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Quinta-feira, 9 de Setembro de 2004
No fio da navalha
Imagine-se! Uma navalha! Era só o que faltava na praça. Aberta, ainda por cima! É um perigo! Há navalhas que não cortam. Cheias de bocas, gastas pelo mau uso, abandonadas pela incúria de quem não lhes passa o fuzil de tempos a tempos. Outras cortam, medianamente. Algumas demais. A navalha tem um fio. O fio, diz-se, é que corta. Olha-se ao comprido, como quem observa uma obra de arte, como quem segue para o infinito uma linha que acaba já ali. É o fio. Estar no fio da navalha, não é nada agradável. Sentado, de pé, de cabeça, a fazer o pino, tanto faz. O efeito é o mesmo. Mais ou menos afiado, o fio da navalha vai fazendo aquilo para que foi feito: cortar. O tempo passa, mais ou menos depressa, conforme o fio. E, quando o tempo passa, a carne ressente-se, o fio enterra-se-lhe, cortando-a, pouco a pouco, dolorosamente. Eventualmente chegará ao osso e estagnará, numa dor constante, onde não se vislumbra o fim nem se recorda bem o princípio. Com esforço, retesam-se os músculos, o fio penetra mais lentamente, eventualmente a dor poderá ser menor, disfarçada pelo desgaste das forças. Tudo se torna intemporal, perdendo-se a noção que a dor não precisa de ser dor, que não precisamos de estar no fio da navalha. Sim, não é mesmo preciso. Às vezes esquecemo-nos disso. Já que lá estamos, deixemo-nos ficar. Até nos prometemos a nós mesmos que há-de acabar. A navalha há-de cansar-se. Ou saltaremos fora. Podemos planear, jurar, prometer, rezar, desejar, mas há algo de atractivo no fio da navalha, como que um íman, que nos deixa ali, especados, a vermo-nos a ser cortados. A sofrer. Para sempre. Mas… Saltar fora? Não se salta fora do fio da navalha. Ou melhor, salta, mas não é com quatro cantigas. É preciso mais. Muito mais. É preciso não escorregar no salto e cair novamente em cima do fio, com mais força, com mais violência, penetrando ainda mais. É preciso não descuidar o salto, não vá a manobra menos cuidada fazer-nos passar o pescoço pelo fio, apanhando de surpresa o sorriso de satisfação de quem já se julga a salvo, de pés firmes no chão. É preciso cair bem, pois a navalha pode estar lá no alto, muito no alto, e a queda ser grande, muito grande. Mesmo que a navalha não esteja lá no alto, sendo a queda de baixa altura, todo o cuidado é pouco. A confiança nunca é de menos. O seguro é o nosso melhor amigo. Há um tornozelo para torcer, um desequilíbrio para acontecer, um nariz para esmurrar, um braço para deslocar e muitos imprevistos sem prever. É um mar de incertezas com uma ilha no meio. Nesta ilha, a única certeza: continuando no fio da navalha, o fio continua a cortar, lenta e friamente. Mesmo que a queda seja boa, o jeito seja muito, a perícia afinada, há o onde aterrar. Firme. Um tapete que escorrega, uma areia que desliza, uma gordura que patina, tudo pode estar contra nós nesta fuga ao fio. Uma fuga pelo conforto, pelo alívio, pela felicidade. E ele, o fio, continua lá. O aço gelado, como que a rir-se de nós. Pergunto eu: um joelho esmurrado, um nariz partido, um tornozelo torcido, um golpe num braço, valem a pena? Uma perna partida, uma vértebra facturada, valem a pena? Um golpe profundo no pescoço, vale a pena? Voltar a cair sobre o fio, com mais força ainda, vale a pena? E se nos safarmos só uma arranhadela? Ficaremos alguma vez a rir-nos do fio da navalha, num longo suspiro de alívio? pickwick
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publicado por riverfl0w às 00:09
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Quarta-feira, 8 de Setembro de 2004
Inconsciências 5
