Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

12
Mar12

A dieta, a tareia e o rodízio – parte 1

pickwick

Assim que se acabaram as orgias gastronómicas portuguesas associadas às chamadas “boas festas”, comecei a debruçar-me seriamente sobre a necessidade - eventualmente desnecessária, dependendo da perspectiva – de começar a fazer uma dieta rigorosíssima, a par de um treino físico intenso e metódico, aspectos essenciais para, no início de Março, participar num torneio de judo exclusivo para fulanos com cabelos brancos que julgam que ainda têm vinte anos.

 

Sempre fui uma pessoa meditativa e nunca recuso dedicar o tempo que achar necessário à meditação, pelo que o “debruçar-me seriamente” rendeu muitas semanas. Em especial a questão da dieta. Para alguém que ainda tinha arroz doce e bolo-rei misturado no sangue, havia que perder uns sete quilos, mais coisa, menos coisa, para poder competir na categoria de menos de 90 kg. Com o passar das semanas, a meditação sobre o assunto tornou-se cada vez mais séria, embora limitando-se a isso. Sem balança em casa, pesei-me umas duas semanas antes e não me espantei com os 94 kg. Lindo serviço!

 

Ainda assim, deixei prolongar a fase da meditação, porque é bom pensar seriamente sobre qualquer assunto de relevo. Só na semana que antecedeu o torneio, é que comecei a tentar transformar a meditação em ações concretas, embora muito pouco convincentes, tenho que reconhecer. À mesa, deixei de comer o pão todo logo nas entradas. Com torneio num domingo, só na quinta-feira é que me decidi comprar uma balança cá para casa, por causa das coisas. Na quarta-feira, finalmente, fui fazer uma corridinha desesperada pelos pinhais, trajado com uma combinação sofisticada de indumentárias: calções, calças de fato treino, t-shirt, camisola de algodão, casaco impermeável e camisola de malha polar. Deu para ensopar a vestimenta como se tivesse chovido desalmadamente. Na sexta-feira, apesar de haver oportunidade para ir correr novamente, fiquei na sorna, pois mal podia com as pernas, o que é uma coisa muito inteligente para alguém que está a preparar-se para ir levar umas tareias.


No sábado, lá me achei com forças e meti-me aos pinhais, com a indumentária sofisticada. Ao chegar a casa, depois de um banho, já estava nos 88,4 kg. Maravilha. Ligou o Miguel, eh pá, tens que comer massas e carne porque ah e tal. Fui na conversa dele, mas acordei no domingo com 89,9 kg.

Num acto de soberba inteligência, vesti a combinação mortal e fui correr novamente para os pinhais, desesperadíssimo. Nestas alturas, um gajo dá graças por escolher um percurso sem concorrência, onde é muito improvável cruzar-se com mocinhas a fazer um saudável jogging, o que, a acontecer, seria uma machadada no meu ego, tal era a minha figurinha. Mas, adiante.


Chegado a casa, banho, balança e 88,2 kg. Uffffff!...

 

Com pesagens oficiais às 14h15, foi correr para o carro, passar no supermercado para comprar umas bombas calóricas e rumar a Coimbra, apenas com uma barrinha de cereais e um copo de água no estômago. Eu sei que isto parece coisa de gaja, mas um homem desesperado deixa vir ao de cima a sua mais profunda faceta feminina.

 

As pesagens decorreram num balneário. Coisa de homens, portanto. O problema, é que os quase oitenta atletas participantes tiveram que se pesar na mesma balança, pelo que a confusão era mais que muita. E, nestas ocasiões, os desesperados não usam cueca, não vá uma graminha de algodão a mais catapultá-los para o escalão de peso acima. Não foi o meu caso, confiante que estava na balança de casa, e que bateu certinho com a balança oficial.


A seguir, e até ao início dos combates, lá para as 16h30, desforrei-me em chocolates, barras de cereais e néctares de fruta, para tentar arranjar alguma forcinha de última hora e compensar o desgaste da inteligente corridinha matinal. E fartei-me de rogar pragas a mim próprio por ter deixado para a última da hora esta coisa do peso.

 

Já agora, qual seria o problema de competir no escalão de peso acima? Bom… é que os gajos desse escalão são… como direi… muito pesados, vá… pickwick

17
Dez08

Chocolat au lait

pickwick

Hoje o dia foi de grande azáfama, para trás e para a frente, e até uma pessoa teve que ser despachada para o hospital. Deu para ir almoçar fora com duas jovens colegas de trabalho, num ratio de 3 para 2, deu para me reunir com cinco (devia haver a palavra “cinca”, para melhor entendimento do género) colegas, num ratio de 1 para 5, e até deu para descobrir o ecrã de um computador portátil riscado a golpes de x-acto.

 
A meio da tarde, quase à hora do lanche, apareceu uma senhora francesa, pedindo para falar com o patronato. Não mão, trazia uma monumental caixa de chocolates, com um bilhete colado. Eu já conhecia a senhora, mas nunca tínhamos chegado a vias de facto ao nível oral. A senhora francesa, está em Portugal há poucos meses, pelo que fez o melhor que pôde, num português muito mal amanhado, para expressar o que lhe ia na alma e o destino a dar à caixa de chocolates: para agradecer o trabalho dos profissionais da nossa instituição para com os seus rebentos. O bilhete dizia precisamente isso, num português perfeito. Agradeci-lhe a atenção, assim com aquele meu ar de brutamontes que tão habilmente faço quando fico sem jeito, estendi-lhe a mão e desejei-lhe bom Natal.
 
Entretanto, apareceu uma colega nossa que viveu em França até ao fim da adolescência, e que tem ajudado nas traduções. A senhora francesa agarrou-se a ela, deu-lhe outra caixa de chocolates, e se não derramou umas lágrimas foi porque não calhou.
 
O Natal presta-se a estas coisas, eu sei. Eu dispenso perfeitamente. À excepção das magníficas travessas de arroz doce, borrifadas com canela.
 
Levei a caixa de chocolates para a sala, fechada, com o bilhete bem visível, para proporcionar um agradável momento de leitura aos meus colegas.
 
Instantes depois, assim daqueles instantes em que um gajo sai da sala e vai ao gabinete e volta à sala, deparei-me com a caixa completamente vandalizada, sobrando menos de vinte por cento dos chocolates! Num ágil golpe de ancas, posicionei-me estrategicamente, de forma a, num simples e singelo alongamento do braço, caçar um dos chocolates sobreviventes. Um gajo tem de ser assim, ágil, para fazer face à concorrência do bando de abutres esfaimados que rondam diariamente o local de trabalho, olhos fitos em qualquer peça comestível que se atravesse ao caminho. Com ou sem bilhete lamechas. pickwick