Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

29
Dez07

Beijos, beijinhos e beijocas

pickwick

Após o regresso ao lar doce lar, aqui na aldeia, retornei ao serviço no meu distinto posto de trabalho, atrás de uma secretária, no belo gabinete do patronato. A pasmaceira reinava no edifício. Umas senhoras dedicavam-se a lavagem e limpezas, aqui e além. Eu gosto destes ambientes, assim, de pasmaceira, sem o formigueiro de gente de um lado para o outro. É bonito! É saudável! É acolhedor! Mas dura pouco tempo! Ah, pois é! Quando dei por isso, já tinha uma colega a entrar pelo gabinete dentro. Beijinho daqui, beijinho dali, e toma lá uma prendinha para vós todos. Mais tarde abri e era uma caixa repleta de chocolates da Ferrero Rocher… horrível… Bom, eu pensava que já tinha acabado a vaga dos chocolates que atacou implacavelmente nas semanas antes do Natal, mas, afinal, ainda está para durar. Pior que mais chocolates, é ter que trocar beijinhos com colegas. Eu nunca gostei muito de beijos. Não sei se é algum trauma por a minha bisavó ter um bigode estilo D. Carlos I. Não sei se é pelo promiscuidade que se gera. Nunca gostei, pronto. E, na última semana, tem sido um exagero. As minhas colegas fizeram questão de me vir pregar dois beijinhos a desejar Bom Natal, quando durante dois anos nem um aperto de mão se atreviam. Eu não acho bem. Primeiro, porque eu não gosto dessas cenas abichanadas de trocar beijinhos com as colegas. Segundo, porque me obrigavam a levantar o traseiro da cadeira e dar a volta à secretária, o que, depois da segunda vez, começou a tornar-se muito cansativo. E hoje foi a mesma coisa. Apareceu a Fátima, chuac chuac, depois apareceu a outra Fátima, chuac chuac, depois apareceu a Maria, chuac chuac. Não há condições de trabalho, assim. Fui salvo por uma das minhas colegas do patronato, que, numa clara demonstração de sapiência superior, topou que eu não sou de beijinhos e cumprimentou-me com um sorriso e uma palmada nas costas. Obrigado, colega. Só tu me compreendes. As duas Fátimas foram-se embora e mais dois beijinhos para cada uma, depois da tradicional voltinha à secretária. Irra! Eu acho que esta cultura do cumprimento deveria mudar. Apertos de mão para toda a gente e pronto! Beijos é na namorada, na esposa ou na amante. Ou na filha. Nossa. De resto, é tudo corrido a aperto de mão. Ou à índio, braço no ar: ugh! Hoje fiquei com a sensação de que as gajas gostam de dar beijinhos nos gajos. É daquelas sensações sensoriais fantásticas, inexplicáveis pela razão. Não percebo qual é o gozo, especialmente quando o gajo – moi – vai para o trabalho todo gordo que nem um texugo e com barba de quatro dias. Enfim. Tremo só de pensar como será no primeiro dia de trabalho de dois mil e oito. Vão andar todas a beijarem-se umas às outras? Vão andar a correr atrás dos gajos para roubar duas beijocas? Depois vão tentar a terceira e quarta beijocas com a desculpa que se tinham esquecido que já haviam dado a primeira e a segunda? Ah e tal, já te tinha cumprimentado? Ah e tal, não faz mal, dá cá mais duas. Ora bolas! Vamos lá ver… E espero que não tragam mais chocolates. Eu gosto de chocolate, mas já tenho chocolate até nas veias dos olhos, debaixo das unhas e a gotejar do umbigo. A cera dos ouvidos acho que já é castanha! Até o Big Mac me soube a chocolate! pickwick

