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Quinta-feira, 11 de Agosto de 2005
Mais um tique nas ondas do mar
Cheguei à brilhante conclusão de que é mesmo um tique. Recente, ainda por cima. Chama-se “entendes” e usa-se no fim de meia dúzia de afirmações, fechando com um ponto de interrogação. Ao princípio, ainda pensei que fosse mania da primeira pessoa a quem ouvi usar a expressão. Mas em pouco tempo - só o tempo de falar com mais alguns seres humanos lusófonos - descobri que devia ser mais uma praga. Um daqueles tiques que estão na moda. Que vão na onda. Há uns largos meses atrás, até dei por mim a divagar sobre outro tique que andava nas bocas no povo: “ou não”. Muito eu gozei sobre o assunto. Depois, cansado de gozar, comecei a ser assaltado por aquela força do além, aquele rissol de camarão disfarçado de contra-vontade, que me compelia a terminar todas as frases com “ou não”. As primeiras duzentas vezes ainda consegui conter-me, ou, nos casos piores, escapava-se-me apenas um “ou talvez”. Travei combates ferozes contra esta força. Cá dentro, neste emaranhado de teias de aranha e neurónios defeituosos, via-me a agarrar a cabeça com as mãos, num gesto tresloucado, arremessando o crânio contra a parede, rangendo entre dentes: “não dirás, não dirás”… Enfim, perdi a batalha, como todos os que são fracos de espírito. O “ou não” passou a ser usado tão frequentemente que qualquer conversa comigo tornava-se enjoativa ao fim de dez frases. Até eu ficava enjoado! E agora, faz sombra negra a perspectiva de vir, eventualmente, futuramente, a sucumbir a essa nova força obscura, a essa tentação de passar a terminar todas as frases com “entendes?”. Sobra-me, para já, a esperança de que a falta de sal e paprika que está patente nesta expressão, me convençam de que não tem jeito nenhum. Já o “ou não” tinha muitos condimentos e adaptava-se que nem uma maravilha a qualquer frase. Eu podia, por exemplo, dizer que “ah e tal hoje está um sol de rachar e as miúdas andam todas de top e saias curtas”, e terminar com um “ou não”, que dava logo muita graça, pois toda a gente percebia que eu queria dizer que podia estar um sol de estalar e as miúdas andarem todas de saias curtas e top… Uma inundação de graça, sem dúvida. Mas, aflige-me a quantidade de gente que, à minha volta, usa e abusa da nova expressão, do novo tique. Aflige-me porque, e a história e a matemática servem para o confirmar, a probabilidade de eu vir a usá-la também, é bem maior que a de vir a atropelar uma zebra. Não consigo esconder a curiosidade reles de saber onde teve origem este tique. Deve ter começado em qualquer lado. O mais certo, se estamos em Portugal, é que tenha começado na televisão, num qualquer anúncio ou numa qualquer telenovela. Na rádio não deve ser, que o povo não ouve rádio. Nos jornais e revistas, também não, que o povo não lê -compra, mas não lê. Mas deve estar a propagar-se a uma velocidade louca, porque, até pessoas que tenho ideia que vêem pouca televisão (entenda-se como menos de 2 horas por dia), já usam e abusam do tique. E, como será no futuro? Portanto, em 2004 foi o tique do “ou não”. Em 2005 é o tique do “entendes?”. E em 2006, o que será? Era bonito relançar um tique que inventei no final da década de 80: “okay, carrega no play”. Lindo, não é? Terminava praticamente todos os parágrafos (para não abusar muito da paciência do pessoal, e também porque o tique era comprido e cansativo) com um “okay, carrega no play”. Por ainda não dominar as modernas técnicas de marketing, a expressão não teve uma carreira promissora e acabou mergulhada no caldo do esquecimento e do excesso de uso. Fosse hoje, fosse papagueada frente a uma câmara de televisão, de preferência por um troglodita sorridente de boca sempre aberta, e era um sucesso garantido. Ou não. Entendes? pickwick
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publicado por riverfl0w às 14:53
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Quinta-feira, 23 de Dezembro de 2004
