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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

28
Abr12

Manteiga de amendoim

pickwick

Há pouco mais de dois anos que colaboro - como voluntário - num viveiro florestal, o qual está englobado num projecto de reflorestação de um terreno pouco pequeno, ali quase a chegar a Espanha, mas não tanto. É daquelas coisas em que um gajo se mete quando não consegue criar uma agência de modelos femininos ou montar um bordel de luxo ou arranjar namorada. Acontece.

 

Acontece, também, que um viveiro florestal desperta-nos para uma série de desafios inesperados. São as sementes que germinam de mais, as sementes que germinam de menos, a rega automática que entope, rega a mais, rega a menos, uma rabanada de vento mais pujante, um mangusto que assalta as instalações pela calada da noite, e… ratos!

 

Os ratos, são do catano! Começaram por venerar as centenas de bolotas de carvalho americano que foram semeadas em tabuleiros. Sobraram umas singelas covinhas vazias. Fizeram uma razia e instalaram-se de armas e bagagens algures onde lhes pareceu que tinham melhor vizinhança e não ficaria demasiado longe do supermercado para não ser preciso ir às compras de carro. Meteu-se rede metálica oito milímetros e encerrou-se o assunto (que estafadeira!). Mas, num viveiro, fechar a tasca das bolotas, é como fechar o restaurante chinês, mesmo ao lado do japonês, do mexicano, do italiano, e por aí fora. Os malandros podiam ter mudado para uma dieta sofisticada, baseada em saborosíssimos rebentos de ervas daninhas, tenrinhos e crocantes. Mas, não. Feitos brutos e de mau feitio, passaram a atacar sementes de prunus lusitanica, uma espécie autóctone que já raramente se encontra nas nossas matas. Não havendo rede para tantos tabuleiros de sementeira, inventou-se um esquema ao bom estilo Tarzan, pendurando-os com cordas que começaram a ceder após as primeiras regas.

 

Entretanto, procedeu-se a uma aprofundada investigação sobre armadilhas para ratos.

 

Ponderou-se, também, vedar todo o viveiro com rede e promovê-lo a resort tropical para um ou dois gatos – sem whiskas, nem sardinhas. Deliciosos ratos do campo, alimentados sem qualquer hormona, apenas à base de produtos naturais.

 

Da investigação, resultou um projecto de armadilha, recorrendo a um garrafão de água, peças móveis em arame, e manteiga de amendoim como isco. Adianto já que a armadilha não resultou, provavelmente porque o rato-do-campo português desconhece por completo a manteiga de amendoim, esse bedum do imperialismo americano, ao contrário dos ratos americanos que protagonizaram os inúmeros vídeos demonstrativos de armadilhas que abundam no Youtube. Valeu-nos umas pastilhas com veneno, e as coisas acalmaram por lá…

 

Mas, há muitos anos que não comia manteiga de amendoim. Desde… 1987. Entre 1984 e 1987, comia manteiga de amendoim como quem come caldo verde com rodelas de chouriça e um naco de broa. Não estava em Portugal, obviamente, porque, por cá, nessa altura, até a Coca-cola era “artigo de meio luxo”. Admira-me como não fiquei com diabetes, à custa disso. O mais habitual, era que a camada de manteiga de amendoim fosse de espessura superior à da fatia de pão. Um abuso, portanto. Desta vez, foi tudo mais comedido. Provámos a manteiga de amendoim ao pequeno-almoço, só por causa das cócegas, e o resto que sobrou das armadilhas ainda continua no frigorífico, à espera de passar o prazo de validade.

 

Pensando bem, acho que, pior que as fatias de pão barradas com manteiga de amendoim, eram as sandes de açúcar amarelo e canela com que a minha avozinha me presenteava ao lanche, quando ia passar algumas semanas a casa dela (ai, adolescência, onde já vais…). Ah e tal, é bom, come. Pois é, avozinha, e pumba, a boca toda empapada com açúcar e canela, os dentes acastanhados, uma nojeira completa. Depois, chegava o jantar, ah e tal, hoje o jantar é diferente, dizia a minha avozinha, e pumba, uma pratada de arroz doce a fazer as vezes da entrada, da sopa, do prato e da sobremesa, e um “não digas nada à tua mãe”. Já havia diabetes nessa altura? Ou é uma doença moderna que se propagou através dos macacos?

 

Bom, mesmo em minha casa, era um abuso. Recordo-me de, um belo dia, um dos meus vizinhos ter aparecido à hora do lanche e apanhado aqui o rapaz a preparar o leitinho numa caneca, segundo a receita habitual diária: um terço da caneca para o açúcar e o cacau, e dois terços para o leite. Qualquer coisa como uns quatro centímetros de depósito. O vizinho ficou escandalizado, eu fiquei com má fama nas redondezas, mas os grossos nacos de pão barrados em Tulicreme ficavam tão divinais quando mergulhados naquele néctar lácteo… pickwick

30
Jan11

Palito tangerina – parte 1

pickwick

Receita: descasque-se uma tangerina, deitando-se fora o sumo; coloque-se a casca a rebolar-se em açúcar no fundo de um tacho até a casca parar de gemer de prazer e começar a uivar desafinadamente; com a varinha-mágica (pode ser uma daquelas eléctricas, se não tiver daquelas como o Harry Potter), triture-se o conteúdo do tacho, até ficar uma pasta com ar asqueroso; polvilhe-se com canela em pó, sem cobrir por completo; retire-se a pasta e coloque-se numa tábua; com as mãos, role-se a pasta pela tábua até fazer um rolinho fininho; corte-se o rolinho fininho em pedaços com cerca de 7,82 cm de comprimento; com um canivete de cabo verde, afie-se as pontas de cada pedaço de pasta em forma de rolinho; disponha-se os pedaços afiados num prato; quando os convidados ou familiares aparecerem e perguntarem que raio de porcaria é aquela, responda educadamente: são palitos tangerina!, seus ignorantes! pickwick