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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

02
Jan08

Uma barraca na neve

pickwick
Depois do repasto muito calórico do jantar do dia trinta, e da noite passada ainda na civilização, seguiu-se a viagem até à Serra da Estrela, tardiamente, como manda a tradição. Os carros ficaram à beira de uma casa de férias no Covão da Gaja (nome de código para um local algures no coração da serra). Subimos encosta acima, em direcção à Torre, pisando as primeiras placas de gelo. Um uísque viria a calhar. A malta começa a já não ter idade para estas aventuras cansativas. Esteve um sol de escaldar nesse último dia do ano. Quase que dava para as miúdas andarem de biquíni – e creio que só não andaram por uma reles questão de moda. À medida que subíamos em altitude, aumentava a quantidade de neve por todo o lado. É bonito andar na neve, com a mochila carregada com o saco-cama, o cobertor, a colchonete, os toldos, as bebidas que fazem rir, os petiscos, as meias, o rolinho de papel higiénico, as velinhas e a lanterna. É bonito enterrar a bota na neve e entrar meio litro de neve pelo cano da bota dentro. É bonito cair na neve. É bonito estar distraído e levar com uma bola de neve. É bonito saltar um ribeiro e enfiar um pé lá dentro, por engano. É tudo muito bonito e eu gosto muito e é muito giro. Quando já se avistava as “bolas da Torre” – esse mítico símbolo fálico serrano –, chegámos ao destino: um buraco plano, do tamanho de um campo de futebol, completamente coberto por um manto branco de trinta centímetros de neve, atravessado por um ribeiro, fora de vista de qualquer ponta de civilização. O local ideal para uma passagem de ano com os amigos. Longe de tudo e de todos. Com uma técnica apurada ao longo de anos de experiência, lográmos montar uma barraca à cigano, mesmo em cima da neve. Uma obra magnífica, de piso único, capaz de albergar cinco boémios e três boémias, mais os seus pertences, a mesa para o jantar, a sapateira, o salão de jogos, a iluminação, a arrecadação, a adega, a cozinha, os quartos e a despensa. Um luxo! Ainda se conseguiu erguer uma parede de protecção contra o vento, feita com enormes paralelepípedos de neve, ao bom estilo esquimó. À fogueira secou-se a roupa, aqueceram-se os corpos fustigados pelo frio da noite, e assaram-se as chouriças (aromatizadas com o fedor do vapor que se libertava das meias). Aproveitando a paisagem e o local privilegiado, tiraram-se fotos artísticas depois do sol se pôr. Umas mais artísticas que outras, claro. Tenho a reclamar a inexistência de sinalização indicando o trajecto do ribeiro que atravessa o local. Por causa desta falha, em certa ocasião vi-me inesperadamente com uma perna enterrada por completo – até aos túbaros, como se diz – na neve, e a bota (e o respectivo conteúdo) mergulhada na fresca água do ribeiro. Ui, tão bom! Por falar em “bom”, é bom relembrar a sorte que tivemos por haver aquele manto branco de pureza. É que toda aquela zona está infestada de poios e caganitas de cabra. Poios, para quem não sabe, são amontoados artísticos de bosta de vaca. Assim, ficou tudo soterrado pela neve. Sorte a nossa. Para a maioria. O mesmo não se pode dizer dos gulosos que meteram à boca duas ou três rodelas de chouriça que haviam caído ao chão naquela zona em redor da fogueira que não tinha neve… Por falar em poios, pouco antes de cair definitivamente a escuridão, fui acometido por uma vontade súbita de defecar – assim uma daquelas coisas que, ou se trata do assunto rapidamente, ou nos salta um poio por uma orelha e outro poio por uma narina. Atravessei cem metros de neve e agachei-me atrás de um penedo. Olhei melhor em redor e reparei que o penedo tinha uma saliência mesmo a jeito de eu apoiar uma das bochechas do rabo. Portanto, em jeito de resumo, defequei que nem um rei, a mil e novecentos metros de altitude (mais metro, menos metro), sentado, com as botas enterradas na neve, a apreciar uma paisagem fantástica desta nossa natureza. Este tipo de prazer, não é para todos! Ui, tão bom! Entre o jantar, que acabou cedo, e as comemorações e festejos da passagem de ano, ousámos desafiar a tradição e mantivemo-nos acordados. Valeu-nos o Trivial Pursuit, edição Genius, à luz das velas. Valeu-nos a santa ignorância generalizada, pois, ao fim de várias horas de jogo, havia apenas uma equipa com uns extraordinários dois queijos! Tínhamos ali matéria para ficar a jogar até ao fim da tarde do dia seguinte! Depois, quando se ouviram os primeiros foguetes no ar, lá ao longe, o Daniel fugiu com a garrafa de champanhe para cima de um penedo a uns cem metros da barraca e tivemos que ir todos atrás, pelo meio da neve, naquela escuridão, com o ar frio a coçar-nos a pele, porque ah e tal, é meia-noite, e não sei quê. Resultado: a garrafa voltou cheia para a barraca, que ninguém se atreveu a fazer mais do que beijar o gargalo e fingir que emborcava meio litro de penálti. Para o próximo ano, ficam, desde já, duas sugestões:
1. Nada de fogueiras, senão o pessoal fica a brincar aos ciganos e ninguém janta em condições.
2. A garrafa de champanhe fica presa ao mastro da barraca com uma corda, para ninguém fugir com ela para local ermo e frio. pickwick

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