Ok, agora já não é nos onze. Passemos aos treze. Para além de ter sido o ano em que ganhei a alcunha com que assino estes posts, foi também o ano em que dei comigo sentado na paragem do comboio da estação de Belém, lá para as 3h da madrugada. O dia tinha sido comprido. Pela hora do almoço lembro-me de andar mato fora cheio de boas intenções de chegar à nascente do rio Almonda, com uma mochila a tiracolo, ali para os lados de Torres Novas. Mais comboio, menos pé, e vice-versa, e aí estava eu na paragem do comboio. Fazia algum frio, na altura. Devia ser início de primavera. Ia vestido com roupa de ir à missa, imprópria para andar por ali àquelas horas. Já tinha tentado adormecer debaixo de arbustos em jardins públicos em Santos, mesmo em cima da terra húmida, mas não resultara muito bem. Queria apanhar o comboio para o Estoril, onde morava a Rita (sim, a mesma da alcunha), mas descobri que os comboios não funcionavam numa determinada faixa da madrugada. O próximo, só lá para as 5h ou 6h. Resignado, sentei-me no banco da estação, à espera. Eu devia pensar que era normal um puto de treze anos, vestido como se fosse para a missa, estar ali plantado naquele sítio, àquela hora. Pensava mesmo! Nisto, entre um pestanejar pesado e um desequilíbrio momentâneo, passa um “Citroen Diana” castanho. Nada de mais. Menos de um minuto depois, passa outro igualzinho no sentido contrário. Quase que parecia que era o primeiro, depois de dar meia volta, mas vindo mais lentamente. Mais meio minuto e… era o mesmo, mais lentamente… E novamente… até que parou. Mesmo atrás do banco onde eu estava. A janela abre-se e um tipo barbudo tipo Fidel pergunta-me para onde é que eu quero ir. Respondo educadamente que quero ir para o Estoril. E ele pergunta se eu quero boleia. E eu digo que sim, obrigado. Ok, isto nunca se faz, pois não? Nunca!!!... A minha mãezinha fartou-se de me avisar, para nunca apanhar boleia de estranhos. Só me lembrei disso depois do carro arrancar, comigo lá dentro. A conversa foi relativamente rápida. Ele pergunta se eu tenho namorada e eu respondo que sim (grande mentiroso). Ele pergunta a minha idade e eu respondo com mais um ano por cima, para não parecer muito mal. Ele pergunta se eu quero uns beijinhos e uns abraços e eu respondo-lhe que não, obrigado. Beijinhos e abraços? Ai ai ai, pensei eu. Temos festa, temos, temos… O barbudo lá deve ter topado que eu, apesar das respostas prontas, tinha feito clique cá dentro. E atalha logo com um discurso muito calmante, que eu não tivesse medo, que ele não era daqueles que fazia mal às crianças, e bla bla bla. E eu respondo logo que não, nada disso, não me passou nada disso pela cabeça e bla bla bla. Silêncio. Assim como quem se lembra que se esqueceu do totoloto, informo-o que afinal tenho família em Algés, ali mesmo ao lado, e pode deixar-me lá. Ele diz que não tenha pressa, vamos só dar uma voltinha até à Torre de Belém. À Torre de Belém? Ai ai ai… Isto já cheira a sopa estragada. Silêncio, até chegarmos ao parque de estacionamento em frente à torre. Outros carros, todos com ar extremamente suspeito, estavam já lá estacionados. Alguns com pessoas muito suspeitas lá dentro. O silêncio continua. Era óbvia a embrulhada em que estava metido. E das grandes. Havia que engendrar um plano rápido para me meter ao fresco. Faço um ar de fascínio pelo rio Tejo iluminado pelo luar. Pergunto-lhe se posso ir ver mais de perto. Ele pergunta se eu estou com medo de alguma coisa, que ele não é dos que fazem mal às crianças. Eu respondo que não, é mesmo só para ver o rio, que está tão bonito. Ele aceita. Uma mão no fecho da porta e outra na mochila, e lá vou eu até ao muro, dois metros à frente. Ele continua dentro do carro. O gajo se fosse esperto, tinha-me espetado um sopapo logo lá dentro. Mas não. Sorte a minha, está visto. Assim como quem continua fascinado pela paisagem, baloiço o corpo para um lado e para o outro, enquanto seguro com mais firmeza a alça da mochila. Respiro fundo e, num ápice, desapareço numa correria frenética. Em poucos metros desço uma escadaria que dá até quase ao leito do rio e dou de caras com um fulano, todo vestido de preto, que se assusta comigo e se cola à parede. O coração quase que pára, chiça! Mas que mau ambiente por ali. A pausa foi mesmo só de umas fracções de