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Domingo, 9 de Setembro de 2007
Na Sopinha da Aguieira - 2
Durante a tarde, que passou lentamente mas acabou muito rapidamente, o que quer que isso queira dizer, ainda deu tempo para estar mais um bocado de molho na sopa, tirar fotografias a libelinhas, montar um soberbo computador de bordo na bicicleta, dormir uma sesta, dormir outra sesta, estar mais um bocado de molho na sopa, e ainda outro bocado, e ainda mais outro, e só mais um bocadinho. Ah e tal, dizia não sei quem, tenho uma amiga que andou a fazer análises à água em diversos pontos do país, e que diz que, por ela, não se metia aqui dentro da água da barragem. Só por causa disso, fomos outra vez meter-nos lá dentro, para afogar o calor. Afinal, não há que ter medo: na água há peixinhos a nadar, apesar dos pedaços de algas com ar altamente suspeito e de não se ver um palmo à frente do nariz debaixo de água. O que realmente estraga todo o ambiente, ali, na Barragem de Aguieira, são os anormais que passam lá o dia a andar para trás e para a frente com as suas motos-de-água e as suas lanchas. Não os percebo. É como subir num balão de ar quente até quinhentos metros de altitude e ligar uma aparelhagem aos berros com música hip-hop. É como escalar uma montanha com música metal-pesado a ecoar por todo o lado. É como subir aos céus e ligar um martelo-pneumático. Simplesmente, não se compreende, a não ser que tenhamos em conta a evidente limitação cerebral destas pessoas! É que, ali, naquelas paragens, com árvores, água e erva verde, a última coisa que apetece ouvir é um motor a roncar. Mas, eles insistem. Passam para um lado, passam para o outro, prego a fundo, velocidade máxima, ui, que emoção!, os estúpidos. Emoção era pegarem numa pagaia e dar aos braços. Isso, sim! É que era de homem! Assim, conspurcam o ambiente sonoro, conspurcam a água, conspurcam a paisagem, e dão-nos uma vontade enorme de lhes trespassar a cabeça com um ferro em brasa. Aqui, sentado, pouco mais posso fazer para além de lhes chamar nomes feios e rogar-lhes pragas negras. Finda a tarde, arrumámos as trouxas e rumámos ao “Lagoa Azul”, para, no âmbito da despedida, bebermos umas cervejinhas geladas. Ah e tal, aposto como não chegas de dia ao Carregal, dizia o Miguel. Vá, anda lá meter a bicicleta dentro do carro, dizia o Nando. Os amigos, são mesmo para estas ocasiões de grande cansaço. Um aposta que não consigo, outro quer convencer-me a desistir. É bonito! Mas eu, que não sou de me deixar ficar, excepto quando vale a pena não ir, arrastei-me até à bicicleta e, com um esforço hercúleo, saltei-lhe para cima e saí disparado estrada fora, em direcção ao horizonte, a brisa no rosto, com destino ao infinito, velocidade de cruzeiro, ah e tal. Vá, pronto, fui a pedalar, quase que não me aguentava em cima, com o cu todo dorido das duas horas passadas em cima, os músculos das pernas a darem as últimas, e o estômago a ressentir-se da variedade gastronómica do dia. Mesmo assim, ainda dei quase quarenta quilómetros por hora numa descida e percorri dez quilómetros. É fácil dar quarenta numa descida. Ou não. Depende, se o computador de bordo estava a funcionar direito ou não. Depois, liguei ao Nando, onde é que estás?, espera aí! Eu podia dar a desculpa esfarrapada de que parei porque já era noite. Mas, não. A verdade, é que parei porque já era mesmo noite. Eu não sou de dar desculpas esfarrapadas, obviamente. Também podia dar a desculpa esfarrapada de que parei porque estava tão cansado que já não aguentava mais nenhum plano adversamente inclinado e até já nem para pedalar no plano horizontal tinha força nas pernas. Mas, não. A verdade, é que parei porque andar de bicicleta é uma actividade muito monótona e não dá luta e homem que é homem não prolonga actividades que não dão luta. E assim foi, metemos a bicicleta no Fiesta do Nando e lá fomos, rumo à minha aldeia. E o jantar? Ah pois é, havia restos de chouriça, uma assada, outra nem tanto, mas faltava o mais importante: a cervejinha fresca. Às 20h40, não havia grandes esperanças de encontrar um supermercado aberto. Ainda parámos em dois, fechados. Mas, como há gajos com sorte, e chegámos à minha aldeia às 21h04, demos um pulinho ao Pingo Doce, só por descargo de consciência. As meninas do Pingo Doce da minha aldeia, umas mais feias que outras, tinham-se esquecido de desactivar a abertura automática das portas, pelo que, assim sendo, aproveitei para entrar por lá a dentro, com passo acelerado, como se aquilo fosse as Urgências do hospital distrital e eu levasse o chifre de um touro enfiado naquele sítio onde o sol não brilha. Uma emergência, portanto. A menina que passava a esfregona ainda gaguejou, mas eu necessitava mesmo muito, muito, muito de umas cervejinhas. Em menos de um minuto estava com dois packs debaixo de um braço e cartão de débito na mão oposta. Dali saídos, ainda passámos no clube de vídeo (que hoje em dia se deveria chamar clube de dvd) para buscar o “Flyboys”. Aviões, tiros, mortos e feridos! Ui, que é bom! pickwick
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publicado por pickwick às 00:10
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