A falange da Peta
Estava eu aqui num marasmo intelectual, quando me chega um comentário ao último post, “Bang! Bang!”. Até pulei da cadeira! Começa o dito com “Isso da dignidade dos animais é muito engraçado (…)” e acaba com “(…) ser vegetariano nem é assim tão difícil”, depois das devidas correcções ortográficas e gramaticais, obviamente. A assinatura do comentário é brutal: www.peta.org. Não resisti e fui espreitar. Adorei! Adorei, porque esta temática dá-me a volta às tripas. O curioso, é que não é pelas cenas chocantes de animais enjaulados e torturados, mas sim pela atitude do ser humano. E não é pela atitude do ser humano que tortura, espanca, caça e esfola os pobres animais, mas sim pela atitude dos defensores dos direitos dos animais. Esses é que me chocam… O culminar de uma linha de pensamento típica desta gente é o vegetarianismo. Renunciar a comer carne. Francamente! Vá, mais bife sobra p’ra gente. Não é que tenha alguma coisa contra o vegetarianismo. Até passo semanas sem comer carne, é verdade, mas não é por defender os direitos dos animais, com certeza. Há um pequenino pormenor no meio disto tudo, que se tende a esquecer: o ser humano, por vontade própria, esfrangalhava o seu semelhante, todos os dias, se o deixassem. É algo que está em nós, esta vontade de violentar, agredir, matar, torturar, esfaquear o ser humano ao nosso lado. O que nos impede? As regras. As leis da sociedade em que vivemos. Onde as regras e as leis são levadas minimamente a sério, poucos são os que querem fazer fora do penico. Aliás, querer, até querem quase todos, mas não se vão meter nisso, vão vá depois aparecer o senhor guarda e levar-nos a contas com um tribunal qualquer. Mas, onde estas leis não existem, ou onde é como se não existissem, é aquilo que vemos nos telejornais, banhos de sangue, carnificinas, genocídios, torturas, bla bla bla… E só não esfaqueamos o vizinho, porque as consequências não são nada aprazíveis. Porque senão, esfaqueávamos mesmo. Há que não esquecer que, no reino animal, somos a espécie que mais se pode envergonhar dos seus actos entre semelhantes. É claro que, esta facilidade que temos em maltratar o vizinho, é facilmente alargada aos restantes membros do reino animal. Ou seja, eu até tenho à vontade para partir o pescoço ao vizinho quando ele mete a aparelhagem com música do Emanuel em altos berros, mas não vou lá abaixo bater-lhe à porta e torcer-lhe a espinha. Claro. Mas, tanto à vontade, também me permite canalizar esta arte para os animais. Muitos há que, para aliviar a impotência de resolver as questões com os vizinhos, aproveitam um cachorro abandonado que passe por perto. Há dois anos, conheci um miúdo assim. Por vontade dele, agarrava na caçadeira do pai e enchia de chumbos a vizinhança. Mas não convinha. O cão que andava lá pela quinta é que pagava as favas. Tiros de pressão de ar nos olhos, facadas, atirado de ribanceiras abaixo, apedrejado, enfim, uma festa, para gáudio do miúdo, que via assim resolvido o problema da raiva condicionada. A questão é que, quando falamos dos direitos dos animais, estamos a falar também de seres humanos. De seres humanos que não hesitam em maltratar-se uns aos outros. E, quando se fala em direitos dos animais, e é aqui que as tripas se me embrulham, pois confunde-se a natureza com os seus próprios limites. Na natureza, como se sabe, há o predador e a presa. Uma raposa que caça um coelho. Um lobo que abate uma cria de veado. Um urso que abocanha um salmão. E nós, que fazemos saltar para o prato uns belos bifes de javali. Não vamos querer apanhar a raposa, o lobo e o urso e espetar-lhes com os direitos dos animais no focinho, exigindo-lhes que passem a comer ervas daninhas, pois não? Então porque é que havemos de ser vegetarianos? Não sei se me estou a explicar bem… A questão aqui, é que, esta história dos direitos dos animais, leva a estes extremos de posicionamento social e alimentar, que, inconscientemente, ajudam a ridicularizar o próprio movimento