segundo. Embalo novamente e aí vai disto. Não era qualquer adulto que me conseguia deitar a mão naquele tempo. E, borradinho de medo como ia, tinha que ser um bom atleta. Só parei na linha do comboio, já em Algés. Estavam várias carruagens paradas e atirei-me para dentro de uma delas, sonhando com o sossego de um esconderijo. O sonho durou uns 4 segundos, só até ouvir uma porta a bater. Salto da carruagem para o meio da linha, a pele arrepiada até mais não, e lanço-me para o lado de lá, atravessando a marginal e calcando o primeiro passeio da terra. Ando mais uns 10 metros e vejo ao longe dois polícias. Era só o que me faltava! Eles topam-me, mas eu, cheio de esperteza, finjo que saio calmamente de trás de um carro, sacudindo as calças e apertando os atacadores. Afinal de contas, que coisa tão banal, um puto de treze anos, vestido para a missa, mochila a tiracolo, àquela hora, naquele lugar. Assim como quem vai à horta, dirijo-me para fora de vista dos polícias, topando pelo canto do olho que nenhum deles se lançou a correr atrás de mim. Assim que dobro uma esquina, zás!, nova corrida frenética, com aquela sensação de já ter ganho a maratona e ludibriado a força policial inteira lá da terra. Assim que dobro a próxima esquina, dou de caras com outro polícia, calmíssimo, como se estivesse ali mesmo à minha espera. Então que andas aqui a fazer, pergunta ele. Ando a passear, respondo eu. Resposta inteligente, não é? A cabeça desdobra-se em mais planos para dar o fora daquela cena, olho para trás e aproxima-se mais um polícia. Que é como quem diz, acabou-se! Despeja lá o que tens na mochila, ordena-me o polícia. Obedeço. Caem na calçada alguns objectos. A faca e os fósforos dão um bocado nas vistas. Vá, anda connosco, vamos ali à esquadra, diz-me ele. Um puto não tem bem consciência do que faz, nem em que se mete, pois não? pickwick
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publicado por riverfl0w às 00:06
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Sexta-feira, 3 de Setembro de 2004
Another tale
Era uma vez um chinês. O chinês tinha um filho e muitos cavalos. Esta estória foi o meu paizinho que me contou e não precisa de ser obrigatoriamente sobre um chinês, mas como o meu pai estava a viver na China, passou a meter um chinês. Chama-se a isto Contextualização Geográfica Forçada. Ou manias. Tanto faz. Adiante. Certo dia, o filho estava a montar um dos cavalos, assim a atirar para o bravio e irreverente, quando, no meio da agitação da contenda, o rapaz tomba ao chão e parte uma perna. Danado, o chinês (pai) quase que espanca o cavalo, por causa do acidente. Roga-lhe todas as pragas e mais algumas e pensa seriamente em mandar rifar o animal. Enquanto pensa e não pensa, o imperador manda recrutar para exército todos os moçoilos capazes, para encher a panela da carne para o canhão. Representantes do exército batem à porta do chinês, a esfregarem as mãos de contentes, mas voltam por onde vieram, de mãos a abanar, pois uma perna partida não dá para nada. O chinês, felicíssimo com a escapada do filho às fileiras bélicas, muda radicalmente de opinião em relação ao cavalo, enchendo-o de mimos e paparicos. Tanto encheu, que o cavalo certo dia meteu-se ao fresco, por entre uma cancela esquecida aberta. Lá se danou o chinês, que não tinha assim tantos cavalos que fizesse pouca diferença um a mais ou a menos. Para além das rituais pragas, jurou abatê-lo sem dó nem piedade, mal fosse encontrado. Tipo vingança do chinês. Enquanto era procurado e não era, o animal regressou por iniciativa própria aos estábulos, na companhia de umas boas duas dezenas de outros cavalos, certamente fugidos ou selvagens. Um belíssimo piparote nos números, para o chinês, vendo de repente a sua manada ser engrossada com belos exemplares. E lá se foram as pragas e as juras, voltando o bicho a ser alvo dos maiores mimos por parte do chinês. Fim da estória. Agora a moral. Não me lembro, sinceramente. Isto é embaraçoso… Mas qualquer