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Sábado, 29 de Janeiro de 2011
A decadência do império

À semelhança de anos anteriores e mantendo uma tradição com mais de uma década, a passagem de ano 2010-2011 foi protagonizada na Serra da Estrela. Isto dito assim, até parece que costumo alugar uma cabana encravada numa encosta serrana, com todas as condições conseguidas pela civilização: frigorífico para o champanhe, banho quente com hidromassagem, sofás, TV plasma com acesso via satélite, cozinha equipada, aquecimento central, lareira (para a fotografia), isolamento térmico, janelas com vidros duplos, alpendre para apreciar o pôr-do-sol, cagadeira da Roca, micro-ondas, forno típico a lenha, lava-loiças com água quente, e por aí fora. Ou não.

 

Bom, a verdade é que, por uma questão de tradição, a cabana foi apenas um toldo de plástico. A 1700 metros de altitude.

 

Há pequenos sinais que indicam a proximidade da “decadência do império”. Nesta passagem de ano, em particular, abundaram os sinais!

 

1. Começou logo com uma travessia atribulada de um ribeiro de água fresca e furiosa, acabadinha de brotar das profundidades da montanha. Parecia que tudo escorregava. Lá vai o tempo em que a malta não se quedava a sondar os calhaus e fazia-se ao leito sem se incomodar em molhar o pezinho. Infelizmente, já vamos na fase em que tentamos atirar a mochila para a outra margem e damos a mãozinha a alguém com menos idade que nos ajude a saltitar delicadamente de calhau em calhau.

 

2. De seguida, sofri um profundo ataque de Alzheimer, quando quis reencontrar um trilho que nos levaria ao destino. Apesar de já ter feito o dito duas vezes em 2010, aparentemente como que desapareceu do terreno. Após mais de duas décadas a calcorrear a Serra da Estrela no inverno, de mochila às costas, um gajo simplesmente tem um varrimento de memória e não encontra um caminho. É triste.

 

3. A montagem do abrigo para passar a noite sempre foi aquela aventura bem sucedida, seja a chover, a nevar, de noite, com ventania, com gelo, com frio, com tudo. E sempre – mas sempre! – o abrigo ficou um luxo, com paredes, impermeável, aguentando tudo e mais alguma coisa e proporcionando um conforto impensável. Desta vez, era só mesmo o terno pôr-do-sol, sem qualquer agrura da natureza. Ainda assim, o abrigo ficou uma coisa esperta, desengonçado para um lado, sem portinhola à maneira, sem fio para pendurar as cuecas e as lanternas. Ficou tão mal feitinho, que acordei às 4h da madrugada com as costas todas ensopadas (idem para o saco-cama), e nem sequer chovia.

 

4. Durante alguns anos, protagonizámos uma excepcionalmente bem conseguida técnica de proporcionar calor e luz dentro do abrigo, recorrendo a um prato metálico, cera de velas e um grande saco de amendoins. É algo tecnicamente muito à frente, pelo que me escuso de entrar em pormenores. Desta vez, quisemos ir um bocadinho mais à frente, e acabámos todos intoxicados com a fumarada, sem vermos um boi à frente do nariz, tendo que abrir as fraldas do abrigo para sair o fumo e entrar o gelo da noite.

 

5. Para animar a malta, decidimos evoluir no que diz respeito ao conceito e métodos para refrescar as bebidas para o jantar. Habitualmente, as garrafas ou ficam a refrescar naturalmente ao ar gélido da noite, ou metemo-las na neve ou num ribeiro. A tentativa de evolução passou por colocar as garrafas no ribeiro, presas com um longo fio de sisal cuja outra extremidade ficava à entrada da tenda. Testámos a técnica, inclusivamente filmámos o teste, em jeito de Bear Grylls, com a garrafa a deslizar suavemente desde o ribeiro até à entrada do abrigo. Pena que, na altura devida, em pleno jantar, a garrafa encalhasse no primeiro tufo de vegetação, sendo necessário sair do abrigo descalço para dar uma corridinha e desencalhar a dita cuja, resmungando com o fracasso da técnica.

 

6. Todos os anos, a vida em campo acaba mais cedo. Assim que anoitece profundamente, metemo-nos no abrigo, assamos as chouriças, esvaziamos os tintos e as cervejas, petiscamos mais qualquer coisinha e, eventualmente, jogamos qualquer coisa. Na falta de jogo, batemos uma sestinha até tocarem os despertadores a poucos minutos da meia-noite. Ora, desta vez, não houve despertadores. Não sei porquê. Pode ter sido do fumo que nos deixou atordoados. O resultado, contudo, resume-se em poucas palavras: às 10h da manhã do dia 1 de Janeiro, quando finalmente acordámos todos, abrimos o champanhe, fumámos os charutos e festejámos o novo ano de 2011, como se fosse a coisa mais natural deste mundo.