que os defende. Não é que não se deva ser vegetariano. Mas, associar a defesa dos direitos dos animais ao vegetarianismo, é um erro crasso, em prejuízo da ideia base dessa defesa. É fazer o movimento de defesa dos animais perder crédito na sociedade. Porque, quem pode fazer alguma coisa, quem tem poder para isso, não vai deixar de comer bifes, e, por conseguinte, não vai levar a sério alguém que faz do vegetarianismo a solução para a defesa dos animais. A defesa, respeitável e merecedora de todo o apoio e crédito, passa mesmo é por evitar que os animais sejam mal tratados, torturados, trucidados vivos, enjaulados em condições miseráveis, etc. Digo eu. Há que viver e respeitar a natureza, dentro dos limites de quem a criou. pickwick
publicado por riverfl0w às 09:15
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Sexta-feira, 17 de Dezembro de 2004
Tempo para pensar
Ora bem, contas feitas, acho que já passaram uns dois meses desde o último disparate digitado por dedos besuntados de gordura – a tal que é formosura. Ficaria bem assinalar esta distância temporal como a medida do pensamento, articulada entre o sono e o despertar, mas a realidade é bem diferente. Tão diferente, que nem dei por ela chegar. Ela, a realidade, claro está. Eis-nos, então, chegados de um salto ao mês D. Houve o dia D, de desodorizante, designação atribuída ao célebre desembarque bélico em virtude do pivete proveniente dos sovacos e virilhas a solicitar lavagens mais atentas. E agora temos o mês D. Eu não curto o mês D. O mês D não é de desodorizante, porque nesta época só vai suar quem estiver nos trópicos ou num elegantíssimo ginásio. Eu diria que é D de… de… vejamos… ocorrem-me pensamentos atravessados e palavras ao vento… D de… diarreia, Deolinda, desespero, deixa-me em paz, dormir… Eu sei, não condiz com a alegria e o esbanjamento incompreensível de lâmpadas, energia eléctrica e euros. É um mês que me deixa incalculavelmente atrofiado dos limites sociais, a transbordar de uma vontade mórbida de pegar no pé do primeiro tipo de vermelho e branco que me aparecer pela frente a fazer “hohoho” e espancá-lo violentamente contra a parede mais próxima. Não sei explicar. Como diria o povo, tudo o que é demais, enjoa. No entanto, é também tempo para pensar em certas e determinadas coisas. Para além do esbanjamento supracitado (aprendi esta palavra há uns anos… fica linda, não fica?), há uma série de situações que se propiciam nesta quadra. Já agora, diz-se quadra, porquê? Isto é alguma canção? Ou é a mulher do quadro que vem passar a roupa a ferro? É aquela cena da família reunida à volta da lareira, o devorar carnívoro de duas postas de bacalhau salgadíssimo, o tipo vestido de vermelho a tentar enganar as criancinhas, a troca compulsiva de prendas e prendinhas, e o discurso fácil sobre a pretensa solidariedade que puxamos a nós quando dá jeito. Dá-me vontade de dizer que nada disto faz sentido. Mas é melhor não o dizer. Há que refrear os impulsos e reflectir sobre o tudo e o nada, aceitar o branco como o branco, e o laranja como o laranja. Principalmente, aceitar. Porque, no meio de tanta aberração consumista, de tanta festa superficial, de tantas sms banais e impessoais que me vão dar cabo do telemóvel na próxima semana, de tantos desejos de boas festas e outras coisas que tais atirados como cuspidelas para o chão, o que nos falta mesmo é aceitar. Dar uma prendinha, dizer boas festas, mandar um e-mail, enviar uma sms, sorrir, é sinal de banalidade. Digo eu. Cada um torna-se secretário de si mesmo, dedicando horas à panóplia de malabarismos habituais neste mês. Somos amigos, solidários e malabaristas. Mas continuamos, nesta hipocrisia tão própria do ser humano, a fazer de conta que respeitamos e aceitamos os outros. Os outros e os seus apêndices. pickwick
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publicado por riverfl0w às 23:10
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Terça-feira, 12 de Outubro de 2004
E tu? Estás feliz?