coisinha se há-de arranjar. Ora bem, vamos lá a ver, isto deve ter qualquer coisa a ver com os altos e baixos da nossa vida, com a imprevisibilidade das consequências que se seguem aos acontecimentos que marcam o nosso dia-a-dia. O que pode ser mau num dia, no dia a seguir pode vir a ser fantástico. E vice-versa. A vida é mesmo feita de incertezas e o que há mais no mundo são cambalhotas. Dadas, e por dar. Se depois de uma cambalhota nos podemos erguer triunfantes para receber os aplausos olímpicos, com a mesma simplicidade podemos ficar estendidos no solo com a coluna estilhaçada e o futuro remetido para o assento de uma cadeirinha de rodas. E vale a pena dar a cambalhota? Claro que vale! Estatisticamente, o mais provável é mesmo fazermos má figura e mais nada. pickwick
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publicado por riverfl0w às 01:31
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The tobacco shop
Esta mania de dar títulos em inglês há-de acabar. Agora está na moda e por isso tenho de me sujeitar aos caprichos da minha imaginação, qual escravo. Bem, vamos à loja de tabaco. Antes, uma introdução. Há momentos da nossa vida em que, forçados ou por desejo, somos levados até uma situação em que temos de fazer opções de peso. A tomada de decisões sobre algo tão vago como um futuro cheio de nevoeiro, reserva-nos sentimentos de aflição e desassossego. Não nos conseguimos livrar das dúvidas, das incertezas e do receio de errarmos. Há que vencer também umas quantas barreiras, muitas delas impostas pela sociedade ou pelo contexto social em que vivemos mergulhados, fazendo disto tudo uma grande açorda. Ocorrem-me duas estórias que o meu pai me contou numa altura dessas na minha vida. A primeira, era sobre uma loja de tabaco. Era uma vez (tinha que começar assim, ok?) um sacristão, já de certa idade, que sempre fora sacristão. Face a uma lei lançada pelo Vaticano, que obrigava a que todo o sacristão soubesse ler e escrever, este nosso personagem, analfabeto, viu-se obrigado a optar. Ou aprendia a ler e escrever, ou abandonava a arte. Pesou as duas opções, bem pesadas. Se por um lado não estava muito voltado para ir para uma escola, por outro não sabia fazer mais nada na vida. Como na “moeda ao ar”, ficou-se pela segunda opção, abandonando definitivamente a arte, e planeando viver o resto dos dias com as economias que tinha feito ao longo dos anos. Certo dia, passeando por uma certa avenida, acabou-se-lhe o tabaco. O homem tinha o vício no corpo, claro. Mas a avenida não estava pelos ajustes e não havia sombra de tabacaria de uma ponta à outra. Tal falta trouxe-lhe à lembrança que quem ali montasse um quiosque para vender tabaco, decerto faria uns bons trocos. Pensado e feito! O nosso sacristão em breve transformou grande parte das suas economias num muito rentável quiosque de tabaco. Com o passar dos meses e o avolumar dos trocos, o novo empresário não esteve para se ficar por aí e montou mais um quiosque… e outro… e outro… nas várias ruas e avenidas onde ainda não existia um e o negócio se avistava rentável. Quando os trocos já davam lugar a contas rechonchudas, este senhor resolveu que era altura de voar mais alto e investir. Foi ao seu banco e pediu para ser recebido pelo gerente que, satisfeito, o atendeu na privacidade do seu gabinete, ou não fosse um dos melhores clientes. Explicado o motivo da visita, o gerente coloca nas mãos do ex-sacristão meia dúzia de papéis sobre investimentos, acções e planos de rentabilidade. De olhos em bico, o pobre homem faz um esforço para ultrapassar a vergonha e confessa que não sabe ler. O gerente achou piada ao facto e, após uma sonora gargalhada, perguntou-lhe: “bem, se não sabe ler e chegou onde chegou, então se soubesse ler, o que seria de si hoje?” A resposta pronta e humilde termina esta estória: “seria sacristão”. É fácil sacar daqui uma moral para a estória, mas isto não passa disso mesmo: uma estória. Na maior parte das vezes não sabemos se fizemos a melhor opção, até que se passem vários anos, ou décadas, ou até nunca. Mas a vida é feita de opções. Tomar uma opção de vida é como fazemos quando não nos sentimos confortáveis numa cadeira. Podemos mudar de cadeira, meter uma almofada, ajeitar o traseiro balofo, levantar e ir dar uma volta, saltar para o sofá, ficar de pé para o resto da vida, mudar de calças, enfim, tudo são opções para resolver o incómodo. Como sabemos a melhor? Só depois de experimentarmos. E mesmo assim, nada é certo. O certo é que precisávamos de fazer qualquer coisa. E fizemos. pickwick
