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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

22
Abr09

O vestido, o decote e o penteado

pickwick
O decote deve ser um tema ligeiramente recorrente neste blog. Mas só ligeiramente. Enfim, deve ser resultado de algum trauma de infância, naqueles dias de verão passados em Lagos em que me cruzava com as estrangeiras mais arejadas e deixava cair o queixo enquanto a imaginação desbobinava sobre o que estaria para além dos minúsculos e por vezes esvoaçantes pedaços de tecido que escondiam as partes mais íntimas. Pronto.
 
Hoje foi um dia importante lá na minha instituição. Uma excelsa comissão, designada por um não menos ilustre órgão de administração e gestão, viu-se na nobre obrigação de entrevistar os candidatos ao cargo de director da nossa instituição.
 
Ora, a presidenta do órgão, que preside, por inerência, à referida comissão, é uma senhora casada e mãe de filhos, de sorriso fácil e boa disposição permanente. Presumo que o facto de ter parido dois filhos lhe tenha conferido um decréscimo acentuado e evidente das linhas femininas que fazem a delícia do olhar masculino. É daquelas coisas da natureza: entre a linha inferior das nádegas e a linha dos mamilos, parece que o corpo foi alvo de um escultor adepto do cubismo. Ou, em alternativa, digamos que essa zona do corpo foi moldada por um tanoeiro. Os tanoeiros constroem barris. E eu já estou a ser mauzinho.
 
Bem, o facto é que a presidenta tem uma série de defeitos físicos, daqueles que só a mim passa pela cabeça. Isto de ser esquisito nem sempre me fica bem. Ainda ontem mesmo, à saída do restaurante, fiz um comentário sobre os atributos físicos das nádegas da menina que nos costuma atender, recomendando – do alto da minha douta sabedoria sobre o assunto – um pouco mais de exercício físico, para além do passear de bandejas, pratos e tachos entre a cozinha e as mesas. Os meus colegas iam-me comendo vivo! O quê? Está muito bem assim! ‘Tás maluco? Enfim, menos 4 cm de cada lado e a rapariga ficava quase perfeita, mas eles são pouco exigentes.
 
Quanto à presidenta, e fazendo um esforço para olvidar a dentadura postiça, a falta de cintura, as pernas franzinas, a barriguinha pouco sexy, os olhos cor-de-uva-desmaiada, a gadelha demasiado vigorosa, as nádegas ui-tão-apertadas-como-se-estivesse-muito-frio e os sapatos rasos, há que reconhecer, com a devida justiça, que tem um belo par de funis torácicos.
 
Hoje, ah e tal um dia importante lá na instituição, a presidenta apresentou-se ao serviço com um aspecto que até fez relinchar os cavalos de alguns estábulos.
 
Foi à cabeleireira, para começar. Naquelas bandas, cada vez que há algum acontecimento fora do normal, mesmo que seja só um bocadinho desviado da normalidade, assim só subtilmente, tipo uma folha que cai da árvore em vez de uma folha que devia cair da árvore, aparece logo uma colega de trabalho com um penteado novo. É tiro e queda.
 
Depois, apresentou-se com um vestido ligeiramente justo. Nem folgado, nem apertado. Perfeito, dentro do género e enquadrado nos limites estéticos permitidos pelo corpo da senhora. Não é hábito vê-la de vestido, assim toda bem posta, com um lenço a imitar um cachecol, ou um cachecol a imitar um lenço, que não percebi muito bem para que servia.
 
Como não bastasse, o vestido era um vestido para mulheres a sério, ou seja, daqueles vestidos com decote regulável com um broche. Apesar de não ser nada escandaloso, o certo é que me ia engasgando quando a vi. Enfim, um gajo vai para dizer algo banal, uma piadinha, uma alembradura do dia anterior, e de repente é apanhado de surpresa e vê-se de olhos postos na área nua das mamas de uma colega de trabalho.
 