Alguém deixou esta pergunta à porta de um post. Confesso que me engasguei por uns momentos, quando a li. Um gajo ali a discursar sobre a felicidade e outras baboseiras da vida, armado em sabichão, e depois… pimba! Apanha com uma destas e fica sem saber o que dizer. Porque, cá no fundo, não é assim tão fácil dizer “sim”. Superficialmente, é fácil, é como se responde quando nos perguntam se queremos dar uma trinca num pastel de nata. Ser-se feliz, não é para todos. É, para começar, um conceito demasiado simplório para o emaranhado de variáveis que condicionam as nossas vidas e as nossas relações. Ser-se feliz, é equacionar mil e uma dessas variáveis e chegar ao final com um saldo a chegar ao cimo da escala, porventura só com algumas lacunas insignificantes tipo Mercedes Coupé, veleiro de três mastros, ilha privada no Pacífico, etc. Ser-se feliz é querer ser-se assim. Não vamos a passar à beira da estrada e de repente cai-nos a felicidade nos braços, toda risonha, a dizer “cheguei!” e a abanar a cauda. É daquelas coisas que para ter, temos que querer primeiro. E querer com muita, muita, muita força. O ser humano, por mais incrível que pareça, está aparentemente destinado a ser feliz aqui em baixo, na Terra. Como diria alguém, “andamos cá é para sermos felizes”. Virando a medalha, temos o facto de o ser humano tender, irremediavelmente, para o desastre, a destruição, a violência e a consequente infelicidade. É mais forte que nós, convenhamos. A única coisa que nos separa – pelo menos a alguns – é o facto de vivermos em sociedade, com regras, leis e contextos que nos condicionam a liberdade de explosão. Muitos de nós, uma vez atrás da outra, deitam para trás das costas todas as oportunidades e mais algumas de alcançarem um pedacinho de felicidade, ainda que minúsculo. O ser humano corre. Fá-lo todos os dias, de manhã à noite. Se não o faz fisicamente, o seu cérebro encarrega-se de o fazer, sozinho, neurónio ao lado de neurónio, num lindo gesto de solidariedade. Mas, ser feliz, é conseguir parar. Parar no tempo, na correria, estagnar os miolos e contabilizar o que queremos alcançar na vida e o que já alcançámos até agora. Mais difícil ainda, mostrarmos a nós próprios que mandamos no “que queremos”, e que não é o “que queremos” que manda em nós. Somos nós a dizer e a mandar: é isto que queremos para sermos felizes! Metas. Fasquias. Atingíveis, acima de tudo. De preferência, a breve prazo. Que a felicidade, tal como as princesas, não se deve fazer esperar. Quanto a mim, não sei bem. Há uma série de pequenas grandes coisas que não consigo equacionar devidamente para poder estabelecer uma meta, pois parece que flutuam. A esmagadora maioria das metas que estabeleci estão atingidas. São metas pequeninas, que de pequeninas e simples coisas se faz a nossa riqueza interior, que só a nós diz respeito. As que não estão, hão-de estar, mais minuto menos ano, mais mês menos década, sem pressa e sem estresse. Em resumo, estou no caminho para lá chegar. À felicidade. Espanto quaisquer dúvidas que me possam assaltar, a meio deste caminho, pois sou dono e senhor dos meus pés, que me levarão aonde os mandar. pickwick
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publicado por riverfl0w às 21:57
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Terça-feira, 5 de Outubro de 2004
CDs
“CD. Compact Disc. Identifica genericamente os discos ópticos.” Está bem. Isto é o que diz num glossário que encontrei na Internet. Nada de novo, até porque CDs são CDs e já toda a gente sabe o que são e para o que servem. Quando derretidos com um isqueiro dão formas artísticas muito originais. Voam, se não precisarmos mais deles e estivermos chateados com alguém. Enfim, é o que se chamam objectos multiusos. Mas, este título reverte para algo mais animalesco do que um prato sintético. Ontem cruzei-me com uma frase que me deixou meio pendurado de uma teia de aranha, algures lá bem no alto. Dizia assim: “… pensava que o meu coração já estava muito duro para amar…” Coração duro. CD. Eu sei, não bato certo, com estas associações de siglas. Não faz mal. Fiquei a pensar para comigo como é esta coisa de um coração muito duro para amar. Uma renúncia, voluntária ou involuntária, àquilo para que o coração foi mesmo desenhado e construído: amor! Dar e receber. Como é que se chega a tal ponto? A vida traz-nos dissabores, amarguras e muitas frustrações, mas