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Domingo, 1 de Julho de 2012
Como desenhar uma linha torta

Breve manual de instruções para conseguir desenhar uma linha torta numa manhã de domingo:

1. Senta-te numa mesa ampla e prepara-te para trancar a tinta vermelha as quase quarenta provas do exame nacional de matemática que te calharam na rifa, a onze páginas cada uma.

2. Decide intercalar cada prova com uma série de levantamento de pesos, por causa das cócegas.

3. Lá para a oitava prova e outras tantas séries, és apanhado de surpresa pelo agradável ti-ti do telemóvel, sinalizando a recepção de uma SMS.

4. Afinfa o telemóvel com três dedos e sorri, pois é uma SMS da miúda por quem estás completamente pelo beicinho, provavelmente desejando um bom dia a trancar provas.

5. Abre a SMS e descobre que, afinal, não é um desejo de bom dia, mas, antes, um singelo depoimento expressando uma grande vontade que ela sente de te beijar.

6. Toma consciência de que o sorriso parvo com que ficaste não irá desaparecer nos próximos sessenta minutos.

7. Sem pingo de consciência, regressa à oitava prova, convencido de que continuas concentrado.

8. Uma força misteriosa desvia-te a caneta do caminho dos justos e atropela meia equação.

9. Descobre que: a) a força misteriosa, afinal, não foi mais do que uma quase imperceptível pocinha de baba viscosa que te caiu da beiça quando leste a SMS; e que, b) matematicamente, a intersecção de uma linha vermelha com uma poça transparente resulta numa mancha de “nhanha” alaranjada.

10. Qual bombeiro de secretaria, socorre a situação lançando papel higiénico sobre o acidente, para absorver o líquido.

11. Complementa a acção com um golpe genial de tinta correctora branca, como se fosse um spray, e repara como, em alguns microlocais, a brancura apenas diluiu a “nhanha” alaranjada que não tinha secado ainda, transformando-a em “nhanha” salmão-desmaiado.

12. Um rasgo de lucidez atinge-te o cérebro e ocorre-te que não se usam porcarias destas em provas nacionais.

13. Soluciona a questão de forma exemplar, puxando do canivete suíço e raspando o agora naco seco de tinta correctora com algumas tonalidades salmão-desmaiado.

14. Assim que o naco se soltar, levando consigo pouco mais de dois centímetros quadrados de papel de prova e deixando um medonho buraco, expande as tuas mandíbulas num esgar de pânico, enquanto o cérebro se desmultiplica em estratégias de remediação e soluções milagreiras.

15. Ao fim de alguns minutos de intensa actividade cerebral, conclui que no dia seguinte terás que ir desencantar uma prova virgem e nela reproduzir integralmente todo o conteúdo da prova danificada, incluindo os gatafunhos do/a aluno/a, as assinaturas dos professores vigilantes e a parte da equação que ficou colada no naco de tinta correctora.

Nota do editor: a partir do oitavo passo, inclusive, as instruções correspondem a pura ficção e resultam somente da fértil imaginação do autor. pickwick