17
Ago07

Ó Nélia, esquece lá isso

pickwick

Depois de umas horas ao volante pelas estradas portuguesas pouco abaixo do rio Douro, cruzando-me com mais matrículas estrangeiras do que nacionais, ouvindo a Rádio Comercial e outras estações não tão nobres onde aquela peca em cobertura, os meus pensamentos voaram até uma vedeta que circula por aqui e por ali, enchendo-se de dinheiro e fama às custas dos consumidores. Falo da Nélia, essa estrela da canção esganiçada. E, nada de confusões: é Nélia Furtado, e não Nelly Furtado, ok? Se os brutos do continente dos mustangs não sabem soletrar o “a” no final do nome da rapariga, problema deles! Aprendam! Broncos! Ora bem, como já toda a gente deve ter reparado, a Nélia é, também, vedeta de um spot que costuma passar na Rádio Comercial, em que diz não sei quê, ah e tal, pisca o olho, e acaba com “bêjinhus”! E aqui é que está! “Bêjinhus”? Mas que raio é isso, Nélia? Será que queres dizer “beijinhos”? Tipo beijocas, choca-beiças, ou coisa do género? Vou acreditar que sim. Assim sendo, ou seja, partindo deste pressuposto, devo dizer-te, Nélia, que não estou interessado nos teus beijinhos. Embora não te conhecendo pessoalmente, devo dizer que, quando te ouvi pela primeira vez a distribuir beijinhos na rádio, tive que ir à Internet procurar umas fotografias tuas, para ver como tu eras, para ver se tinhas uns lábios sensuais, para ver se valeria a pena receber beijinhos teus. Como não tenho televisão em casa, tenho que me socorrer destas modernices, percebes? No princípio desta pesquisa, comecei a ficar fascinado. As imagens que apareciam mostravam uma brasa, um mulherão daqueles de fazer resfolgar o mais fogoso dos garanhões, uma deusa. Enfim, pouco depois descobri a verdade: tudo não passava de transfigurações, ou por maquilhagem, ou por fotomontagem. A verdade é que, em pouco tempo, descobri o teu verdadeiro “tu”. Uma fulana vulgar, demasiado vulgar, tipo lavadeira de terraços, feições mal feitas e desproporções corporais. Não é que eu seja esquisito, mas é que é mesmo assim. Até senti arrepios, vê lá tu, ao imaginar um beijo teu, frio, insensível, desumano, pegajoso, mórbido, besuntado. Lábios feitos de sola de sapato, secos e sem sabor. Um nojo! Isso de ah e tal umas cantigas e umas maquilhagens podem convencer o povo, mas não me convences a mim. Mulher que é bonita, salta à vista sem qualquer maquilhagem. E essas, são raras. O resto, é como tu: só brilham com um jeitinho. Um grande jeitinho! Depois, quem acordar no dia seguinte ao teu lado na cama, que se amanhe e reze para não sofrer de problemas cardíacos. Não leves a mal estes rasgos de sinceridade. Antes de viveres ofuscada pelas luzes da ribalta, por certo tinhas espelho em casa e sabias muito bem o que lá encontravas. Compreendo que, agora, te seja difícil recordar esse passado pouco ofuscante. Eu, se de repente começasse a vender milhões de discos e a andar misturado com estrelas e a usar pó de arroz e a besuntar as beiças diariamente com batom psicadélico e a posar para fotógrafos profissionais, acho que também me convenceria que era um rapaz estupendamente lindo e bem feito e atraente e incapaz de tirar macacos do nariz. Aliás, acho que me bastava vender uns milhares de discos e começar a usar batom para ter, em poucas semanas, dezenas de fãs histéricas e babosas, a aparecerem nos meus concertos com placas gigantes a dizer “you’re hot” e “come and eat me” e outras frases igualmente românticas. Até que, um dia, quiçá, surgiria uma bloguista do contra, que teceria comentários pouco abonatórios e pouco dignos da minha condição de estrela, argumentando com o meu mau aspecto natural, as minhas olheiras permanentes, o excedente de peso, blá blá blá, e depois eu teria que descobrir quem era a safada e apanhá-la e dar-lhe uma carga de pancada e partir-lhe os dentes e arrancar-lhe o cabelo e metê-la a assar num micro-ondas. Felizmente, para evitar toda esta turbulência, com batons e arraiais de pancadaria, fico-me pela futilidade da minha existência, deixando para ti toda a diversidade de variáveis que vêm por acrescento à fama, incluindo gajos chatos a fazerem tratados científicos sobre as tuas virtudes. É a vida! Seja como for, ó Nélia, esquece lá isso dos “bêjinhos”, está bem? pickwick