é também fonte de alegria, júbilo e muitos sorrisos. Creio que isto passa mais pelo voluntário do que pelo involuntário. O que não faltam são pessoas que passam por tormentos atrás de tormentos, amargam cada minuto que passa, e mantêm o coração sempre disponível para dar o amor. Eternamente fofos, esses corações. Como uma “Bola de Berlim” acabadinha de sair do forno. No entanto, muitas outras pessoas optam por congelar o forno. Não há cá bolos acabados de sair do forno para ninguém. É dureza e mais nada. Nunca se sabe bem se é uma opção estratégica para não levarmos mais daquelas facadas da vida, se é por vermos o nosso mundo confinado a um carreiro sinuoso numa montanha agreste, mesmo à nossa frente. Algo nos faz sentir o coração duro. Incapaz de amar. Muito lá no fundo, desejamos ser capazes de o fazer, com muita intensidade, com muita luz, e por muito tempo, mas, ou já consideramos isso um sonho inatingível, ou simplesmente recusamos enveredar por esse trilho. É uma sensação muito estranha. Uma espécie de conforto mórbido, como que estendidos num caixão, em pleno cemitério dos sentimentos, num marasmo, numa paz desassossegada. Até ao dia em que o destino nos prega uma partidinha e, quando damos por isso, zás! Somos apanhados de surpresa por um sentimento que já quase nos custa a reconhecer, tão distante fica a prateleira para onde o atirámos no passado. Cambaleamos com o peso e ainda levamos algum tempo até conseguirmos reunir as tropas lógicas para pedirmos contas ao coração sobre o que se passa. Encostamo-lo à parede com uma espada de cera e perguntamos: “Então, pá? ‘Tás parvo, ou quê? ‘Tá a dar-te alguma coisa ruim?” E ele responde timidamente “Simmmm…”. Ligeiramente irritados com a resposta, pressionamo-lo ainda mais com a espada. Esta, começa a derreter-se. Se fossemos espertos, usávamos uma espada a sério, mas não, com o coração, fala-se sempre com uma espada de cera. É uma regra! Sem excepção! Esbugalhamos os olhos perante a cena, a cera a derreter-se toda, o coração a rir-se p’ra gente. Fulos, perguntamos “Então, mas q’esta m…., pá???!!”. A resposta vem crua e fulminante: “Cala-te, oh mongo, monte de esterco mal disposto! Não vês que estou a amar?”. (Nota do autor: o coração fala assim, mas é só fachada; ele gosta da gente, mas às vezes tem de dizer assim estas coisas ordinárias, para ser mais convincente e ser levado a sério…) pickwick
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publicado por riverfl0w às 11:13
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Terça-feira, 28 de Setembro de 2004
A.F.L.P.
Isto, para quem não identifique logo à primeira vista, é o nome de uma associação. Não posso revelar o nome, porque é secreta. Não é bem tipo seita, mas fica a meio caminho entre um “mutante” e a torre de um castelo na Floresta Negra. Portanto, “A” é de associação. Esquisita. Muito esquisita. Não está registada, ainda. O “P”, para quem tem olho para a coisa, é de Portugal, esta bela horta empurrada para as areias do mar onde se cultiva a estupidez a par com o intelecto. Os fundadores, e únicos sócios, puxam até si esse direito moderno de se associarem. Não é só um direito, como é também um “must” das civilizações que se prezam. Ou que têm a mania que o são, porque no fundo vai dar ao mesmo. Se há associações muito louváveis, respeitáveis e outras coisas acabadas em “áveis”, também as há, que nem pragas, de origem duvidosa, motivação suspeita e funcionamento ensombrado. Não resisti a ir à Internet procurar algo que não fosse chocante nem dramático. Encontrei quatro muito simples e nada polémicas: “Associação dos Investidores Analistas Técnicos do Mercado de Capitais” (parece um grito de um karateca antes do golpe final… AIA… TMC!...), “Associação das Vítimas de Erros Médicos” (pronto, lá está), “Associação das Famílias para Unificação e Paz Mundial” (é tão linda a paz mundial) e a “Associação dos Pintores com a Boca e os Pés” (esta merece existir). As associações associam-se, também, em associações de associações, como não podia deixar de ser, tal como a “Associação das Associações de Moradores do Monte Cristo” (imagine-se… o presidente, é presidente de vários presidentes… que luxo! Deve usar várias gravatas ao mesmo tempo). Não sei bem para quê, mas é um direito que lhes assiste. Nós, seres humanos, temos uma necessidade gigantesca de nos associarmos. Somos sociais, portanto. Por