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Sábado, 28 de Agosto de 2004
A minha missão é…
Não é. Quer-se dizer, eu não tenho. Ou até talvez tenha uma, assim obscura, do estilo de limpar da face da terra todas as taças de “natas do céu”, engolindo-as sofregamente, salvando assim o mundo de uma obesidade indesejada e pouco saudável. Yeah!... Soa-me bem… Mas não era sobre este tipo de missão que queria divagar. É a missão de missionário. É uma coisa que me fascina, devo dizer. Uma amiga minha vai partir numa missão destas, algures para um país africano, durante um ano. Vai deixar para trás (em modo “pause”) o emprego, a família, os amigos, a casa que ainda está a pagar em prestações, os espectáculos de teatro, os concertos e o conforto da sua vida citadina. Vai, inclusive, abdicar do seu ordenado, nada magro, doando-o à instituição que organiza estas missões. Apenas retira o necessário para pagar mensalmente o empréstimo do seu apartamento. Viverá um ano em África apenas com o indispensável. Dará de si tudo o que tem para dar, em termos de trabalho, de tempo, de afecto, de paciência, de disponibilidade e de sabedoria. Os destinatários são perfeitos desconhecidos para esta rapariga. Também não deve interessar serem desconhecidos ou não. Aliás, até deve tornar as coisas ainda mais aliciantes. Sim, porque, por mais estranho que pareça, nem tudo na vida é moldado ao ritmo das telenovelas, dos telemóveis, e da pretensa civilização, a qual não passa de uma monotonia estúpida e vazia. É preciso estômago, para partir. Ás vezes (não sei em que percentagem) está em causa uma fuga. Alega-se o espírito de missão, mas a verdade é que se foge de alguma coisa. Consciente ou inconscientemente. Mas só às vezes. Há ainda muita gente que abraça realmente esse espírito. Corajosos, eu acho. Muito corajosos. Num mundo em que ganhar o estatuto de efectivo numa profissão se torna um objectivo primordial, que garantirá a segurança do dia-a-dia, o pão na boca e todo o conforto, renunciar – ainda que por apenas um ano – a isto não é para todos. A eles, tiro o meu chapéu. pickwick
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Sexta-feira, 27 de Agosto de 2004
Abate selectivo
Temos gente a mais neste mundo. É uma realidade. Não é que tenha dor de cotovelo, note-se. Mas é um facto. Não se pode ir por aí diminuir os efectivos populacionais, como bem se percebe, embora pudéssemos ser selectivos e criteriosos. Ou seja, seleccionar-se-iam uns quantos. Selectivamente. Assim tipo as Selecções do Reader’s Digest. Eles também seleccionam. E para lançamento deste novo sistema de abate, proponho desde já um voluntário, voluntariamente seleccionado para o efeito. Não sei o nome dele, nem onde mora, nem o que faz, nem o número de telefone. Se for preciso dar-lhe caça, vai ser complicado achá-lo. No entanto, talvez a repetição do comportamento que a seguir descrevo possa ajudar a identificá-lo na praça pública. Ou na rua. Ora bem, passemos à descrição. Estou a falar de um fulano com aparência perfeitamente normal, calção normal, t-shirt normal, corte de cabelo assim mais ou menos, altura mediana – tipo normal nacional -, feições normais, estacado à beira da estrada. Numa mão tem uma toalha e na outra uma miúda de uns 4 anos. Provavelmente é a filha. Coitada. Ao lado, outra miúda, mais velha, aí nos seus 7 anos. Outra coitada. Elas não sabem que são