Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

15
Out07

As aventuras do paizinho - 1

pickwick
Depois de dois dias de confraternização com o meu paizinho, septuagenário de corpo, faço a viagem de regresso ao lar, doce lar. É por estas e por outras que continuo convicto de que a vida na província é que está a dar. Ou se calhar não tem nada que ver com o assunto e eu é que já não tenho mesmo paciência para a capital e os seus arredores.
 
1. Pedras Negras
Desde há muito que me lembro do particular gostinho que o meu paizinho tem por uma aguardente ao final do dia, mesmo antes de se deitar. Ainda eu ia no início da minha puberdade, quando comecei a ter sérios problemas de tosse e catarro psicológicos, curáveis apenas com uns golinhos da mítica garrafinha de aguardente caseira que repousava na banca da cozinha. Era fogo, especialmente para um puto daquela idade. Certo dia, ia a entrar sorrateiramente na cozinha e apanhei o meu paizinho de cu alçado a medir, com uma fita métrica, a altura do nível da aguardente na garrafa. Obviamente, tinha desconfiado do ritmo de abatimento do nível e suspeitava de mim. Tive que parar com o problema de tosse e catarro e esperar até obter alguma independência que me permitisse beber quantas garrafas me apetecessem. No caso presente do meu paizinho, apanhei uma garrafa de litro de aguardente “Pedras Negras” na mesa da cozinha. Nem sequer era na banca. Era ali, na mesa, mesmo à mão de semear. Na banca, contudo, repousavam duas garrafas de litro da mesma aguardente, completamente vazias! Ah, valente!
 
2. A coreana bonita…
… a mim, não me convém, eu não quero andar na rua, com uma gaja podre de boa. Esta é a minha adaptação moderna a mais uma tirada fantástica do meu paizinho, num momento de nostalgia. Contava ele, entre duas garfadas, uma peripécia passada no seu regresso a Portugal, no final da sua carreira profissional, uma viagem à volta do mundo que foi o concretizar de um sonho de infância. A viagem, sim, mas as peripécias já parecem mais sonhos de adolescentes com as hormonas aos saltos. Bom, num dos países por onde passou, a Coreia, encontrava-se a comer pacatamente na mesa de um restaurante, quando avistou, numa mesa próxima, uma mulher lindíssima, coreana, mesmo muito, muito, muito bonita. Quando acabou de comer, o meu paizinho dirigiu-se à mulher, bastante jovem, com o intuito de esclarecer se era uma mulher ou uma adolescente. Uma mera curiosidade científica, claro. Num inglês curto de vocabulário, lá se entendeu e esclareceu. Depois saiu com ela e passaram o dia juntos, mais uma amiga dela. Rapidamente veio a descobrir que se tratava de uma meretriz, linda de morrer, mas muito meretriz. Só se separou dela à entrada da rua onde iria prestar serviço. Veio esta estória a propósito do sentimento de incómodo que ele sentiu ao passear-se nas ruas naquela companhia, sendo que toda a gente parava na rua para a ver, de tal maneira era bonita. Bem, viam-na a ela, mas também à companhia, vindo daí o tal incómodo. Eu, pela parte que me toca, sei qual é o sentimento. Já o vivi na pele, embora não com uma meretriz. Foi em Portugal, onde há uma facilidade enorme em sair à rua com uma rapariga séria que se apresenta inocentemente com aspecto de meretriz.
 
3. As brasileiras e as chinesas
Última grande descoberta do meu paizinho: as brasileiras e as chinesas têm coisas em comum. Parece que tem que ver com o facto de não pronunciarem as consoantes no final das palavras. Eu acho que há mais qualquer coisa em comum, a avaliar pelo excessivo interesse que ele revela pelas moçoilas destas duas nações. As chinesas, porque sim. As brasileiras, porque são muito dadas e simpáticas por natureza, embora não se dêem mesmo, na plenitude do sentido. Enfim. E acho que também tem um fraquinho por venezuelanas, mas penso que foi uma coisa passageira.
 
4. Licor de amoras silvestres
Um vizinho ofereceu ao meu paizinho uma garrafinha de Compal com licor caseiro de amoras silvestres. Provei. Não é mau. Sabe a quase nada. Quase como a aguardente “Pedras Rubras”, que sabe a água mas deve continuar a ter os quarenta graus. Mais um licor para experimentar em casa. Um dia destes, meto-me à estrada em duas rodas e faço um assalto discreto a um matagal de silvas algures. A ver se, desta feita, me lembro que as amoras boas são as pretas e não as vermelhas. Não vá acontecer como um certo dia de Agosto, em 1988 ou 1989, quando, depois de atravessar a pé a Serra de Montemuro, esganado de fome e sede, afiambrei uns quilos de amoras silvestres, tão deliciosas, tão vermelhinhas, tão maduras, evitando as amoras pretas, obviamente ainda verdes e impróprias.
(continua) pickwick