outro lado, satisfazemos outra grande necessidade do ser humano, quiçá das mais importantes, que é mandarmos. Nós gostamos mesmo é de mandar nos outros. Por isso fazemos uma associação. Assim nós somos o presidente e mandamos nos sócios. Se pusermos uma gravata ainda mandamos mais, mesmo que seja feia e às bolinhas amarelas. E, assim, somos convidados especiais do Presidente da Junta para as Festas em Honra da Nossa Senhora do Assobio. Bestial! Mas há quem não queira mandar em ninguém. Há quem queira associar-se só pelo prazer da associação. Associação de ideias, associação de interesses comuns, associação do prazer de estarmos juntos, associação para fazermos coisas juntos. O presidente somos nós. Redigimos as actas com palavras sussurradas ao ouvido e assinamo-las com um beijo muito molhado. Somos tesoureiros dos nossos próprios tesouros, que são um para o outro, como o ouro para o cofre. Os vogais batem palmas pelas actividades, congratulam-se com a maneira como tudo corre e não hesitam em festejar. Organizamos arraiais em cima de umas mantas no meio do chão, pela noite dentro e até bem depois do sol raiar, na intimidade de uma caixa fechada. Piqueniques é connosco e já é tradição a romaria de farnel debaixo do braço até onde os pés nos levam, algures debaixo de uma sombra – um verdadeiro sucesso associativo! Fazemos planos para voos mais altos, passeios até bem mais longe, muitos mais piqueniques, e, secretamente, ansiamos pela perpetuidade disto tudo, de preferência acompanhada de um crescimento e fortalecer da associação, como tal. Cada vez mais unidos, como os mosqueteiros. Quando calha, fazemos um bailarico, onde se dança ao som do silêncio, nos braços um do outro, num abraço que tenta matar a saudade que há-de vir e abafar o aproximar da despedida. Mais vezes do que podemos querer admitir, sentamo-nos pacatamente a pensar para nós próprios como nos dá prazer sermos sócios desta associação. Sócios, presidentes, tesoureiros, secretários e vogais. De vez em quando, contratamos os senhores do cinema ambulante para virem passar um filme, aqui ou acolá, onde der mais jeito, tanto faz, desde que assistam os dois sócios, mão na mão, na paz reconfortante de uma sala escura. Elegemos uma Comissão Fiscalizadora para se bater pelo fiel cumprimento dos estatutos desta associação, constituída pelos sócios que mais vontade têm de os ver cumpridos: os mesmos que são o presidente, o secretário, o tesoureiro e os vogais. Mais palavras, para quê? Aqui, esta noite, fala-se de amor. pickwick
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publicado por riverfl0w às 23:49
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Domingo, 26 de Setembro de 2004
As gajas do meu tempo 2
Este segundo tomo tem o subtítulo “Explicadas a quem não percebeu, e a mim também”. O “paleio inteligente e sugestivo” era de facto um paleio divertido. Um rapazola dos seus 20 anos galanteava uma moçoila um pouco mas velha que ele, já muito mulher e senhora do seu nariz, algures num canal de chat. Ela, que é conhecida pela sua simpatia, não estava muito pelos ajustes com o discurso. A bem dizer, ela até o conhecia e sabia bem a linda prenda que ali estava. Independentemente disso, o rapaz desfazia-se em rasgados elogios e palavras muito românticas. Mandava-lhe rosas. Dizia coisas bonitas. Obviamente ele estava na brincadeira. Eu sei que ele até queria que não fosse na brincadeira, mas há que encarar a realidade de frente, e essa não perdoa. Perante o desdém da moçoila, corri em socorro do rapaz, com o argumento vistoso de que “no meu tempo as gajas não eram assim”. Eu também disse isso na brincadeira. Confesso que não tenho bem a noção se eram ou não eram, ou se as de hoje são ou não são, e isso pouco importa, para ser franco. Mas, entrar em comparações entre o passado e o presente, é sempre meio caminho andado para se dizerem muitas asneiras. Em resumo, dizer que dantes as miúdas gostavam de ouvir palavras bonitas e receber flores, e que as de hoje não, e até acham ridículo se um rapaz vai por esse caminho. Será? Não sei. A questão é que, quando enveredamos pelo caminho da comparação fácil com um passado que vive na nossa imaginação, é provável que estejamos apenas a comparar presenças e ausências. Ou seja, trocado por miúdos (a pedido de alguém), ou temos, ou não temos. Ou temos uma mulher a quem podemos dizer coisas