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Terça-feira, 23 de Janeiro de 2007
Mas que tédio de vida - 1

Findos estes dias todos sem debitar uma letra, chego à iluminada conclusão de que esta minha vida é um tédio. Mortal. Vou tentar descrever o dia-a-dia aborrecido que me tem preenchido ultimamente.

 

1. Pela boca se apanha o peixe

Na quarta-feira passada, dois amigos convidaram-me para jantar. Um era de longe e veio visitar o que era de perto. Fomos a um restaurante que, do lado de fora, parecia uma espelunca para velhotes que se ensopam em tinto e bagaço antes das dez da manhã. Por dentro, era um muito típico restaurante, todo forrado a lascas de madeira, com as paredes cobertas de fotografias de personalidades da vida pública que já lá tinha tomado uma refeição e posado para a câmara na companhia do dono. Eusébio, e mais uma série deles que o Alzheimer não me deixa recordar. Comemos carne, pois então, e um dos dois amigos fez questão de pagar o jantar, até porque estávamos na cidade dele. Findo o manjar, e assim que mulheres e crianças se puseram ao fresco, passaram ao ataque. Ah e tal, vamos fazer uma lista para as próximas eleições para a direcção da AAE (AAE é o nome de código de uma associação), com quatro pessoas, queremos que sejas uma delas, porque és mesmo aquilo que precisamos, e ah e tal. Eu desmancho-me em desculpas, porque já estou metido em tanta coisa que nem tenho tempo para dar conveniente uso a todos os meus órgãos (disse por outras palavras, mas a ideia era esta), e isso vai dar muito trabalho, e depois não consigo tocar os burros todos, e ah e tal. Eu já desconfiava que ia ser entalado, mas tinha esperanças de escapar com o rol de desculpas que estou acostumado a desfiar. Para mais, já sou presidente de outra associação (não, não é da AAOGB, Associação de Apreciadores e Observadores de Gajas Boas, mas não é muito melhor), e um gajo tem mais que fazer do que andar a coleccionar posições em que não faz mais nada do que ser o preto para todo serviço. Ah e tal, diziam eles, ficavas com o pelouro da Comunicação e Imagem. Pensava eu para mim: comunicar com gajas é fácil, é só acenar o bijutarias e é tê-las a ronronar aos pés; imagem é bem, elas ficam bem de mini-saia, não demasiado ordinárias, e tal. Como não estavam a ter muito sucesso com a abordagem, levantámos arraias e mudámo-nos para a luxuosa casa de um deles, nomeadamente para a cave, com bar, sofás, aquecimento, etc. Estratégia seguinte: impingir-me digestivos e contarem-me anedotas até eu não aguentar mais e dizer que sim à proposta deles. Bem, muitas anedotas! E eu que nunca os tinha visto naqueles preparos, dois homens de família, um deles já com sessenta anos, empresários, a matarem-se à gargalhada com anedotas sobre gajos que não têm bigode e metem-se com uma gaja e vêm de lá com bigode, sobre leões, eu sei lá. Aliás, foi um excesso de anedotas sobre leões. Um abuso! Até uma sobre um dia na selva em que os animais decidiram juntar-se e fazer uma orgia inter-racial, diversificada, tendo corrido muito mal ao macaco que ficou com a girafa, a qual lhe exigia beijinhos alternados nas entre-nádegas e nos beiços. Foi até quase às duas da madrugada, nisto. Ah e tal, e tu não contas nenhuma?, perguntavam eles, a chorarem de tanto rir. Eu não, dizia eu, nos últimos anos não tenho convivido com ninguém que contasse anedotas. Mantive-me firme e hirto, partilhando as gargalhadas, mas mantendo a postura. Sou um gajo sério, como é sabido. Por fim, cansados, deixaram-me ir embora, com a promessa de me ligarem depois do fim-de-semana, em jeito de ultimado.

 

2. Fui enganado com o peixe assado

Na sexta-feira, como combinado, às 21h00 estava plantado à porta do restaurante “O Telheiro”, em Coimbra, para um jantar de trabalho com dois amigos. Outros. O Miguel e o António. A ideia foi do António, que é de Coimbra, e que tinha já a mesa marcada. Para nossa surpresa, o jantar não era a três, como combinado, mas era a sete, sendo que os outros quatro eram perfeitos desconhecidos para mim e para o Miguel. Enquanto esperávamos na rua que a nossa mesa ficasse vazia, chegou um desses quatro e começou a oferecer espalhafatosamente pacotes de preservativos, já com ar de quem vinha com mais de 0,5 no sangue, bigode farfalhudo, em mangas de camisa, com uma barriga do tamanho das Berlengas. Era o sinal claro de que ia ser um jantar mesmo de trabalho. Já à mesa, descobrimos que o prato estava escolhido previamente. Por um lado, foi bom, porque, depois de sentar, veio para a mesa em menos de cinco minutos. Por outro lado, aqueles anormais pediram peixe assado, em vez de pedirem carne suculenta, como toda a gente honesta que vai ao restaurante! Sacanas de um raio! Até me saltaram as tampas dos olhos com tamanha afronta! Um tabuleiro de alumínio do tamanho do Terreiro do Paço, com um peixe enorme, coitado, esquartejado, assado, rodeado por meia dúzia de batatas. E eu, que tinha feito a viagem toda a lamber os beiços com a imagem de um bom bife de novilho ou uns abundantes nacos de carne. É como levar uma facada nas costas, se é que me faço entender. A única coisa que se aproveitou foram as sobremesas, que vieram umas cinco ou seis diferentes, e das quais me fartei de comer. Não houve ambiente sereno para conversar, para reunir, para tomar decisões, para escrever. Enfim, foi uma tanga! O restaurante está sempre cheio de gente, mas mesmo, mesmo, mesmo cheio, sempre com dezenas de pessoas à espera de mesa, espalhadas pelo espaço minúsculo que sobra, ou pelas escadas, e não se percebe para quê tanta parvoíce junta. É, afinal, um restaurantezeco um bocado para o rasca, a bem dizer, em todos os sentidos, mas isto é como na televisão e na vida: o povo não procura qualidade, antes prefere uma parvoíce qualquer a que se agarrar. E as gentes de Coimbra agarram-se ao “Telheiro”. Eu sempre achei o pessoal de Coimbra assim um bocado limitado, mas agora tenho a certeza. Chiça! Além do mais, e para que conste, as clientes deste restaurante deixam muito a desejar! Nem deu para encher o olho. E a minha cabeça parecia um periscópio bem lubrificado num qualquer submarino em plena Segunda Guerra Mundial. O que vale é que, bem depois, e já com a conversa toda em dia, fui até Aveiro, fazer uma visitinha a um amigalhaço, assar uma chouriça, beber umas coisas saudáveis e ver um filme da Pantera Cor-de-rosa até às cinco da manhã. Como diria o poeta: a chouriça assada e as bejecas salvaram a noite e mataram a fome! pickwick

publicado por pickwick às 15:32
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