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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

17
Jan08

As túlipas negras

pickwick
Há uns bons anos atrás, a Ana ofereceu-me um livro chamado “A Túlipa Negra”. Adorei o livro. É muito difícil eu adorar um livro. Não passei da segunda página do “Senhor dos Anéis”. Outros nem encontrei coragem para abrir na primeira página. Outros, foram devorados em regime non-stop, apesar da imensidão de páginas em letra miúda. Depende do estado de espírito, depende da onda, depende do vento, depende do tempo livre, depende das gajas, e de mais uma infinidade de factores. Enfim, são gostos e desgostos, como se costuma dizer. E eu que pensava que a túlipa era uma daquelas ervas daninhas tipo Sardinheiras e Malmequeres. Li, aprendi e diverti-me à brava. Não me lembro minimamente qual o enredo nem quais os protagonistas. Também não interessa, que os livros são para voarmos e não para tirarmos apontamentos mentais de vidas alheias. A Ana, foi minha vizinha durante dois anos, numa daquelas caves arrendadas a estudantes pindéricos. Já falei dela muitas vezes. Sempre nutri um carinho especial por ela, embora não traduzisse esse carinho em actividades carnais. É verdade. Sempre reinou, ali, o respeitinho. Depois ela “chateou-se” por não obter de mim o que nós sabemos que ela queria, “chateou-se” com o meu companheiro de quarto por motivos idênticos, e com mais não sei quem, e com os gajos que só queriam dela o prazer momentâneo de uma noitada de sexo. Chateou-se e hoje é freira. A sério! Era uma porreira, a Ana. Querida Ana, se me estiveres a ler, aí na tua simpática clausura, o meu mais sincero obrigado pelas longas conversas que tivemos, durante as quais tentaste – insistentemente e em vão – educar-me para a boa moral, para as boas maneiras, para o respeito pelo sexo oposto, para a importância superior do amor em relação ao consumo carnal, e para a moderação alimentar. Ainda hoje penso nas tuas lições. Sempre. Bom, esta conversa toda sobre a Ana e as freiras e as túlipa negras, serviram apenas como vulgar introdução para os factos que me trazem à luz deste blog. E os factos são que a Rici – a minha colega rechonchuda e séria – mudou claramente a sua forma de estar no mundo. E essa forma de estar no mundo passa, para começar, pela pintura do cabelo, impecavelmente liso, numa cor preto-ruivo-brilhante. Um gajo olha e, assim de repente e numa fracção minúscula de uma milésima de segundo, fica a pensar que deu de caras com um borracho. Eu sei que “borracho” é um termo em desuso, caduco, típico de arrastadores de tijolos nostálgicos, mas a Magda fez o favor de me lembrar da sua existência. Um borracho é que a Rici não é, certamente. É mais para o bolachuda, pronto. Eu gosto dela, atenção! É querida, simpática, responsável, profissional, etc. Além do cabelo, também tem um dente desalinhado, daqueles que podem entrar de imprevisto numa das narinas. Presumo que terá sido o resultado de um tabefe mais viril proporcionado pelo namorado, numa noite de prazer mais intenso. Além do cabelo e do dente desalinhado, a Rici também aderiu à moda da pele ao léu. Timidamente, mas aderiu. Apesar do frio intenso que se tem sentido aqui nas fraldas da Serra da Estrela. Assim como que a medo, tem deixado escapar, para fora da roupa, um engraçado pneuzinho de gordura. Disfarça, tapando logo a seguir com a camisola pouco comprida, mas eu já conheço esta peça de teatro. Lá para Abril já andará com pêlos púbicos entalados no cinto. Isto é que foi um avanço! Mas, além do cabelo, do dente desalinhado, do pneu ao léu, e, porque não, de uns sorrisos a que não estávamos habituados, a maior novidade é a cuequinha dela, trazida à luz do dia num daqueles momentos em que deixava o pneuzinho vir espreitar o ambiente. Eu até fiquei sem jeito. Foi inesperado! Muito inesperado! “Diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és”, passou a uma nova versão: “mostra-me um pedacinho das tuas cuecas e irei para o meu blog escrever disparates sobre o assunto”. As cuequinhas da Rici eram brancas, naquele tecido rasca de cueca-da-feira, compradas um ou dois números acima para poder acolher desvios volumétricos indesejados. Brancas, mas com uns motivos pequeninos a preto, que mais pareciam pontos uniformemente espalhados. O elástico era preto, também. Fiquei curioso quanto aos motivos. Seriam as iniciais do nome do namorado? Seriam ursinhos? Pulgas? Rodelas de micro-salpicão? Caveiras? Não resisti ao desafio. Fiz de conta que dava uma volta pela sala, com ar distraído, até lhe passar à porta dos quartos traseiros, à distância de três palmos. Foquei o meu olhar de lince, regulei-o para intensidade máxima, seleccionei o dispositivo de reconhecimento de padrões para o modo padrão-de-cueca e fiz as contas. Caramba! Eram túlipas! Dezenas de minúsculas túlipas negras!... pickwick