coitadas. Adiante. Situação geográfica? Coisa simples: gradeamento de protecção na marginal da linha de Cascais (ou do Estoril, ou das tias), mais precisamente na curva da praia de Oeiras, do lado do gradeamento que dá para a marginal. Resumindo em cinco palavras: o papá e as filhas encostados ao gradeamento, elas quase a caírem para o meio da estrada, à espera de oportunidade para atravessarem para o outro lado. Ora bem, para quem não conhece a curva em questão, passo a informar que a dita só tem quatro faixas de rodagem e fica num vale, o que quer dizer que quem vem de um lado, vem a descer, e quem vem do outro lado, também vem a descer. Estamos no verão, o trânsito é o que se sabe, paletes de rodas a rolar, e o local escolhido é mesmo, mesmo, mesmo, mesmo, mesmo, a meio da curva. Ou seja, de visibilidade paupérrima. Do melhor para atravessar quatro faixas de rodagem com duas criancinhas. Dei de caras com esta cena quando ia a passar de carro, o que foi pena, porque se não fosse lançado, teria tido todo o prazer em ir direito ao fulano, sacudir-lhe a coitada da filha, pegar-lhe (no pai) por um tornozelo e volteá-lo no ar, terminando com um embate da carne esvoaçante contra o poste da iluminação. Seria o abate perfeito, com uma selectividade exemplar, o verdadeiro eliminar de lixo humano. pickwick
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Quinta-feira, 12 de Agosto de 2004
Crack!...
“Crack” faz o pescoço quando, num golpe seco e rápido, partimos o pescoço a alguém. A técnica é relativamente simples, e assenta no elemento surpresa para surtir o efeito desejado. Como qualquer técnica de defesa pessoal, conseguimos fazer maravilhas antes de o adversário se aperceber de que vamos actuar e ainda tem os músculos relaxados. O que façamos nessas fracções de segundo são suportadas unicamente pelas articulações dele, sem qualquer apoio da massa muscular. Uma hesitação nossa, um atraso na acção, podem ser suficientes para que o adversário tome consciência e o seu cérebro comande os músculos para se retesarem, num gesto de auto-protecção. Aí, o nosso golpe dará em nada, e ainda nos arriscamos a levar um enxerto de porrada. O que é muito chato, claro. A questão do pescoço é interessante. A mão esquerda empurra para a direita a base do pescoço. A mão direita, como uma mola, empurra secamente a cabeça para a esquerda. E faz “crack”! Ainda não experimentei isto num gesto real, só em simulações, mas posso anunciar que se aproxima o momento. Ou a possibilidade. Hoje estacionei o meu carro aqui na terrinha, no meio de muitos outros carros. Daqui a dois dias vou dá-lo à troca por um carro melhor. Há que o preservar até ao momento, para não desvalorizar. Quando chego para me vir embora, eis um bilhete no vidro, preso pela escova: “O carro preto que lhe bateu do lado direito tem a matrícula XX-XX-XXXX. Passar no posto da GNR.” Beeemmmmm… Dou a volta e, de facto, uma amolgadela maior que a cabeça de um boi, mesmo junto ao pisca. Já na GNR, onde foram muito prestáveis, vão tratar de dar caça ao mongo, um “emigra” qualquer, para meter a companhia de seguros dele ao barulho e financiarem o arranjo. É uma excelente altura para isto acontecer, a dois dias de despachar o carro. Lindo serviço! Quem o viu foi um elemento da GNR da zona de Lisboa, à paisana, que foi ter com o mongo autor da proeza e, vendo-o a pôr-se ao fresco, ainda lhe tentou deitar a mão, mas escapou-se numa pseudo fuga. Este agente deixou-me o bilhete no vidro e um relatório da ocorrência. Só me vem uma coisa à cabeça neste momento. Eu, o mongo e “crack”! CRACK!!!! pickwick
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Sábado, 7 de Agosto de 2004
O herói afinal é outro
