o outro da rua, sendo que vendem, basicamente, cavacas. Sim, um mar de cavacas a vender, chuva de cavacas pelos céus, é uma autêntica paranóia! Como se não bastasse, havia palco montado e artista convidado. Ah pois é! José Cid! Ah pois é! Era tanta gente na praça que só consegui espreitar de fugira o ecrã gigante que replicava o palco. Mas ouvia-se bem. José Cid, pois então. Percebi, após breves minutos, que o José Cid é um verdadeiro artista português. Um artista sério! E estou a falar a sério! Os cantores que andam para aí, com resmas de fãs atrás, pá, francamente, são umas fraudes. Nota-se pelas letras das canções: inventam as coisas mais disparatadas, para rimarem umas coisas com as outras, frases sem sentido, palavras inventadas na hora, parecem estórias escritas por criancinhas de sete anos. Parecem aqueles filmes franceses, armados em intelectuais e que não têm ponta por onde se pegue. É um desastre! O José Cid é que é! E está aí para as curvas. Não o vi, mas pronto, deve estar. Peruca, dentadura postiça e a abanar a cabeça como o Stevie Wonder. Mas será que só eu é que reparo nas letras pirosas que povoam as “obras” do Sardas, do Reininho mal-criado, do JPP, do Ruizinho monocórdico, do ceguinho dos abrunhos e por aí fora? É pá! Não têm jeito nenhum! Bom, provavelmente por via da idade, o espectáculo do Cid acabou pouco antes da meia-noite, pelo que, dada a debandada geral, fui-me plantar no ponto central das pontes, muito estrategicamente, a ver o mar de gente e de gajas que regressava aos seus carros, às suas casas. Muitas gajas! Novinhas, como se não tivessem pais sérios que as impedissem de andar na vadiagem com as amigas àquelas horas, ainda por cima vestidas para seduzir motoqueiros da Zundapp. Só me admirei como foi possível tanta e tanta gente trocar as fantásticas telenovelas-noite-dentro por um espectáculo do José Cid. Será que o povo começa, afinal, a perceber o que é cultura? Ou não. Quando as gajas se esgotaram, fomos ao cinema (crítica cinéfila para breve), fomos beber umas bejecas, assar uma chouriça, e ver um filme em DVD chamado “Leon, o profissional”, em que um assassino profissional com oculinhos à Barão Vermelho desmama uma fedelha a quem ainda não tinham crescido os peitos, ensinando-lhe a delicada arte de “limpar”, ou seja, abater pessoas por encomenda. Bonito! Acabou às cinco da madrugada. O sinal claro da decadência: fico com o estômago cheio até ao pêndulo das goelas, antes de conseguir sequer ficar simpaticamente alegre. Um gajo já nem consegue ir para o cinema a cambalear. Já não tem graça enfrentar, completamente sóbrio, a menina que vende os bilhetes para o cinema. Decadência! pickwick