Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

29
Mar12

50 anos de invulgar boa manutenção

pickwick

Bodas de Ouro, ou coisa que o valha. Chama-se Ana (nome verdadeiro, medo!) e tem cerca de 50 anos. Porquê “cerca de”? Porque, apesar de já trabalhar com ela há uns 7-8 anos, e de a idade dela e o respectivo aniversário já terem tropeçado na nossa vida profissional inúmeras vezes, há aquela nefasta influência do Alzheimer, que me impede de perpetuar no tempo certas informações mais ou menos importantes.

 

Acontece que estes 50 anos são uns 50 anos muito especiais. Naquela quarta-feira, pareciam mais uns 20 anos do que outra coisa qualquer. Era um dia como outro qualquer, exceptuando o facto de termos uma reunião conjunta logo a seguir ao almoço, daquelas coisas a que uma pessoa se sujeita como que a meter-se a jeito para apanhar uma indigestão. A Ana apareceu no trabalho com um vestido em género de lã, sendo que a saia acabava meio palmo acima do joelho. Palmo inteiro, quando sentada. Collants pretos, para disfarçar.

 

E qual era o problema? O problema, é que aquele vestido parecia ter caído em cima de uma jovem de 20 anos. Seios dimensão generosidade-radiante. Barriguinha zero. Pernas de gazela. Com um vestido justo por cima, mesmo que de lã, qualquer ser humano apreciador do género entra rapidamente em delírio!

 

Acho que passei o dia a tirar-lhe as medidas, feito comilão. Antes do almoço, ao almoço, depois do almoço, na reunião, depois da reunião. Foi uma fartura. Sempre arriscando o pescoço, claro, pois a hipótese de ser apanhado de surpresa a devorar-lhe mentalmente o corpo esteve sempre em cima da mesa. Arriscado, ou não, nunca se sabe. Depois da reunião, ainda tive que lhe aturar uns elogios profissionais à minha pessoa, pelo que havia uma ténue possibilidade de lhe arrancar um sorriso pornográfico, caso me apanhasse em flagrante a medir-lhe o comprimento da coxa e determinar as coordenadas GPS do umbigo.

 

A Ana é casada, mas isso agora realmente não interessa. É uma pena. Se fosse divorciada, havia ali muita matéria de estudo. Aliás, o meu sonho secreto é ela de repente aparecer divorciada e muito carente e muito disponível. Ou talvez não. Uma mulher carente arrasta sempre consigo uma dose imprevisível de insanidade, o que pode tornar-se bastante perigoso.

 

No entanto, e porque há sempre um “no entanto” quando o tema é “mulheres”, a Ana tem dois defeitos, na minha pouco convencional perspectiva.

O primeiro, é ser desequilibradíssima. É um defeito um bocado recorrente, nos tempos que correm, mas, ainda assim, desagrada-me imenso. De um momento para o outro, é capaz de alternar a candura de um pote de mel de abelha com o festival de meia dúzia de foguetes de fogo de artifício dentro de uma loja da Vista Alegre. Ultimamente, ora usa da maior delicadeza verbal que é possível num ser humano – em vocabulário e em tonalidade da voz -, ora dispara uns “filho da p…” em várias direcções. Bom, é um sinal dos tempos que a nossa sociedade vive.

 

O segundo defeito. Tem pele do tipo “pele de porco chamuscado antes de ser esquartejado”. Como quando se faz a matança do porco e se chamusca todo o pêlo com um maçarico. Não estou a ser mauzinho. Apenas realista. Quando lhe olho para a pele, parece exactamente isso. E falo com experiência de causa, com duas matanças no meu currículo. Coisa esbranquiçada, como se lhe tivessem chamuscado a penugem e depois passado com lixívia para desinfectar. Uma espécie de borracha branca de que ficaria bem qualquer personagem de um filme de terror. Isto é um daqueles casos em que um gajo tem que contemplar a paisagem com um filtro dimensional: apreciar a harmonia das curvas, enquanto o filtro bloqueia a qualidade física do material. Como delirar perante o formato rechonchudo de um rissol de camarão, procurando não reparar que foi queimado durante a fritura e que, ainda por cima, andou aos rebolões pelo chão de uma qualquer feira, com beatas coladas, centenas de grãos de areia agarrados e uma nojenta mancha de escarreta verde-amarelo. Que exagero! Eu sei, eu sei… pickwick