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publicado por pickwick às 12:03
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Quarta-feira, 12 de Setembro de 2007
Chouriças, lágrimas, tartes, baba e ranhetas
Mas que raio de dia, este. Até não começou muito mal, com os colegas de trabalho a comparecerem em peso, uns mais cedo que outros, os primeiros para trabalhar, os segundos para a reunião geral. A curiosidade pela distribuição de serviço e os horários de trabalho, as saudades, enfim, parecia um formigueiro. Pessoalmente, afligem-me estas situações pois, para além de ser alérgico a gatos e gatas, também tenho uma alergia crónica a ajuntamentos de pessoas. Mesmo que sejam todas conhecidas. É mais forte que eu. Não sei explicar. Mas, pronto, a profissão assim o exige e mais não há que fazer senão encaixar a situação. Da parte da tarde, assim que acabou a reunião geral, juntaram-se os três grupos de profissionais desta instituição, somando para cima de setenta pessoas. Juntaram-se, porque é bonito juntarem-se, especialmente se for na cantina, com meia dúzia de mesas exageradamente repletas de iguarias, petiscos, doces e bebidas. Uma concentração de comida suficiente para alimentar – à vontade – umas quatrocentas pessoas. Um momento de convívio gastronómico, para começar o ano depois das férias. Um completo exagero. Deve ser mania do povo aqui das beiras, que, quando toca ao rancho, não se atrevem a deixar espaço vazio na mesa. Não é que me esteja a queixar. Fiz um bocado de cerimónia porque, como já referi, tenho alergia a ajuntamentos de pessoas, seja à mesa, ou numa festa do pijama molhado. Fiz um bocado de cerimónia, mas, ainda assim, deu para provar algumas coisas saudáveis, como chouriças, bolas de carne, pasteis, tinto, bolinhos, tartes, presunto, Sumol, enfim, coisas assim. Comedidamente. Isto é, com discrição, comendo apenas duas fatias da bola de carne, em vez de devorar a bola toda, comendo apenas uma elegante fatia de tarte, em vez de repetir sete vezes, comendo apenas uma fatia de presunto, em vez de esvaziar o prato, e por aí fora. Estes momentos de confraternização mexem-me com os nervos. Andar ali a vadiar de uma ponta para a outra da mesa, metade das pessoas a fazerem também cerimónia, a olharem umas para as outras. Ora converso de pé, ora converso sentado, ora fico só e abandonado de pé, ora fico só e abandonado sentado, ora controlo os trajes femininos da ocasião, ora aproveito para verificar as medidas da D. Susana – que, pela primeira vez, vislumbrei à civil, sem a “farda” de trabalho. Não gosto destas cenas. Parecem aqueles cocktails do jet-set, pirosos, autênticas percas de tempo. Para comer, com prazer, é com os amigos, não com os colegas de trabalho. Mas, enfim, ossos do ofício. Entretanto, aproveita-se a ocasião para, de uma forma suave, passar a mão no pêlo às fãs do ex-patrão, encetando diálogos presunçosamente agradáveis e debates amigáveis, na tentativa de fazer confluir opiniões e sentimentos. No meio disto tudo, soma-se o desespero de algumas colegas, a chorarem baba e ranhetas por causa do horário de trabalho que lhes coube, nomeadamente por causa de umas insignificâncias que, no feminino, assumem proporções catastróficas, dignas de uma bíblia ou de um filme tipo “Jurassic Park”. Andam pelos cantos, lacrimejam, ficam com ranhetas penduradas das narinas, fungam, suspiram, fogem e simulam uma infelicidade maior do que se tivessem sido violadas a seco e com areia por um gorila-da-montanha muito macho mas muito bruto. O patrão Zé, coitado, perdeu logo o apetite com a estória das colegas choramingas. Coitado, e logo ele, que tem perdido noites a tentar que as meninas ficassem com um horário porreiro e aceitável. Não é justo. Mas, com gajas, já se sabe, a justiça não tem corpo, não tem alma e não passa de uma nuvem lá ao longe. Apeteceu-me pegar-lhes pela nuca e enfiar-lhes as fronhas na travessa das rodelas de chouriça assada, ou no prato da tarte de maçã, ou, então, pegar-lhes pelo elástico das cuecas e catapultá-las janela fora. Também tenho alergia a gajas a chorar. Não se aguenta. Não há necessidade. E não há paciência. Ainda por cima, volta e meia ando eu aqui a elogiá-las, ah e tal, ui ui, e não sei quê. Hoje, só me apetecia varrê-las para debaixo do tractor do estrume e passar-lhes com as rodas por cima. Sacanas! Gajas! Ai, que nervos! Por falar em gajas, quero terminar com uma singela referência ao facto de a loira dentuça ter sido a grande dinamizadora dos enchidos neste convívio gastronómico, organizando a assadura de dezenas de chouriças de carne, chouriças de sangue e alheiras, que sobraram em quantidades absurdas, mas que, mesmo às rodelas, não escondem a sua forma original: a de óbvios símbolos fálicos e potenciais apaziguadores de ansiedades primitivas. Além de muitos carros e pouca roupa, a loira dentuça também gosta de se ver rodeada de muitas chouriças. Não lhe fica nada bem, com aquela idade e aqueles dentes. pickwick
publicado por pickwick às 00:10
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