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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

29
Mar07

A loira, a dentuça e a pele ao léu

pickwick

Outro dia, que era um belo dia de sol e calor, embora estivesse à sombra, fui acordado com violência. Era a hora do almoço, já mais para o começo da sesta do que para os aperitivos. Os meus dedos fervilhavam em cima de um teclado, olhos colados no ecrã onde as palavras surgiam a um ritmo alucinante, na ganância de aproveitar o tempo para adiantar trabalho e compensar o desleixo das semanas anteriores. Estava em transe-laboral, portanto. A sala estava resumidamente vazia, tirando a funcionária do bar, duas plantas de interior e o ruído da televisão. Estes momentos de sossego proporcionam oportunidades únicas para laborar com produtividade, sem gajas aos pulos, sem gajas a falar de parvoíces, e sem gajos a aturarem as gajas aos pulos e a falarem de parvoíces. A bem dizer, um gajo adormece para o trabalho – uma espécie de nível transcendental de ausência de sorna em que não há paragem nem apeadeiro. E foi deste estado de adormecimento que fui violentamente acordado. Do meu lado direito, a cerca de oito metros e trinta centímetros, surgiu um corpo ondulante, encimado por uma farta cabeleira loira. Ui!, exclamou imediatamente o meu subconsciente. Este alertou o consciente, o consciente alertou-me a mim, eu alertei o meu pescoço, o meu pescoço fez rodar a minha cabeça e zás. Olhos postos no corpo ondulante encimado por uma farta cabeleira loira. Não sei quem controlou os meus olhos naquele momento, mas o certo é que estes se fixaram alarvemente na zona do umbigo do corpo ondulante. Zona essa completamente ao léu! À mostra! Ali! Quinze centímetros de pele entre a cintura das calças e a borda inferior do top. A pele cor de bronze, como se tivesse mergulhado num banho para a tingir. Uiiiiiii!, exclamei, entre dentes. Corpo elegante, a abanar-se com o andar, nádegas e pernas sob uma calça de ganga deslavada e justa, apanhada à cintura por uma tira de couro. Em baixo, botas-de-dançar-numa-mesa-de-strip. Os olhos subiram. Peitos razoáveis, ombros quase à mostra mas meio tapados pela farta cabeleira loira e ondulada. Frisada? Como se chama ao cabelo meio ondulado como se tivesse saído de uma máquina de enfardar palha? Bem, o que quer que seja. Houve ali uns milésimos de segundo, enquanto fazia todas estas apreciações e observações, em que o meu subconsciente já ia um passo à frente, tentando colocar um bocado de raciocínio no ar. Um passo à frente, identificando a proprietária daquele preparo todo, daquele festival de sensualidade. O subconsciente – o maroto – ficou caladinho que nem um rato, esperando calmamente que o meu consciente me apanhasse a dar com os olhos no rosto da fidalga. Como que à espera para ver o espectáculo. E que lindo espectáculo! Assim que os olhos pousaram no rosto dela, a informação circulou rapidamente até à base de dados do cérebro, identificando-a como a fulana-tal, cujo nome desconhecia, mas cuja dentuça é uma aberração. AAAHHHHHHHH!!!..., guinchei quase a morrer de agonia! Era a gaja dos dentes de hipopótamo! Ah pois é! Que nojo! Imagine-se: uma gaja com ar de boazona, corpo de boazona, loira até mais não, elegante, gingona, mas com uma dentuça a brotar da boca que nem pode usar um copo para beber – tem de ser com palhinha de quarenta centímetros! Perdi logo o apetite para o lanche e para o jantar. Ela não tem culpa, eu sei, mas voltamos à mesma coisa. Uma gaja com aquela armação de dentes que quase chegam ao umbigo, deveria ter um bocadinho de bom senso e não se vestir de forma tão espampanante, nem pintar o cabelo ondulado daquela maneira tão loira. Na melhor das hipóteses, uma saia pelo joelho e pronto! E o umbigo à mostra é para quê?! E como é que ela come sopa? E para que é que ela se ri em público quando isso lhe projecta a dentuça vinte centímetros mais à frente que o normal? Não há uma noçãozinha de harmonia estética? Não há espelhos em casa? Bem, cheguei a casa ainda tão agoniado que corri a escrever essa crónica. Antes, fui procurar na net por alguma aberração semelhante, mas, dada a dificuldade, tive que me sujeitar a forçar qualquer coisa que pudesse, de alguma, forma ilustrar o meu discurso. Apresento, orgulhosamente, três versões de uma loira com dentuça.

Devo dizer, em abono da verdade e da justiça, que a terceira loira, com o cabelo ondulado (ou frisado, ou lá como se chama), tem extraordinárias semelhanças com a loira da dentuça que é a protagonista. Mas, tal e qual! O cabelo é assim, o rosto é assim, e os dentes são tal e qual como esta apresenta. Bom, os dentes são ligeiramente amarelados, para condizer com o cabelo, mas as dimensões são muito realistas, afianço! Isto é, ou não é, de um gajo apanhar um susto de morte cada vez que tira os olhos do umbigo e os choca naquela armação de marfim? É como aqueles gajos que trepam aos postes de alta tenção, com motivações obscuras e pouco inteligentes, e que, de repente, apanham um daqueles esticões que parece uma mistura entre o fogo de artifício na Madeira e as febras a fritar na festa do Avante – um flash que frita a vista e embrulha o estômago! Arre! Oh mulher!, não tens quem te apare o marfim com uma rebarbadora? Nem uma lima para as unhas? pickwick