A minha sorte – porque ainda há gajos com sorte! – é que, ainda eu estava engasgado e com os olhos colados em partes íntimas do corpo da presidenta, quando apareceu, ao meu lado, uma outra colega, que também reparou na novidade, adiantando-se aos comentários sobre os predicados do decote e facilitando-me a vida. Ena pá, a presidenta hoje produziu-se toda, foi à cabeleireira, meteu um vestido, e ui!, que decote! Ah e tal. Tirou-me metade das palavras da boca, esta colega. A outra metade não chegou a sair, e ainda bem, porque eram coisas mais adequadas a ambientes com tijolos e baldes de massa e não me ficaria nada bem estar para ali com este tipo de conversa.
 
Isto de começar a gaguejar, já começa a ser uma falha grave de desempenho. Não tarda, começa a dar maus resultados. Eu, dantes, não era assim. Conseguia disfarçar. Podia discursar fluidamente sobre uma banalidade qualquer ou podia fazer um silêncio solene, mas não deixava os olhos esquecidos em partes íntimas de uma mulher com quem estava a dialogar, e, definitivamente, não me engasgava!
 
Maldita decadência!... pickwick
18
Jan09

Mais um sinal…

pickwick

… nítido de decadência.

Numa segunda-feira, recebi um telefonema, confirmando o início dos treinos de judo na terriola aqui ao lado. No dia seguinte, fui lá espreitar, até porque o mestre tinha sido meu colega de trabalho há alguns anos atrás. Gostei: ambiente acolhedor, tapetes verdes, paredes de granito, colunas de cimento protegidas com espuma, e nenhum matulão desejoso de conquistar um lugar nos próximos jogos olímpicos. De regresso a casa, vasculhei nos “baús” do antigamente, em busca do meu fato do antigamente, arrumado há cerca de seis anos na sequência de um singelo acidente. Na quinta-feira seguinte, lá estava eu a entrar pelas instalações do antigo colégio, de mochila ao ombro, armado em campeão. Afinal, abonava em meu favor o facto de, por agora, os únicos praticantes serem apenas inofensivos miúdos do 8º ano. Nos balneários, repeti um ritual já muito antigo: apertar as calças com uma atadura-especial-de-corrida, vestir o grosso casaco, esticar as mangas e apertar o cinto, com aquelas voltas especiais e um nó direito a rematar. E aqui é que foi o caraças! Confesso que costumo ficar sem jeito quando sou confrontado com uma surpresa inesperada – ou não seria uma surpresa, portanto – que surge como uma quebra de algo a que estive habituado durante anos. Por exemplo, se acordar de manhã e der por falta de uma perna, fico sem jeito. Ora, assim que acabei de dar o nó direito, quis repetir o procedimento de socá-lo, isto é, dar um esticão pelas pontas, em sentidos opostos, para apertar o nó. Durante muitos anos, agarrava firmemente nas pontas do cinto e dava um valente esticão. Agora, de repente, sobravam-me cerca de cinco centímetros em cada ponta, o que, como facilmente se percebe, não facilita o trabalho. Ou seja, um gajo não tem por onde agarrar e dar o esticão. Dantes, sobravam-me uns vinte centímetros... Primeiro pensamento: o cinto encolheu! Mal pensado. Segundo pensamento: o casaco engrossou! Quase. Terceiro pensamento: tás gordo que nem um texugo! Certo! Ora, este pequeno pormenor técnico tem dois inconvenientes que se complementam na perfeição. Não tendo comprimento de pontas para agarrar, nunca consigo socar o nó convenientemente, o que traz, como consequência, o desfazer frequente do nó. Não tendo comprimento de pontas suficiente, o nó é mais rápido a desfazer-se, pois a ponta chega mais rapidamente ao núcleo do nó. Resumidamente, um gajo em estado decadente, gordo que nem um texugo, numa forma física deplorável, com os bofes de fora, a arfar, a arfar, passando a vida a colocar de novo o cinto e a apertá-lo. Não é uma imagem bonita, note-se. pickwick