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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

06
Abr12

Piropos em brasileiro

pickwick

As redes sociais têm destas coisas:


“vemmmmmmmmm
amor
vamos fazer amor
vc quer
vc deve ser lindo nu
quero ve vc nu
amor
amo vc
queria fazer amor com vc”

 

Um gajo está perfeitamente descansado, quando leva com uma mensagem destas pela proa. A autora tem quase cinquenta anos e pode ser que tenha sido uma rapariga engraçada, há uns trinta e cinco anos atrás, sei lá. Loira, ainda por cima.

 

Apesar da intensidade da mensagem, acho que a versão lusitana desta seria muito ordinária. Porque, a bem dizer, esta mensagem nem é ordinária. Não fala em coito, nem em coisas que se fazem na ou com a boca, nem em orifícios, nem em líquidos, nem em coisas que podem ser apertadas com as mãos ou os dentes. Antes, fala na beleza da nudez e na pureza do amor. É lindo, tenho que reconhecer. A versão lusitana seria, certamente, enriquecida com um mui rico vocabulário na onda “massa-para-assentar-tijolos”. As brasileiras parecem ter uma visão amorosa do próprio amor. Isto é, um amor que é mais do que simples amor: é um amor amoroso. Sei lá.

 

Não querendo generalizar, em geral as brasileiras aparentam ter uma auto-estima inabalável e do tamanho do universo. É um facto que sempre me impressionou. Ah e tal, “fogosa e linda de morrer” (credo! parece uma porca atropelada por um carrinho de rolamentos conduzido por um rinoceronte). Ah e tal, “deusa do amor” (só se for no meio dos chimpanzés!). Ah e tal, “rose original” (pudera! quem é que te quereria copiar?). Ah e tal, “loira e deliciosa” (para dar de almoço aos leões? também acho que sim…). Não as consigo perceber. Não vendem espelhos daquele lado do oceano? Lá para aquelas bandas não parece haver complexos do que quer que seja. São todas boazonas, irresistíveis, lindas e poderosas. Não há mulheres feias, mal feitas ou com aspecto de saco de batatas greladas. É um mundo! pickwick

15
Mar12

A dieta, a tareia e o rodízio – parte 3

pickwick

Em tempos idos, há duas décadas atrás, a segunda metade dos meus treinos de judo era passada com uma única ideia em mente: sair dali feito galgo, largar o saco em casa, assentar praça no Inhangá, e verter avidamente duas canecas de cerveja gelada. Mesmo quando era inverno ventoso e frio, e tinha que ficar debaixo de uma chuveirada de água gelada para acalmar o ritmo corporal. Não é que seja coisa inteligente de se fazer, mas a mente tem razões que a própria razão desconhece, como diria alguém.

 

Na mesma onda, assim que me vi livre das tareias todas e despachado da passagem pelo topo do pódio, a minha bússola virou o Norte para um generoso prato de carne suculenta, acompanhado por muita cerveja. E não haveria nádegas ou decotes neste mundo que desviassem a agulha da bússola!

 

O imparável desejo concretizou-se com a invasão de um restaurante abrasileirado, para um “rodízio à brasileira”. O vaivém de carnes, a pinça para agarrar a fatia cortada na hora, o feijão preto, a couve, uiiii… Foi a loucura! Ainda por cima, era uma menina brasileira a servir, com um sorriso de orelha a orelha, num exibicionismo bem-vindo da dentuça branquinha. Muito fofinha. Eu estava mais interessado em consumir cerveja desalmadamente e abocanhar toda a carne que passasse a menos de um metro da nossa mesa, mas, ainda assim, consegui prestar alguma atençãozinha à moça. Muito fofinha. Acho que já disse. Não faz mal. A partir de certa altura, um gajo começa a ficar familiarizado com o sotaque brasileiro em tom feminino e solta-se a língua com muita facilidade, mas isso agora não interessa. Pelo menos, até consegui arrancar uns sorrisos e umas frases filosóficas da menina, a propósito da couve, que eu confundi com salada (mania de fazerem tudo verde) e da qual pedi para repetir alarvemente. Quando se tem um buraco negro no estômago, vale tudo, desde salsichas e picanha, até um monte de quinze centímetros de couve. Ah e tal, pena a maior parte das pessoas não gostarem assim de comida saudável, disse ela. E que bem que tu ficavas de biquíni, misturada aqui nas couves do meu prato, pensei eu. Mas uma cervejola e acho que lhe perguntava se podia fazer o favor de despir-se, besuntar-se com molho de pimenta e esticar-se ao comprido na nossa mesa. E as carnes continuavam a vir, umas atrás das outras, até a última fatia ficar a boiar mesmo às portas do estômago. No limite, portanto.

 

Bom, tivemos que dizer adeus à menina e rumar ao Dolce Vita para lavar melhor as vistas durante uma horita e comprar umas câmaras de ar para bicicletas. O centro comercial estava em crise, ao que acrescia alguma inércia ocular da minha parte, devido ao excesso de couve e cerveja. Enfim, são coisas da vida.

 

Pouco depois, e contrariando os planos iniciais, decidi meter-me ao caminho e regressar ao lar-doce-lar. De repente, sentia-me como se tivesse jantado uma saladinha de atum magro, acompanhada com um sumo light. O estômago começou a encolher misteriosamente e o efeito da cerveja estava completamente dissipado. De facto, ao fim de meia hora de viagem, tive que parar para meter mais qualquer coisa no estômago, que já não aguentava a dimensão do buraco!

 

Não sei o que raio se passou, mas andei uns quatro dias com um problema de alimentação. Uma fome insaciável. Ok, fiz uma dietazinha ligeira. Ok, borrei-me todo nos quatro combates, ao ponto de ficar com dores no corpo todo até sexta-feira. Mas, nada disso me parece explicar uma fome permanente, como se tivesse passado um mês a água e casca de árvore numa qualquer selva tropical. Presumo que tenha havido para aqui uma revolução no organismo, das grandes, para ficar naquele estado. Não é normal, quando um gajo acorda de manhã cedo a sonhar com lasanha, come lasanha, imagina lasanha, visualiza lasanha no velocímetro do carro com fios de molho de tomate a fazerem de ponteiro, e adormece a pensar que a lasanha podia levar picante por cima para ficar ainda mais gostosa... pickwick