26
Out11

Uma liga não resolve o problema

pickwick

Era sábado e a madrugada tinha sido antes do nascer do sol. É daquelas coisas que não se devem fazer num dia daqueles, mas, a bem dizer, há valores que chamam mais alto. Três maganões com idade para terem juízo, enfiados num bólide, a cruzarem a Serra da Estrela por cima, apanhando com o nascer do sol em cheio no meio da testa.

 

Já no fim da descida, do outro lado da serra, essa bela localidade chamada Covilhã. Coisa desenvolvida, McDonald’s, universidade, estação de comboio, árvores nos passeios, etc.

 

Depois de tanta apreciação, chegámos às fraldas da Universidade da Beira Interior, ou coisa que o valha. Aqui e ali, estudantes do sexo feminino, trajadas a rigor, avançavam a passo firme pela rua abaixo. Uma delas, em especial, carregava – qual mochila de campismo – a “embalagem” do que aparentava ser um gigantesco violoncelo. Com a nossa extraordinária capacidade de análise intuitiva por observação directa, chegámos à brilhante conclusão de que ia haver farra musical, a julgar pelas moças que transportavam instrumentos musicais.

 

Junto a uma rotunda, com uma construção “armada ao pingarelho” a fingir de fonte, um pequeno grupo de moças aglomerava-se, certamente esperando as restantes. Mesmo à passagem, fui sacudido violentamente pela visão de umas pernas, generosa e extensivamente expostas à luz do dia, por via da inclinação perigosa para a frente da respectiva proprietária. Podia concluir-se, também, que a saia fora concebida em época de crise dos têxteis. Mini, portanto. A subir pelas pernas acima, discretamente, uns collants preto-transparente, firmemente terminados com umas poderosas ligas negras rendadas.

 

(continuo a pasmar-me com a minha capacidade para memorizar certas coisas da vida numa fracção de segundo e enquanto se contorna uma rotunda)

 

Ora, tal paisagem deveria ser motivo de satisfação e alegria. Mas, a verdade é ainda mais negra que as ligas. Há a acrescentar que a proprietária das pernas era uma moçoila arraçada de boi-almiscarado (Ovibos moschatus), na parte que toca ao volume das carnes.

 

Ou seja, um gajo vai por ali abaixo, descansado da vida, a pensar na beleza do interior português e das serras e das cidades serranas e das árvores e dos passarinhos e do nascer do sol, quando, inesperadamente, leva nas ventas com as pernas ao léu de alguém que deveria saber que não tem pernas andarem ao léu. É como alguém andar com um saquinho plástico transparente pendurado ao pescoço, com dez centímetros do seu próprio cocó lá dentro, qual exibicionista orgulhoso. Não há condições e provoca mau estar em quem passa.

 

Confesso que fiquei transtornado. Sorte que ainda não tinha tomado o pequeno-almoço. O enjoo foi tanto, que nem me atrevi comentar aquela visão com os parceiros de viagem, não fosse alguém vomitar-me o carro.

 

Entretanto, a coisa diluiu-se no frasco aberto da memória volátil. O sábado foi passado a desbastar uma zona de silvado em redor de uma charca. O domingo foi mais ameno e terminou com o regresso. Curiosamente, já no fim da viagem, ocorreu-me tocar no assunto da liga preta nas pernas de boi-almiscarado com os meus parceiros, como quem fala no pretérito sobre alguma tragédia. Para meu espanto, também eles tinham reparado nas ligas. Reconheceram-no com voz baixa e olhar desconsolado, e penso que o jantar já não lhes caiu bem. pickwick