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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

17
Out07

As aventuras do paizinho - 2

pickwick
5. A Mauser já pesa
A Mauser é uma espingarda que fez história no mundo dos conflitos e das guerras em geral, servindo em muitos exércitos e durante muitos anos. Contava o meu paizinho que, com uma Mauser, se conseguia furar o carril do caminho-de-ferro só com um tiro. Aliás, um grande divertimento do meu paizinho, nas suas comissões militares em África, era caçar antílopes com a Mauser. Depois queixava-se que ah e tal, eu acertei-lhe em cheio mas fugiu e nunca mais se encontrou a carcaça. Depois de África, sobravam as carreiras de tiro para dar uso à Mauser. Lembro-me de, certa vez, ter tido o prazer de também disparar a arma, dando-me cabo do ombro e quase me estoirando os tímpanos. Ontem, fui ajudá-lo a reparar o armeiro que construiu em madeira para expor as espingardas da sua colecção. Bolas, já não posso com a Mauser, nem sei como é que dantes andava à caça com isto, queixava-se. Isto de ser septuagenário é do caraças, digo eu.
 
6. Já nem com a 9 mm
Não bastando a falta de força para pegar na Mauser, o meu paizinho também se queixou que já nem conseguia puxar a culatra da pistola de 9 mm que trouxe de África. Eu fiz logo contas. A arma em causa, não é de fiar. Uma vez, em 2000, fomos os dois para a Serra de São Mamede experimentar a pistola de 9 mm, umas carabinas e um revólver com munições Magnum. Correu tudo lindamente, até à pistola de 9 mm, que disparou acidentalmente quando o meu pai tentava puxar a culatra e me explicava que ela era manhosa e imprevisível e disparava sozinha quando lhe apetecia. Portanto, dado o mau humor da senhora, é bem melhor que o meu paizinho já não consiga puxar a culatra atrás.
 
7. Ainda as brasileiras
Hoje fomos comer a um restaurante chique num centro comercial chique numa zona chique da linha do Estoril, ali para os lados da Parede, assim quase em Carcavelos. O meu paizinho quis levar-me lá porque ah e tal outro dia tinha lá comido um bife enorme e lembrou-se de mim e queria que eu lá fosse provar o bife. Pois sim. O que ele queria, era ir lá dar dois dedos de conversa com uma das jovens brasileira que lá trabalham, à qual já chamava amiga. Eu comi picanha, por causa das cócegas. A “amiga”, afinal, já não trabalhava lá. Mesmo assim, o meu paizinho, que ouve muito mal, aproveitou para discutir o campeonato de Fórmula Um com um dos empregados, também brasileiro, e também apaixonado por esse “desporto” idiota. Minutos antes o meu paizinho tinha-me perguntado se eu entendia os brasileiros a falar, porque ele tinha muita dificuldade. Portanto, como se depreende, a discussão sobre F1 de um brasileiro com um português que ouve mal e que tem dificuldades em entender brasileiro, foi do melhor. Como? Hem? Hã? No fim do almoço, entrou ao serviço uma brasileira toda jeitosa (vá, pronto, não era gorda), também conhecida do meu paizinho. Em poucos minutos, já lhe estava a pedir o telefone da outra “amiga”, aproveitando para dizer que a outra era muito simpática mas “você também é muito simpática”. Tudo isto, enquanto eu fugia sorrateiramente para fora do restaurante, tentando escapar ao embaraço que me assaltava.
 
8. Tal pai, nem por isso o filho
O “tal pai, tal filho” aqui não se plica. O meu paizinho era um malandro na sua juventude. Conduzia um carro desportivo descapotável, usava colete e chapéu negro à cowboy. Tocava concertina, andava pelos bailes ribatejanos a engatar raparigas solteiras e esperava-as à saída das missas. Às vezes montava a cavalo e vestia-se à cowboy, com revólver e tudo, mas isso é outra estória. Nem com a idade lhe passou a lata para disparar piropos às cachopas ou meter conversa com qualquer que lhe apareça. Já o filho mais velho não lhe seguiu as pisadas. Este, cumprimentava as cachopas com o seco “bom dia”, sem beijinhos, e fugia delas a sete pés, não fosse alguma comê-lo vivo, apesar de desejar intensamente ser comido vivo e regurgitado e engolido novamente e regurgitado mais vinte vezes por uma moçoila qualquer que nem precisaria de ser sequer bonita. Passados uns anos, acumulando cenas tristes e episódios ridículos, deu-lhe para a parvoíce e começou a escrever disparates num blog. Enfim. Desculpa lá, paizinho, mas sabes que não somos todos iguais… pickwick
15
Out07

As aventuras do paizinho - 1

pickwick
Depois de dois dias de confraternização com o meu paizinho, septuagenário de corpo, faço a viagem de regresso ao lar, doce lar. É por estas e por outras que continuo convicto de que a vida na província é que está a dar. Ou se calhar não tem nada que ver com o assunto e eu é que já não tenho mesmo paciência para a capital e os seus arredores.
 