bonitas com cheirinho a romance, ou não temos. E se não temos, é fácil identificar o problema: as gajas dantes não eram assim! Quanto temos, bom, o resto do post também era sobre isso. Ser-se ou tentar ser-se romântico. Até parece que se é intencional. E é-o, de facto. Não se é romântico ficando de papo para o ar a ler o jornal ou de olhos colados na TV. A própria noção de romântico deve ser deixada apenas para ela, que melhor poderá avaliar. Embora romântico e apaixonado sejam uma parelha inseparável. No entanto, quando queremos dar algo, daquele tipo de coisas que não se metem numa caixa, recorremos a uma série de estratégias e malabarismos. Intencionalmente. Sempre intencionalmente. É curioso que, quando falamos em intencional, acende-se sempre o holofote da desconfiança, tornando as intenções sempre de foro maligno. A nossa sociedade ensina-nos a ser assim, desconfiados, pouco crentes e a colocar um gigantesco sinal negativo na palavra “intenção”. A realidade é que, por mais que digamos que não, tudo o que fazemos é com intenção. Senão, seríamos todos uma cambada de asnos atados uns aos outros pela corda da estupidez. Não dizemos à mulher de quem gostamos “adoro-te” sem nenhuma intenção. É muito intencional. Muito mesmo! Saltam logo à vista duas intenções muito óbvias, neste exemplo: uma, porque sabemos que ela vai gostar de ouvir, vai ficar contente, vai sorrir, o ego sobe por ali acima, sente-se feliz, e nós ficamos satisfeitos por isso acontecer; outra, porque muitas vezes não conseguimos conter dentro de nós próprios aquilo que sentimos, e temos uma necessidade incrível de soltar cá para fora esse sentimento, dizer a alguém, contar a alguém, e tanto melhor se é precisamente a pessoa por quem sentimos o que sentimos. E todos os gestos que fazemos, todas as frases que dizemos, todos os beijos que damos, pautam-se sempre por estas duas intenções. Sempre intencionalmente. Depois, vem o medo. Claro, esse! O discurso mais fácil é o de remeter tudo para os tempos de hoje, as gajas de hoje e tudo o mais de hoje. Já os gregos faziam o mesmo. O medo está presente nas relações. Sempre. Em maior ou menor dose, por este ou aquele motivo, está lá sempre. Sentir medo é humano. Só os loucos não o sentem. Sentimos medo dos outros, medo da nossa relação e, pior que tudo, sentimos medo de nós próprios. O rapazola do início do post, por certo que pensará duas e mais vezes nas ocasiões futuras que se prestarem ao desenvolvimento daquelas frases bonitos e rosas virtuais. Sentirá medo. Medo de ser ignorado. Medo de se rirem na cara dele. Medo por não ser correspondido na mesma medida. Medo de não ser compreendido. Traumatizado, algum dia decidirá que as mulheres não querem mais ouvir baboseiras nem serem tratadas como princesas de um conto de fadas. Eventualmente, depois dessa decisão, chegará até ele uma que sempre sonhou ser a princesa do conto de fadas de algum príncipe. Tarde demais! Ou talvez não! Enfim, agora que confundi quem não tinha percebido, e que cada vez menos percebo aquilo que escrevo, chegou a hora de meter o ponto final neste derramamento de trocadilhos. pickwick
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publicado por riverfl0w às 00:58
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Quinta-feira, 23 de Setembro de 2004
Abusos
“Ignorance is always abusive. A man who does not know is always full of violent affirmations and maligned interpretations.” Quem escreveu isto foi um senhor de nome Fabre. Foi o primeiro estudioso do comportamento dos insectos. Pois, porque os insectos também se comportam. E escreveu isto na altura em que estudava os pirilampos, em particular. Retirei esta citação de um texto escrito em 1922 por uma personagem querida de milhões de jovens e adultos deste mundo. É engraçado descobrir como certos pensamentos permanecem inalteráveis com o passar dos anos, das décadas, dos séculos. E logo este, que se nos atravessa à frente, dia sim, dia não. Engraçado é, que nunca tinha colocado as coisas neste pé. Que as pessoas fazem com frequência afirmações violentas e interpretações malignas, a gente já sabia. Temos de aturar isso quase todos os dias, de todos os quadrantes. Agora, que a base disso é a ignorância, isso sim, é uma novidade para mim. Quer-se dizer, agora que penso nisso, realmente há que dar razão a este senhor dos insectos. A ignorância, é também a base de todos os mal entendidos. E estes, por sua vez, propiciam todas essas situações de afirmações e interpretações. Certo? Informemo-nos, ó gente! Ide em busca dos insectos! pickwick
