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Sábado, 8 de Setembro de 2007
Na Sopinha da Aguieira - 1
No passado fim-de-semana, combinei uma ida à Barragem da Aguieira com o Nando e o Miguel. Porquê? Porque sim, e porque o Miguel queria ir treinar windsurf, e porque a água é salobra e dá vontade de ficar-se por lá de molho, como numa sopinha, e porque ainda é Verão. Para condimentar a coisa, obriguei-me a fazer o percurso de bicicleta, que é coisa de homem, até porque a distância de minha casa até ao sítio combinado é de cerca de 36 km. O Nando, que arranjou maneira de habilmente não trazer a bicicleta dele, ofereceu os seus préstimos para servir de “carro de apoio”. É bonito, ter-se um “carro de apoio”. Ah e tal, porque eu não sou como vocês, eu trabalho e preciso de descansar e mais não sei quê. Pois sim. Bem, os primeiros quilómetros da jornada correram bem, pelo menos até chegar à Lapa, num sítio onde a estrada passa por cima da linha e que, por isso mesmo, se eleva em altura, facto que serviu de pronta desculpa para desmontar da bicicleta e ir a pé. Vá lá, foi a única vez em todo o percurso que sucumbi à tentação de poupar-me ao esforço. Enfim. A sorte, é que o percurso tinha sido cuidadosamente estudado, havendo a certeza de que era quase sempre na horizontal, o que é muito bom para a saúde e facilita. As partes irritantes foram aquelas em que se atravessavam aldeias e aldeolas, trocando-se o piso de alcatrão perfeito por um montão de “paralelos” de pedra, obrigando a um passo de caracol e à sensação de que a bicicleta se iria desmembrar toda a qualquer momento. Não se pode ter tudo, é sabido. Em jeito de reclamação, tenho a dizer que fiquei extremamente desiludido por não haver exemplares do sexo feminino nas ruas das aldeias por onde passei. É desmoralizante! Só gajos com mau aspecto e automóveis estacionados. Assim, não estão reunidas condições para um passeio de qualidade! Adiante, mais à frente, já quase a chegar à barragem, e na dúvida sobre qual o caminho a tomar para rodear as bombas de gasolina e atravessar a ponte, liguei para o meu “carro de apoio”. Do outro lado, um toque de conforto: “estou perdido”. Excelente! Não sei quê IP3, nomes de aldeias para aqui, nomes de aldeias para acolá, mas, pronto, lá nos encontrámos e rumámos ao local combinado com o Miguel. Contudo, achei por bem obrigar o “carro de apoio” a pagar um fino no “Lagoa Azul”, até porque estava muito calor, a garganta estava seca e uma cervejinha cai sempre bem a qualquer hora. O Miguel, já na “praia”, tinha acabado de chegar com o seu C3, prancha de windsurf no tejadilho e um desejo enorme de se fazer à água. Fomos testar a qualidade da sopa, que se mantinha a uma temperatura agradável, convidando-nos a ficar a boiar, como se fossemos feijões e ervilhas. Ui! Do melhor! Não sabia que montar o equipamento para a prática de windsurf dava tanto trabalho! É só mecanismos esquisitos, fitas para aqui, esticadores para ali, encaixa dali, estica de acolá, enfim. O Miguel já suava por todos os cantos. Um caiaque acho que dava menos trabalho. Mas, pronto, gostos são gostos. Levámos a prancha para a água, para encaixar o mastro da vela, e puf. O encaixe da vela na prancha partiu-se. Ah e tal, isto tudo custou-me 100 euros em segunda mão, material de mil novecentos e oitenta e não sei quê, tinha o Miguel anunciado minutos antes. Eu ainda gostava de saber quem foi o anormal que inventou um encaixe daqueles, em plástico, com cerca de quinze milímetros de diâmetro. É normal? Claro que não é normal! Não lembraria a ninguém! No mínimo, um encaixe em aço, com trinta milímetros de raio, que é para não se partir e estragar o dia ao dono e aos amigos do dono que tinham vindo de tão longe para apreciar a arte de surfar com a força do vento. Por falar em vento, esse estava de férias, de tal maneira que um barquinho à vela que velejava algures no meio da barragem, ficou sem energia e os desgraçados ficaram ali incontáveis minutos completamente parados no meio do nada. Com tanta energia dispendida na montagem do equipamento (o Miguel a montar e nós a darmos apoio moral), e com o choque psicológico de vermos o encaixe partido, fomos atacados por uma fome horrível. Corremos para a pseudo-sombra de umas mimosas e começámos a tratar do almoço. Ementa: presunto, chouriço assado, pão e batatas fritas. Acompanhamento: três garrafas de tinto. Sobremesa: licor de uva caseiro. Há uma grande vantagem em não se fazer um piquenique com gajas. A ementa é muito mais restrita e limitada, sendo possível, assim, apreciar com mais rigor a qualidade e o sabor dos itens disponíveis. Não somos obrigados a comer rodelas de tomate, a catar lascas de cenoura, a debicar folhas de alface, a provar a colheita de sumo de laranja e a mordiscar uma maçã, só para ficarmos bem na foto e sermos simpáticos. Não há rissóis, croquetes, empadas, doces caseiros, rolinhos de fiambre e queijo, e outras iguarias perfeitamente dispensáveis. No fim, até podemos terminar tudo com uma boa cigarrilha. E a meio, quando nos apetece, como aconteceu, podemos levantar da “mesa” e ir a correr para a água refrescar o corpo aquecido por um intenso dia de Verão. Só tivemos um pequeno deslize, cuja culpa nos é alheia: uma das garrafas de tinto estava estragada, sendo que o líquido sabia a groselha com detergente para a loiça e fazia muita espuma. Azar. pickwick
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Sexta-feira, 31 de Agosto de 2007
A mulher com cabeça de cabeça-de-fósforo – parte 2
Esta é a continuação de uma história de fantasia e sei lá mais o quê, essencialmente disparates, mas também com algumas inovações literárias, nomeadamente disparates.
