Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

15
Mar12

A dieta, a tareia e o rodízio – parte 3

pickwick

Em tempos idos, há duas décadas atrás, a segunda metade dos meus treinos de judo era passada com uma única ideia em mente: sair dali feito galgo, largar o saco em casa, assentar praça no Inhangá, e verter avidamente duas canecas de cerveja gelada. Mesmo quando era inverno ventoso e frio, e tinha que ficar debaixo de uma chuveirada de água gelada para acalmar o ritmo corporal. Não é que seja coisa inteligente de se fazer, mas a mente tem razões que a própria razão desconhece, como diria alguém.

 

Na mesma onda, assim que me vi livre das tareias todas e despachado da passagem pelo topo do pódio, a minha bússola virou o Norte para um generoso prato de carne suculenta, acompanhado por muita cerveja. E não haveria nádegas ou decotes neste mundo que desviassem a agulha da bússola!

 

O imparável desejo concretizou-se com a invasão de um restaurante abrasileirado, para um “rodízio à brasileira”. O vaivém de carnes, a pinça para agarrar a fatia cortada na hora, o feijão preto, a couve, uiiii… Foi a loucura! Ainda por cima, era uma menina brasileira a servir, com um sorriso de orelha a orelha, num exibicionismo bem-vindo da dentuça branquinha. Muito fofinha. Eu estava mais interessado em consumir cerveja desalmadamente e abocanhar toda a carne que passasse a menos de um metro da nossa mesa, mas, ainda assim, consegui prestar alguma atençãozinha à moça. Muito fofinha. Acho que já disse. Não faz mal. A partir de certa altura, um gajo começa a ficar familiarizado com o sotaque brasileiro em tom feminino e solta-se a língua com muita facilidade, mas isso agora não interessa. Pelo menos, até consegui arrancar uns sorrisos e umas frases filosóficas da menina, a propósito da couve, que eu confundi com salada (mania de fazerem tudo verde) e da qual pedi para repetir alarvemente. Quando se tem um buraco negro no estômago, vale tudo, desde salsichas e picanha, até um monte de quinze centímetros de couve. Ah e tal, pena a maior parte das pessoas não gostarem assim de comida saudável, disse ela. E que bem que tu ficavas de biquíni, misturada aqui nas couves do meu prato, pensei eu. Mas uma cervejola e acho que lhe perguntava se podia fazer o favor de despir-se, besuntar-se com molho de pimenta e esticar-se ao comprido na nossa mesa. E as carnes continuavam a vir, umas atrás das outras, até a última fatia ficar a boiar mesmo às portas do estômago. No limite, portanto.

 

Bom, tivemos que dizer adeus à menina e rumar ao Dolce Vita para lavar melhor as vistas durante uma horita e comprar umas câmaras de ar para bicicletas. O centro comercial estava em crise, ao que acrescia alguma inércia ocular da minha parte, devido ao excesso de couve e cerveja. Enfim, são coisas da vida.

 

Pouco depois, e contrariando os planos iniciais, decidi meter-me ao caminho e regressar ao lar-doce-lar. De repente, sentia-me como se tivesse jantado uma saladinha de atum magro, acompanhada com um sumo light. O estômago começou a encolher misteriosamente e o efeito da cerveja estava completamente dissipado. De facto, ao fim de meia hora de viagem, tive que parar para meter mais qualquer coisa no estômago, que já não aguentava a dimensão do buraco!

 

Não sei o que raio se passou, mas andei uns quatro dias com um problema de alimentação. Uma fome insaciável. Ok, fiz uma dietazinha ligeira. Ok, borrei-me todo nos quatro combates, ao ponto de ficar com dores no corpo todo até sexta-feira. Mas, nada disso me parece explicar uma fome permanente, como se tivesse passado um mês a água e casca de árvore numa qualquer selva tropical. Presumo que tenha havido para aqui uma revolução no organismo, das grandes, para ficar naquele estado. Não é normal, quando um gajo acorda de manhã cedo a sonhar com lasanha, come lasanha, imagina lasanha, visualiza lasanha no velocímetro do carro com fios de molho de tomate a fazerem de ponteiro, e adormece a pensar que a lasanha podia levar picante por cima para ficar ainda mais gostosa... pickwick

30
Dez07

Gordo, disse a mamã

pickwick
Enquanto os convivas para o jantar e posterior comemoração da passagem de ano não chegam, aproveito para me lamentar. Durante este Natal, e pela primeira vez em praticamente quatro décadas, a minha mãezinha chamou-me gordo! Eu, que sou filho dela, sempre me submeti àquela forma de estar na vida tão engraçada, sempre com comida a saltar pelos olhos e ouvidos, sempre a enfardar para dentro, sempre a consumir enormes quantidades de doces e chicha. Para a minha mãezinha, tal como para quase todas as mãezinhas deste mundo, não há filhos gordos – há, sim, filhos saudáveis e bem alimentados. Felizes, portanto. Sempre assim foi, mesmo quando se dava um murro na mesa por o ritmo de produção de arroz doce ser superior à capacidade de enfiar goelas abaixo. Anda lá, come, dizia ela. Os filhos, preocupados com a linha, pois daí depende a rentabilidade quando se sai à caça de fêmeas, bem que tentam inventar desculpas para escapar, mas a mãezinha e a gula são aliados poderosíssimos! Invencíveis! Recordo um belo verão, ainda na década de noventa, em que passei as férias com o meu irmão lá em casa, a enfardar e a ver TV. No final, precisei de sair à civilização e descobri que só tinha um par de calças que me serviam – e apertadinhas! Foi quando dei o pulo dos oitenta para perto dos noventa. Um marco! O que me estranha, portanto, é esta mudança de postura da minha mãe. Logo, logo, logo no Natal de 2007. O meu irmãozinho ria-se que nem um perdido. Ah e tal, estás mais gordo ainda que o teu irmão, dizia-me ela, porque ele é mais alto e disfarça. Para mim, pessoalmente, francamente, sinceramente e tristemente, foi um choque. Até quase perdi o apetite, assim como que subitamente, mas ainda consegui atacar na aletria e na torta de cenoura. Enfim. Talvez seja a minha mãezinha preocupada com a minha saúde, que poderá ser afectada por um excesso de peso. Talvez seja a minha mãezinha preocupada com o meu estado civil, atribuindo à fasquia volumétrica a razão para não ter arranjado ainda uma namorada. Não sei. É um mistério. Mas, vou debruçar-me seriamente sobre o assunto. Talvez dar umas voltas de bicicleta por aí. Apostar numas partidas de futebol com os colegas de trabalho. Tirar a ferrugem aos halteres. Beber mais água. Coisas assim. Mas isso, claro, só a partir de 1 de Janeiro! Porque, até lá, e a começar daqui a poucas horas, vou tomar parte numa orgia gastronómica contínua. Começa com um jantar em minha casa, hoje mesmo, continuará com um almoço desportivo amanhã, dia 31, e terminará a poucos metros da Torre, dentro de uma barraca à cigano, atolado em garrafas de vinho e chouriças e outras porcarias nada saudáveis. Depois, novo ano virá, a 1 de Janeiro. Ano novo, vida nova. Mais cuidados com a saúde, mais cuidados com a alimentação, menos doces, menos carnes, menos cervejas, mais exercício. Por falar em carnes, o Nando está com esperanças que o restaurante aqui da aldeia que tem “rodízio à brasileira” esteja aberto para nós no dia 1, assim que chegarmos da serra esganados de fome e capazes de enfardar uma vaca inteira. Sim, vou começar o ano lindamente… pickwick