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Segunda-feira, 4 de Agosto de 2008
Coitado do Jessie

A entrada em mais um fim-de-semana seduziu-me para o aluguer de um filme em DVD, no clube cá da merdaleja. Ultimamente, tem sido difícil escolher um, entre as centenas disponíveis, porque praticamente todos apresentam um ar de genuína porcaria artística. Será produto de uma crise mundial de falta de imaginação?

 
Entre as novidades, estava um filme com um nome compridíssimo, a saber: “O assassínio de Jesse James pelo cobarde Robert Ford”. Ora, ambas as personagens existiram, na realidade, embora com algumas diferenças em relação ao filme.
 
Robert Ford tinha um ar pouco másculo, tal como o actor, mas, pelo contrário, não tinha o cabelo liso e empastado de ranço. E não tinha lábios finos e inquietos, como o actor.
 
Jesse James, tinha menos ombros que o actor e a barba era muito mais comprida e escura. Aliás, esta obra cinematográfica seria mais próxima da realidade se não tivessem contratado o Pito para o papel principal, que, como sabem, não deixa que ninguém lhe pinte a barba ou lhe dê uns acrescentos. E mais: Jesse James tinha umas ancas enormes, como se tivesse parido dois gémeos por cada assalto que fez ao longo da sua vida de aventuras. Mais ainda, enquanto que o Pito tem uma queixada de quem come carne crua deste os três anos de idade, o verdadeiro Jesse James tinha um queixo apertadinho e afunilado, o que lhe dava um ar um pouco pateta e razão pela qual começou a usar barba.
 
O que eu não sabia, mas fiquei a saber ao fim de quinze minutos de filme, é que a obra foi realizada pelo nosso querido e adorado Manoel de Oliveira, disfarçado sob o pseudónimo de “André”. Tarde demais, direi eu, senão teria ficado na prateleira do clube, em troca de uma porcaria menor com crocodilos a comerem pessoas num lago qualquer... pickwick
publicado por pickwick às 00:02
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Terça-feira, 1 de Julho de 2008
Aquele olhar…

Hoje houve uma reunião formal com uma secção dos funcionários da minha instituição, num total de catorze pessoas mais três membros do patronato, eu incluído. A minha presença nestas reuniões costuma culminar sempre da mesma maneira: o patrão vira-se para mim, antes de terminar, e pergunta – queres dizer alguma coisa? é que já falaste tanto… (estive de boca fechada o tempo todo e sempre de pé, feito teimoso)

 
Eu gosto de estar calado. Assim, evito dizer disparates, evito ser mal interpretado e consigo controlar a vontade secreta de pegar numa ou outra pessoa e partir-lhe o pescoço. Mas do que violento, sou cauteloso, portanto. Faço umas caretas, ora franzindo o sobrolho, ora apertando as beiças, ora fechando os olhos como quem tenta ver mais além.
 
A reunião até decorreu com normalidade, não fosse aquela aberração de gente - que é a dona F – lançar para ali a confusão, a propósito do horário de trabalho de verão e da sua assumpção de que é mais do que os outros porque é muito doentinha e ah e tal e o marido teve uma trombose e a filha perdeu uma perna. Acha ela, que é coxa, intrometida e diz “portantos” entre cada cinco palavras, que por ser doentinha e tal, que tem direito a um horário mais conveniente e diferente dos demais funcionários.
 
Argumentos para aqui, bocas para ali, porque os direitos têm de ser iguais para todos, os outros funcionários, com um ar de infinita (mas não inesgotável) paciência, lá iam ponto água na fervura. Eu, encostado à parede, estava com um ar de quem medita sobre a melhor forma de meter um ponto final na discussão: uma marretada na cabeça da dona F para esborrachar o crânio e comprimir as vértebras? uma ligação directa da língua da dona F à tomada da electricidade, tipo churrascada? ou encher a dona F de chapadas até não haver mais força nos braços e ela já ter as bochechas feitas em papas? Olhava-a a gesticular, a argumentar, a fazer-se de vítima, e lá ia meditando no assunto. Há dias em que apetece mesmo bater em certas pessoas! Com muita força!
 
Bom, a reunião lá terminou e ficou decidido que todos os funcionários poderão ter um reajustamento do horário semanal de verão, como lhes for mais conveniente, desde que cumpram com o número de horas mínimo e as tarefas sejam realizadas conforme necessário.
 
Passados uns largos minutos, estava este rapaz a assinar dezenas de cheques (na falta do patrão, que tinha ido para uma reunião), quando aparece a dona F para pedir batatinhas a uma das minhas colegas do patronato. Ah e tal, venho despedir-me de vocês – diz ela. Despedir? Ah e tal, estou muito cansada, não estou bem psicologicamente, não me sinto bem, blá blá blá e vou meter um atestado médico (tipo atestado ad eternum). Comecei novamente a meditar sobre a forma de a fazer desaparecer do planeta, procurando ideias mais rebuscadas e sádicas. Ah e tal, muita graxa ao patronato (nestas alturas um gajo de sandálias até consegue pentear-se a olhar para os pés), e vira-se para o je: eu até vi lá na reunião, no olhar do senhor doutor, que estava com pena de mim…
 
Hem? Como é que é? Eu estava com um olhar de quem estava com pena dela? Ui!...
 
Tenho que começar a cuidar melhor deste olhar que deito às pessoas. Para além de ser conveniente que os olhares lascivos para os decotes sejam discretos e imperceptíveis, torna-se necessário, para evitar falsas interpretações, que os olhares assassinos sejam mesmo tipo olhares assassinos. Isto de olhar para alguém que queremos matar e essa pessoa pensar que lhe queremos oferecer flores, ou desodorizante, não pode repetir-se! pickwick
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publicado por pickwick às 00:31
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