 
Tudo a postos para a cerimónia! Rusalka começou a bater palmas. Uma, duas, três, quatro… o Kondilingsh, voltou-se repentinamente, abriu as mandíbulas e abocanhou inesperadamente a cabeça de Rusalka. Contudo, o animal não conhecia as propriedades ignitoras da cobertura da cabeça de Rusalka, nem o efeito consequente do resvalar dos afiados caninos na superfície vermelha. Numa fracção de segundo, a cabeça da moça explodiu numa bola de fogo dentro das mandíbulas do Kondilingsh, obrigando o animal a abrir a boca e soltar a vítima. Os pêlos do focinho do Kondilingsh começaram a arder e o animal teve que se atirar de cabeça para debaixo de uma pipa de vinho verde Alvarinho, abrir a torneira e deixar que o precioso líquido extinguisse as chamas. Entretanto, Ninini percebeu o que correra mal. Rusalka cheirava a tremoço e a sua cabeça era vermelha, tal como a cor das cerejas-de-caroço-de-azeitona que abundavam nas montanhas e que eram o principal alimento do Kondilingsh. De pronto, Ninini abriu o seu kit de emergência e sacou de um frasco de pasta de ovos moles, com a qual untou a cabeça de Rusalka, transformando-a num apetitoso chupa-chupa amarelo.
(um naco de lasanha acabou de se entranhar no teclado… bolas p’ra isto)
Depois de o Kondilingsh recuperar da sua desventura com o fogo, Ninini e Rusalka voltaram a aproximar-se do bicho, para uma nova tentativa. Correu bem. Ao sétimo bate-palmas, Rusalka carregou no play do leitor de MP3, fazendo ecoar o grito “Ai Tá Tá! Moiumbé Lingsh Kondimar”, e fez de conta que fechou os olhos, porque, afinal de contas, Rusalka não tinha olhos. O Kondilingsh, ciente da solenidade do momento, abriu novamente as mandíbulas mas, desta vez, esticou a sua língua de 1,40m e lambeu a cabeça de Rusalka. Soou um trovão, as luzes apagaram-se, caíu um relâmpago, veio novamente a luz, e Rusalka viu-se transformada num ser humano normal, com a cabeça da Lili Caneças. O Kondilingsh uivou de pavor e comeu Ninini.
(porque é que o fundo da minha lasanha parece as solas dos meus sapatos novos?)
Rusalka, agora transformada, teve um ataque de pena e lambeu o Kondilingsh. Como consequência, o Kondilingsh transformou-se no Rui Unas, da cabeça aos pés. Rusalka, visivelmente satisfeita, uivou de prazer e saltou para cima do Kondilingsh. Com o impacto, ambos caíram e começaram a rebolar montanha abaixo. Passados 230 metros, caíram num poço, que era um poço do tempo, mas eles não sabiam. Levaram um choque eléctrico, as luzes apagaram-se, depois acenderam-se, estava muito fumo, e ouviram umas vozes. O fumo dissipou-se. Para onde e para quando haviam sido transportados? Ui! Nada mais, nada menos, do que para a cerimónia de condecoração do Carlos Cruz como Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique, em 2002. Brilhante! Mesmo a tempo de evitar a vergonha nacional. O Kondilingsh sentiu uma convulsão no estômago, encolheu-se e teve um vómito, acabando por regurgitar Ninini, que vinha pior que estragado com o fedor no estômago do bicho, especialmente pevides misturadas com cerejas-de-caroço-de-azeitona e raspas de limão. Ninini, muito chateado, abriu o seu kit de emergência e sacou um alguidar com tomates para atirar aos ilustres presentes na cerimónia, obrigando ao seu cancelamento e evitando o pior. Vieram os fotógrafos para registar os três heróis (que na altura ainda não se sabia), mas o disparo dos flash’s fez actuar o alarme de incêndio e os tectos começaram a despejar água, tanta água, que o salão nobre se inundou e Rusalka, Ninini e o Kondilingsh foram arrastados por um turbilhão de água e restos de croquetes e rissóis, até caírem num novo poço do tempo, sendo multi-transportados, isto é, cada um transportado para um tempo e local diferente. Os poços do tempo fazem destas partidas, quando há croquetes e rissóis à mistura. Rusalka, já sabemos, a meio da sua brilhante carreira como animadora de ursos amestrados em festas do jet-set, fez vinte e seis plásticas à cabeça para tentar conter o imprevisto efeito regressivo da lambidela do Kondilingsh. O Kondilingsh, dedicou-se a apresentar programas duvidosos num canal da televisão por cabo, evidenciando uma necessidade incontida de fazer-se acompanhar de mulheres semi-nuas. E, quanto a Ninini, bom… isso é outra estória… acabou por não cobrar a noite de sexo com Rusalka, mas esse facto não lhe deve ter tirado o sono… pickwick
publicado por pickwick às 00:10
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