 

Estes sinais são, sem dúvida, o indício de que se aproxima velozmente o fim do “império”. Foram situações que revelam decadência pura. Dantes, não éramos assim! Dantes, havia para cima de uma dezena de garrafas de líquidos poderosos, como uísque, Pisang Ambon, licor disto e daquilo, mais uísque, e por aí fora. Hoje em dia, é cerveja, um tinto para disfarçar, e só não levámos sumo porque aí seríamos até enxovalhados pelas vacas que pastassem por perto! pickwick

publicado por pickwick às 22:02
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Domingo, 23 de Setembro de 2007
35 milhões de euros
(comentário político… então?, quando é que me chamam para o jornal das 20h?)
 
“José Mourinho vai encaixar cerca de 35 milhões de euros como forma de indemnização pelo despedimento do cargo de treinador do Chelsea. A decisão do multimilionário e dono do clube, Romam Abramovich, interrompe um contrato que tinha validade até ao final da época de 2010, mas o técnico português vai receber tudo a que teria direito se continuasse no cargo até essa data.”
 
Obviamente que eu também quero! Também quero que a minha patroa-madre-superior, que é uma patareca, mal encarada, mal educada e muito bruta, me interrompa o contrato e me pague já, já, já, tudo a que eu teria direito se continuasse nas minhas funções até ao final da minha carreira. Aliás, querida patroa, deixa-me só fazer as contas, que já te digo. Ora bem, se fizer as contas por baixo, isto é, se considerar que não seria aumentado até ao final da minha carreira, coisa que tu tanto adorarias porque me estimas como a um filho bastardo ranhoso e se morresse pelo caminho melhor ainda porque terias que pagar a alguém em início de carreira para me substituir e que sairia muito mais barato e eu também gosto muito de ti e se morresses tu pelo caminho eu deitava uns foguetes e uns panchões e abria uma garrafa de champanhe porque acho que és uma pobre de espírito com defeitos graves de fabrico e muitos traumas de infância e psicologicamente doente e não fazes falta nenhuma ao mundo porque não sabes o que andas a fazer mas tens a mania que vives num pedestal e não sei quê e já não sei onde é que ia porque agora perdi-me com o entusiasmo de te chamar nomes feios e até fiquei com as unhas de fora… hum… contas… contas… ora bem, desculpa lá este desvio, já cá estou novamente. Contas feitas, terias a pagar-me a magra quantia de 437500 euros. Já! Eu sei que nem sequer chega a meio milhão de euros, é uma vergonha. Mas, ao menos, sou uma pessoa de bem. Um gajo que nos próximos três anos ganharia trinta e cinco milhões de euros, não é uma pessoa de bem. Aliás, nem sequer é uma pessoa normal. Nem ele, nem a aberração do Abramovich. É tudo gente perigosa, doente, distorcida. Deviam ser engolidos por um sapo gordo e cuspidos na sarjeta. Não, não é inveja. O dinheiro na posse de grunhos, ainda que em quantidades difíceis de imaginar, não causa inveja. Repúdio, é o sentimento. É como os novos-ricos da nossa praça, pirosos até mais não, idiotas em abundância, grunhos e pobres de espírito. Deles só têm inveja os que se batem pelos mesmos valores, os também pobres de espírito. Bem, os velhos-ricos também acabam por não ser muito melhor, que isto do dinheiro em abundância normalmente está associado a limitações do espírito. Há excepções, claro. No caso concreto do Zé das Mouras, e apesar de eu não apreciar o “futebol” profissional - que nem se devia chamar futebol porque não é propriamente um desporto -, o homem padece do mal que assola a minha patroa-madre-superior. É bruto, é mal encarado e é mal educado. Ou seja, se lhe tirassem as roupinhas pirosas de marca e todos os sinais exteriores de riqueza e lhe esvaziassem as contas bancárias, teríamos algo parecido com um brutamontes das obras: porco, grosseiro, brejeiro, idiota e pobre de espírito. Por falar em pastéis de bacalhau, este homem não deveria pagar ao Estado Português uma gorda percentagem desses trinta e cinco milhões? Tipo, uns doze milhões? Ah e tal, imposto sobre rendimentos e não sei quê. Não devia? Vai pagar? Às tantas, não vai. Enfim, estou para aqui a falar mal de um fulano ordinário, quando devia estar a falar de gajas. É melhor falar de gajas ordinárias, do que gajos ordinários, é certo, mas esta coisa dos trinca e cinco milhões deixou-me mal disposto. Se eu recebesse, de repente, essa quantia, por via de um despedimento, em vez de uma patética quantia que nem chega a meio milhão, isso, sim, é que era vida. Começava por espancar a minha patroa-madre-superior com uma mangueira de borracha cheia de areia por dentro. Dada a ligeireza do abandalhado Código do Processo Penal, e as facilidades dadas aos facínoras, poderia continuar por aí, em perfeita liberdade, a espancar as pessoas que se me atravessassem no estômago, a comer bifes de novilho com batatas fritas em restaurantes, e até me poderia dar ao luxo de ser ordinário, bruto, mal encarado e mal educado, porque, na pior das hipóteses, acabaria ofuscado pelas luzes da ribalta, com a fronha escarrapachada nas manchetes de revistas e jornais, a servir de tema para sonhos eróticos de dois terços da população feminina, e, pela certa, teria que contratar uma secretária para gerir o parque de fãs tresloucadas e insaciáveis. pickwick
publicado por pickwick às 19:07
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