Seja um livro, ou um filme, ou uma música, há quase sempre um herói que buscamos algures. O príncipe que salva a miúda presa no cimo da torre com um vestido foleiro uma carinha de morrer. O jovem que vence tudo e todos, conquistando o seu lugar ao sol, e ainda por cima traz de brinde uma moçoila toda bem composta. A personagem de uma canção que desperta sonhos, vontades e sentimentos abafados pela monotonia diária, enquanto o vocalista faz saltar artisticamente o micro de uma mão para a outra (não, não é o Marco). É isto que procuramos. O desespero de não sermos nós próprios heróis faz-nos buscá-los noutro lado qualquer, e o que está mesmo à mão são estes produtos da sociedade, que consumimos uns atrás dos outros. Muitas vezes sem peso nem medida, pois já não há pachorra para escolher. Tudo o que vem à rede é toucinho. O curioso, permitam-me o atrevimento, é que chego vezes sem conta à conclusão de que, afinal, o herói é outro. Talvez seja culpa da sociedade, que adultera tudo e todos em favor de sabe-se lá o quê. Não sei. Só sei que me incomoda, que me dá uma sensação de vazio olhar à volta e ver que o herói afinal é outro. Se se trata de um livro, o herói acabará por ser o seu autor, e não a personagem da história, por mais vidas que tenha salvo, por mais miúdas que tenha conquistado, por mais países que tenha conhecido. Fala-se, numa atitude exibicionista da própria cultura, no autor do livro. Personagens? Valores? Pfff… isso é completamente irrelevante! Se é um filme, o herói não é a personagem, mas sim o actor. Até porque, verdade seja dita, as pessoas já vão ao cinema em função dos actores e não da história em si. O argumento pode ser uma banhada total, os efeitos idem, mas se o actor é o fulano tal, vamos lá que é um bom filme. E na música a mesma coisa. Não se gosta da canção. Ao princípio até se pode gostar, mas, mais tarde ou mais cedo, o povo verga a mola ao cantor e a canção que se lixe. A canção, a tal que nos faz sonhar, pensar, sorrir, encantar, voar, perde lugar para o vocalista, a banda, o cabelo desgrenhado, as pulgas a saltar entre os pêlos do peito. É uma coisa impressionante, digo eu. Diz-se que se gosta de ler Saramago, de ver Spielberg e de ouvir Queen, assim com um ar tão culto, são sabedor, tão jet-set, tão superior, que ultrapassa em atropelo a simplicidade de se gostar de ler “Levantado do Chão”, ver “E.T.” ou ouvir “Bohemian Rhapsody”. A nossa sorte, a salvação da pátria, o último baluarte da verdadeira simplicidade da apreciação, está na Internet. Gosta-se de Internet, sim, mas aqui não há culto que nos valha. O herói, somos sempre nós. Nós navegamos, nós comunicamos, nós mandamos emails, nós vemos sites, nós falamos no Msn, nós fazemos downloads, nós arranjamos amigos, nós somos os maiores. Chegou a nossa era! Estamos safos! pickwick
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publicado por riverfl0w às 00:10
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Terça-feira, 3 de Agosto de 2004
Play safe
“Jogar pelo seguro” é uma expressão sobejamente conhecida. Não sei já onde nem quando a tomei como lema para operações sociais, mas é certo que às suas custas me tenho livrado de inúmeras situações escandalosas. Ou nem tanto. Mas é um bom lema. Sem dúvida. É assim como que viajar numa estrada completamente esburacada, sentadinho no conforto de uma poltrona aos comandos de um hovercraft. Não há buraco ou pedra que nos faça dar um solavanco. Por outro lado, porque tudo tem outro lado, a adopção fanática deste lema leva a que se nos escape por entre os dedos outras tantas oportunidades de alcançarmos algo. “Quem não arrisca, não petisca”, dizem, e é o contraponto precisamente do “jogar pelo seguro”. O ideal seria um meio termo, gerido sabiamente consoante os contextos e as variáveis em causa. Mas, meios termos é daquelas coisas que rareiam em todo o lado, pois, sendo nós exemplares do fabulástico bicho Homem, aplicamo-nos de corpo e alma no abuso dos extremos. Ou demasiado ao mar, ou demasiado à terra. Assim sendo, tombando eu mais para um dos lados, neste caso para o do jogo seguro, está na cara que tenho arquivado um reportório imenso de oportunidades perdidas, deitadas fora a favor da segurança de não errar. Isto parece um lamento, eu sei. Mas, a parte