Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

05
Out07

Entre o ouro e a prata

pickwick
Entre a correria de abandonar mais cedo os meus parceiros do patronato e apanhar o comboio para a capital, dei um saltinho a uma minúscula ourivesaria da minha aldeia, mesmo em frente ao balcão da CGD. Motivo? O relógio que me desapareceu há cerca de dois anos, no meio de folhas e restos de porcarias inúteis, e que voltou a surgir há cerca de um ano, continuava sem a bracelete que motivou a paragem na sua utilização e consequente perda. Para mais, o relógio que comprei porque não encontrava o outro, tinha a respectiva bracelete em vias de me deixar embaraçado em público, uma vez que já apresentava rachadelas acentuadas. Assim, nada como trocar as duas braceletes ao mesmo tempo e, a partir daí, armar-me em novo-rico e escolher diariamente o relógio que me apetece usar: ou um Casio piroso de doze euros comprado na loja dos chineses, ou um Casio não tão piroso, nem tão rasco, com iluminação azul-vodka-com-aniz, cronómetro que conta para a frente ou para trás, e mais meia dúzia de palermices que não se usam mas que tornam os relógios mais caros e satisfazem a necessidade grotesca que as pessoas têm de possuir objectos com funcionalidades perfeitamente inúteis. No caso particular deste segundo relógio, serviu o mesmo para uma gaja satisfazer a sua necessidade de oferecer um objecto cujas funcionalidades são, na sua maioria, completamente inúteis a esta alma que escreve. Enfim. O relojoeiro, ou ourives, ou vice-versa, era um homenzinho já de certa idade, com ar de quem faz de conta que percebe do assunto. A esposa, senhora de passar o dia na loja, faz de secretária pessoal e leitora de revistas. Para mudar as duas braceletes, o senhor demorou cerca de vinte minutos. É normal? Claro que não é normal. Mas, acontece na minha aldeia, no fim do mundo. Enquanto esperava e desesperava pelo serviço pronto, andei de um lado para outro na minúscula loja, totalmente rodeado de vitrinas recheadas de relógios de gosto duvidoso, relógios de sala com dois metros de altura, relógios de parede, relógios com cuco, relógios de cozinha, enfim, centenas de coisinhas de prata e outras tantas de ouro. Coisas que, confesso, nem percebi para que servem, pois ultrapassam a simplicidade de uma pulseira ou um anel. Dei comigo a pensar que, realmente, o bicho homem, para além de ser parvo, também é estúpido. Sem querer ofender ninguém, claro. Raciocinando objectivamente, ou, pelo menos, fazendo por isso, não dá para perceber muito bem o que leva alguém a dar uma pipa de massa por um adorno qualquer, só porque é de prata ou de ouro, quando pode pagar muito menos por um adorno igual, noutro metal mais barato. Para quê? Para dizer que tem não sei o quê em ouro? Faz sentido? Claro que não faz sentido. É como ter um diamante. Ah e tal, tenho um diamante XL não sei que mais, é tão giro, tão giro, tão giro, que não sei para que serve mas até nem serve para nada mas até não faz mal porque o que interessa mesmo é ter o diamante porque ah e tal e agora não me chateies mais com essa conversa, ‘tás parvo ou quê? Ah pois é. Um anel em ouro é bonito? Claro que é bonito. E não poderia ser em alumínio? E se o alumínio fosse pintado de dourado? Não ficava igual? E se desbotasse? Não se podia pintar de novo? Claro que podia e ninguém daria por isso. Mas, não. Há que gastar dinheiro, para dizer que se tem não sei quê em ouro ou não sei que mais em prata. Um gajo, por mais rico que seja e por mais dinheiro que tenha para esbanjar, é automaticamente promovido a parvo no preciso momento em que compra uma caneta banhada a ouro ou em ouro maciço. Se aplicasse o dinheiro num valente jantar com os amigos, com muita carne e muito tinto e muitas sobremesas, ou se pagasse aos amigos uma sessão non-stop de vinte e quatro horas de strippers, isso, sim, seria um acto revelador de algum bom senso. É como os telemóveis. E os computadores. E os automóveis. E as gajas. O bicho homem tem sempre a mania de comprar coisas com montes de funcionalidades cuja utilidade é basicamente zero. É como a maior parte dos livros que tenho na minha sala, que dão um toque intelectual ao ambiente, mas que não me servem de nada porque não tenho sequer um sofá onde me sentar pacatamente a lê-los. Qualquer dia devia vendê-los na Feira da Ladra e com o dinheiro comprar centenas de frascos de Salsichas de Frankfurt para depois ter onde fazer o licor de uva. pickwick

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.