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Quarta-feira, 17 de Outubro de 2007
As aventuras do paizinho - 2
5. A Mauser já pesa
A Mauser é uma espingarda que fez história no mundo dos conflitos e das guerras em geral, servindo em muitos exércitos e durante muitos anos. Contava o meu paizinho que, com uma Mauser, se conseguia furar o carril do caminho-de-ferro só com um tiro. Aliás, um grande divertimento do meu paizinho, nas suas comissões militares em África, era caçar antílopes com a Mauser. Depois queixava-se que ah e tal, eu acertei-lhe em cheio mas fugiu e nunca mais se encontrou a carcaça. Depois de África, sobravam as carreiras de tiro para dar uso à Mauser. Lembro-me de, certa vez, ter tido o prazer de também disparar a arma, dando-me cabo do ombro e quase me estoirando os tímpanos. Ontem, fui ajudá-lo a reparar o armeiro que construiu em madeira para expor as espingardas da sua colecção. Bolas, já não posso com a Mauser, nem sei como é que dantes andava à caça com isto, queixava-se. Isto de ser septuagenário é do caraças, digo eu.
 
6. Já nem com a 9 mm
Não bastando a falta de força para pegar na Mauser, o meu paizinho também se queixou que já nem conseguia puxar a culatra da pistola de 9 mm que trouxe de África. Eu fiz logo contas. A arma em causa, não é de fiar. Uma vez, em 2000, fomos os dois para a Serra de São Mamede experimentar a pistola de 9 mm, umas carabinas e um revólver com munições Magnum. Correu tudo lindamente, até à pistola de 9 mm, que disparou acidentalmente quando o meu pai tentava puxar a culatra e me explicava que ela era manhosa e imprevisível e disparava sozinha quando lhe apetecia. Portanto, dado o mau humor da senhora, é bem melhor que o meu paizinho já não consiga puxar a culatra atrás.
 
7. Ainda as brasileiras
Hoje fomos comer a um restaurante chique num centro comercial chique numa zona chique da linha do Estoril, ali para os lados da Parede, assim quase em Carcavelos. O meu paizinho quis levar-me lá porque ah e tal outro dia tinha lá comido um bife enorme e lembrou-se de mim e queria que eu lá fosse provar o bife. Pois sim. O que ele queria, era ir lá dar dois dedos de conversa com uma das jovens brasileira que lá trabalham, à qual já chamava amiga. Eu comi picanha, por causa das cócegas. A “amiga”, afinal, já não trabalhava lá. Mesmo assim, o meu paizinho, que ouve muito mal, aproveitou para discutir o campeonato de Fórmula Um com um dos empregados, também brasileiro, e também apaixonado por esse “desporto” idiota. Minutos antes o meu paizinho tinha-me perguntado se eu entendia os brasileiros a falar, porque ele tinha muita dificuldade. Portanto, como se depreende, a discussão sobre F1 de um brasileiro com um português que ouve mal e que tem dificuldades em entender brasileiro, foi do melhor. Como? Hem? Hã? No fim do almoço, entrou ao serviço uma brasileira toda jeitosa (vá, pronto, não era gorda), também conhecida do meu paizinho. Em poucos minutos, já lhe estava a pedir o telefone da outra “amiga”, aproveitando para dizer que a outra era muito simpática mas “você também é muito simpática”. Tudo isto, enquanto eu fugia sorrateiramente para fora do restaurante, tentando escapar ao embaraço que me assaltava.
 
8. Tal pai, nem por isso o filho
O “tal pai, tal filho” aqui não se plica. O meu paizinho era um malandro na sua juventude. Conduzia um carro desportivo descapotável, usava colete e chapéu negro à cowboy. Tocava concertina, andava pelos bailes ribatejanos a engatar raparigas solteiras e esperava-as à saída das missas. Às vezes montava a cavalo e vestia-se à cowboy, com revólver e tudo, mas isso é outra estória. Nem com a idade lhe passou a lata para disparar piropos às cachopas ou meter conversa com qualquer que lhe apareça. Já o filho mais velho não lhe seguiu as pisadas. Este, cumprimentava as cachopas com o seco “bom dia”, sem beijinhos, e fugia delas a sete pés, não fosse alguma comê-lo vivo, apesar de desejar intensamente ser comido vivo e regurgitado e engolido novamente e regurgitado mais vinte vezes por uma moçoila qualquer que nem precisaria de ser sequer bonita. Passados uns anos, acumulando cenas tristes e episódios ridículos, deu-lhe para a parvoíce e começou a escrever disparates num blog. Enfim. Desculpa lá, paizinho, mas sabes que não somos todos iguais… pickwick
publicado por pickwick às 00:10
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