boa é quando descobrimos que jogar pelo seguro foi a melhor opção, quando limpamos o suor da testa naquele gesto de alívio por termos escapado a algum escândalo. Foi isso que senti ontem. Muito aliviado. O silêncio sempre foi bom companheiro e excelente conselheiro nos momentos de hesitação. O silêncio, a imobilidade e a inactividade. Há gestos que dão em catástrofes, há palavras que dão em tempestades. Ainda bem que me contive nos dois. Um gesto mais atrevido ou uma palavra mais íntima e estaria o caldo entornado. E bem entornado. Dizer o que sentimos, sermos sinceros, não escondermos o que pensamos, são coisas bonitas, mas nem sempre devemos ser assim. Há momentos em que só a nós estas coisas dizem respeito, e partilhá-las com quem queremos muito que as saibam, pois a elas dizem directamente respeito, pode ser completamente desastroso. Acabei de escapar a isso. E volto a dizer: que alívio! pickwick
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publicado por riverfl0w às 11:31
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Quarta-feira, 14 de Julho de 2004
A minha empregada
“A minha empregada” é uma empregada doméstica. Convém esclarecer desde já que eu não tenho uma empregada doméstica. Nem empregada, nem doméstica. Vivo sozinho, para paz e repouso dos meus neurónios. Não há necessidade de ter uma, a bem dizer. Gajo que é gajo, tem a casa numa desordem todos os dias, à excepção daqueles raros dias em que uma donzela arrisca a visita aos aposentos, coitada, e aí o gajo que é gajo toca a esconder as garrafas de cerveja e de vinho vazias acumuladas pelas farras dos últimos meses, bem como guardar a mangueira que usa para lavar a loiça no meio do chão da cozinha (para aproveitar e lavar o chão). Este post diz respeito, esclareça-se, às gajas, também conhecidas por mulheres, que têm uma empregada para fazer o serviço doméstico. E é sobre este fenómeno que pretendo divagar. Começo por mostrar a minha compreensão para com as ditas cuja vida profissional é intensa e que, a somar a isto, têm ainda a seu cargo uma casa onde também vivem uns filhos que só sujam e desarrumam, e um marido que é menos porco que os filhos mas que, ainda assim, não dá uma mãozinha nas lides. Como ser humano que é, esta mulher tem direito a uma pausa no final do dia, no final da semana, e a única maneira de gozar desse direito é contratar alguém que lhe alivie a carga de trabalho doméstico. Têm toda a minha compreensão e apoio. São muitos pratos para lavar, um chão sempre a ficar sujo, pilhas de roupas para maquinar e passar a ferro, coisas e mais coisas para arrumar, etc. O mesmo não se passa com as mulheres que não têm filhos, que não têm marido, vivendo sozinhas, portanto, e que publicitam a vida difícil que não têm mas que querem fazer crer que têm. É a básica justificação para contratarem uma empregada doméstica. E isto, eu não compreendo. Falo mais concretamente de mulheres cujo horário de trabalho até é muito suave, não perdem 2 horas em cada viagem para o emprego, e que tinham perfeitamente tempo para ter sempre tudo em ordem. Mas não. Queixam-se, a vida é muito difícil, e ainda por cima até têm uma máquina de lavar loiça! Como é que alguém pode ter uma máquina de lavar loiça, vivendo sozinho? Isto, na minha terra, e perdoem-me as visadas neste post, chama-se preguiça. Só pode! Falo de pessoas que, para além do seu trabalho, não têm rigorosamente mais nenhuma actividade extra-profissional, como seja participar numa associação qualquer ou algo parecido, que envolva disponibilizar boa parte do seu tempo de descanso em prol dessa associação. Só me vem à cabeça a palavra preguiça, mesmo. Não queria enveredar pelo termo “pobreza de espírito” que esta situação me traz ao pensamento, mas confesso que termino este pensamento com precisamente esse termo. Pobreza de espírito. pickwick
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publicado por riverfl0w às 08:33
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