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publicado por riverfl0w às 23:58
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Terça-feira, 21 de Setembro de 2004
Generation Buraca
A ouvir, na voz de João Vaz

O meu blog dava um programa de rádio - Rádio Comercial

 

Devia andar eu lá pelo 8º ano de escolaridade, na escola, obviamente, quando apanhei pela primeira vez o termo “generation gap”. Se não era assim, era qualquer coisa parecida, ou pelo menos que soava a isto. Era um texto da disciplina de inglês. A professora era feia que nem uma bruxa encardida e carregava na pronúncia inglesa ao ponto do ridículo. Na altura, o termo apanhou-me como quando uma prisão de ventre apanha uma pessoa. Hoje, volvidos alguns anitos sobre este primeiro encontro, divirto-me a relembrar as “buracas” todas que se me têm cruzado ao longo da vida. Não é fácil não entrar no jogo. Presumo que seja uma tendência natural. Tão natural como escolhermos um clube de futebol. O ser humano tem uma tendência absurda para se associar a uma facção e esfaquear o inimigo para a defender. Ou tão só para que a sua facção erga a bandeira num morro mais alto. Como em todo lado há facções, sejam clubes, partidos, sexos, licores ou tipos de roupa interior, nas idades elas também estão presentes. Tinha que ser! Os mais novos exaltam-se em críticas aos mais velhos, atribuem-lhes características ao bom estilo dos moradores dos sarcófagos, e abanam a cabeça aos seus discursos que entretanto entram por um ouvido e saem pelo outro. Os mais velhos, soltam raios e coriscos aos “putos”, riem-se da sua falta de experiência de vida, gozam com a sua hipotética falta de maturidade e não os levam a sério. Todos se esquecem, contudo, que os que já não são, já o foram, e os que ainda não são, hão-de lá chegar. Fazem lembrar o estúpido passar dos comboios na linha: umas carruagens chegam sempre primeiro à estação, mas acabam por chegar todas e pouca diferença faz quem chegou depois de quem. Urso é o passageiro que grita que chegou primeiro e palhaço o que se ri do urso. Neste circo que é a vida. pickwick
música: My Generation – The Who
publicado por riverfl0w às 02:52
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Segunda-feira, 13 de Setembro de 2004
Silence never wins
Caro riverfl0w, este era o que trazias no “msn” outro dia, no teu contacto. Perguntei-te e disseste que era um “self made” não-sei-quê. Ou seja, fiquei na mesma. Embora discorde. Discordo, do sentido. O silêncio tem momentos. Ora ganha, ora perde. Confesso que, no meu estádio, o silêncio é um ganhador. Pontua, vezes sem fim, vitorioso, orgulhoso, quase que babado. É como que a arma quase perfeita. Ora nos defende de um qualquer mau jeito da língua, privando-nos de mal entendidos, barbaridades sonoras, papaias despropositadas, descobertas infelizes, erros técnicos, gafes monumentais e outras desgraças ejectadas por entre os beiços. Ora o esgrimimos num ataque incisivo, num impacto vigoroso embora discreto, apanhando a vítima desprevenida e insegura. O silêncio é um bom amigo. Mas nem sempre os amigos são a nossa melhor companhia. Vezes há, não tão poucas quanto gostaria a minha memória, em que o silêncio nos deixa mal. Fica o não dito por dizer, a mensagem por passar, o sentimento por contar, a alma por abrir a quem a quero mostrar e me a quer ver. O silêncio, que nada devia gastar, torna-se num desperdício. São oportunidades que ficam para trás, sim. “Perdeste uma boa oportunidade para ficar calado”, célebre frase com que se injecta um autor infeliz, confronta-se com o menos maldoso “perdeste uma boa oportunidade para abrir a boca”. E agora? Falo ou fico calado? Digo que tens um macaco a sair pelo nariz ou faço de conta que tens as narinas tão limpinhas como o rabinho de um bebé acabado de lavar? Digo o que sinto por ti ou deixo-te ir embora enfiada num poço de frustração por o teu sentimento não ser correspondido? Digo o que sinto por ti ou deixo-te ir embora sem carregares a desilusão de afinal a tua amizade ser mal interpretada e retribuída com algo que te desagrada? Que fazer? Ai, silêncio, silêncio… pickwick
publicado por riverfl0w às 22:37
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