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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

17
Mai12

Fofo

pickwick

Era domingo de Páscoa e a família estava reunida à mesa. Dando uso aos meus dotes no manejo de lâminas, comecei por apurar o gume da faca com umas passagens milimetricamente calculadas no fuzil*, em grande estilo. Seguiu-se o trinchar da carne de borrego, o empratamento, a abertura do tinto, etc.

 

A determinada altura, e não me recordo bem a propósito de quê, a minha mãezinha lembrou-se de referir um marco da história familiar, ocorrida em África, cerca de uma década antes de o meu irmãozinho vir ao mundo. Contou ela que, durante os meus primeiros três anos de vida, poucas ou nenhumas eram as pessoas que me tratavam pelo nome. Para o povo que convivia com a minha família, eu era, simplesmente, o “fofo”. Ah e tal, eras tão loirinho, de olhinho azul, tão giro, tão fofo… e o meu irmãozinho, que desconhecia a coisa, já tinha quase um naco de borrego a sair-lhe pelas narinas à custa de umas quase animalescas gargalhadas que fez questão de soltar, qual rebentamento de fogo de artifício. A minha mãezinha ria-se, deliciada por o filho mais novo estar a apreciar tanto uma estória familiar com quatro décadas.

 

Podia ser fofo, mas foi por essa altura que me estreei na arte de beber cerveja até cambalear, e na condução desportiva – o meu paizinho consegui filmar-me a conduzir o carro da família, sozinho e sorridente, terminando o filme com a viatura enfeixada numa árvore.

 

A partir de uma certa idade, devo ter começado a exibir um olhar entre o aluado e o perigoso, e os amigos da família deixaram de me chamar fofo. Ainda bem. Todo o gajo tem que ter um ponto de partida para começar a construir uma reputação. Ou não. pickwick

 

* No sábado passado fui almoçar com a minha mãezinha. Ela, querendo exibir um incremento de conhecimentos técnicos, atreveu-se a tentar afiar uma faca com o fuzil. Foi o suficiente para eu quase entrar em pânico! Aqueles movimentos foram de tal forma, que, por momentos, antevi um golpe no braço, outro barriga e dois nos cortinados! Num gesto instantâneo, embora sereno e suave, sosseguei-lhe a mão, ilustrando o movimento correcto de vaivém da lâmina. Foi o mesmo que querer ensinar um crocodilo engasgado com um naco de gazela a movimentar-se delicadamente numa mesa de um qualquer casamento. Mas o arroz de favas estava divinal!...