1. Pedras Negras
Desde há muito que me lembro do particular gostinho que o meu paizinho tem por uma aguardente ao final do dia, mesmo antes de se deitar. Ainda eu ia no início da minha puberdade, quando comecei a ter sérios problemas de tosse e catarro psicológicos, curáveis apenas com uns golinhos da mítica garrafinha de aguardente caseira que repousava na banca da cozinha. Era fogo, especialmente para um puto daquela idade. Certo dia, ia a entrar sorrateiramente na cozinha e apanhei o meu paizinho de cu alçado a medir, com uma fita métrica, a altura do nível da aguardente na garrafa. Obviamente, tinha desconfiado do ritmo de abatimento do nível e suspeitava de mim. Tive que parar com o problema de tosse e catarro e esperar até obter alguma independência que me permitisse beber quantas garrafas me apetecessem. No caso presente do meu paizinho, apanhei uma garrafa de litro de aguardente “Pedras Negras” na mesa da cozinha. Nem sequer era na banca. Era ali, na mesa, mesmo à mão de semear. Na banca, contudo, repousavam duas garrafas de litro da mesma aguardente, completamente vazias! Ah, valente!
 
2. A coreana bonita…
… a mim, não me convém, eu não quero andar na rua, com uma gaja podre de boa. Esta é a minha adaptação moderna a mais uma tirada fantástica do meu paizinho, num momento de nostalgia. Contava ele, entre duas garfadas, uma peripécia passada no seu regresso a Portugal, no final da sua carreira profissional, uma viagem à volta do mundo que foi o concretizar de um sonho de infância. A viagem, sim, mas as peripécias já parecem mais sonhos de adolescentes com as hormonas aos saltos. Bom, num dos países por onde passou, a Coreia, encontrava-se a comer pacatamente na mesa de um restaurante, quando avistou, numa mesa próxima, uma mulher lindíssima, coreana, mesmo muito, muito, muito bonita. Quando acabou de comer, o meu paizinho dirigiu-se à mulher, bastante jovem, com o intuito de esclarecer se era uma mulher ou uma adolescente. Uma mera curiosidade científica, claro. Num inglês curto de vocabulário, lá se entendeu e esclareceu. Depois saiu com ela e passaram o dia juntos, mais uma amiga dela. Rapidamente veio a descobrir que se tratava de uma meretriz, linda de morrer, mas muito meretriz. Só se separou dela à entrada da rua onde iria prestar serviço. Veio esta estória a propósito do sentimento de incómodo que ele sentiu ao passear-se nas ruas naquela companhia, sendo que toda a gente parava na rua para a ver, de tal maneira era bonita. Bem, viam-na a ela, mas também à companhia, vindo daí o tal incómodo. Eu, pela parte que me toca, sei qual é o sentimento. Já o vivi na pele, embora não com uma meretriz. Foi em Portugal, onde há uma facilidade enorme em sair à rua com uma rapariga séria que se apresenta inocentemente com aspecto de meretriz.
 
3. As brasileiras e as chinesas
Última grande descoberta do meu paizinho: as brasileiras e as chinesas têm coisas em comum. Parece que tem que ver com o facto de não pronunciarem as consoantes no final das palavras. Eu acho que há mais qualquer coisa em comum, a avaliar pelo excessivo interesse que ele revela pelas moçoilas destas duas nações. As chinesas, porque sim. As brasileiras, porque são muito dadas e simpáticas por natureza, embora não se dêem mesmo, na plenitude do sentido. Enfim. E acho que também tem um fraquinho por venezuelanas, mas penso que foi uma coisa passageira.
 
4. Licor de amoras silvestres
Um vizinho ofereceu ao meu paizinho uma garrafinha de Compal com licor caseiro de amoras silvestres. Provei. Não é mau. Sabe a quase nada. Quase como a aguardente “Pedras Rubras”, que sabe a água mas deve continuar a ter os quarenta graus. Mais um licor para experimentar em casa. Um dia destes, meto-me à estrada em duas rodas e faço um assalto discreto a um matagal de silvas algures. A ver se, desta feita, me lembro que as amoras boas são as pretas e não as vermelhas. Não vá acontecer como um certo dia de Agosto, em 1988 ou 1989, quando, depois de atravessar a pé a Serra de Montemuro, esganado de fome e sede, afiambrei uns quilos de amoras silvestres, tão deliciosas, tão vermelhinhas, tão maduras, evitando as amoras pretas, obviamente ainda verdes e impróprias.
(continua) pickwick