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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

03
Out07

Um dia de chuva

pickwick
Hoje foi, e ainda está a ser, um dia de chuva. Será que o Outono já chegou? Não interessa. Foi um dia meio foleiro, molhado, cinzento, que facilmente cairá no esquecimento. Como outro dia qualquer.
 
1. Operações básicas
Hoje foi dia de dar formação lá no local de trabalho. O tema: operações básicas no Windows. Destinatários: trabalhadores. Formandos: só gajas! Copiar, cortar, colar, mudar o nome, criar pastas, etc. Tudo muito básico. Aiiiii!, desapareceu tudo!!!! – exclamou a Fá, em pânico, quando entrou numa pasta vazia acabada de criar. O ambiente de trabalho?, que é isso? ai, é isto? – perguntavam elas. Não, Carlinha, não precisas de copiar, colar e depois apagar o original, quando pretendes mover um ficheiro, basta cortar e colar. Tenho que repensar aquela minha ideia de meter toda a gente a enviar ficheiros por e-mail, para acabar com as pen’s. Bem, já consegui acabar com as disquetes. Falta mesmo só as pen’s. Mas usarem o e-mail… bem… não sei se a paciência me acudirá…
 
2. Certificados
A Maria (nome de código), que organizou as inscrições para a formação, não quis deixar nada em mãos alheias nem o seu crédito a apanhar chuva, pelo que tratou de elaborar e imprimir uns certificados de participação todos abichanados. Ando eu para ali a pregar aos pardais, que ah e tal tem que se acabar com as impressões a cores porque não se pode andar a esbanjar rios de dinheiro em tinteiros a cores para o povo imprimir porcarias que podem muito bem ficar a preto e branco, e aquela desgraçada imprimiu-me aquilo tudo a cores! Tenho que fazer a folha a esta gaja. Ela, até as porcarias das lombadas dos dossiers quer a cores! Lá vai o tempo em que, uma patroa que tive, tinha receio de imprimir coisas a cores à minha frente, dada a descompostura que eu lhe pregaria logo a seguir, por causa do esbanjamento de dinheiro. Agora, ninguém me ouve.
 
3. Regueifa
A colega de longe, da beira-mar, que é uma querida e usa os óculos ao contrário, trouxe-me meia regueifa lá da terra dela. Meti na gaveta e petisquei às escondidas, não fosse ser apanhado e gozado. Só foi pena o chão de alcatifa ter ficado cheio de migalhas.
 
3. Parabéns a você
Uma das vice-patroas hoje fez anos. Não consigo evitar sentir náuseas quando perto de mim se comemora, de alguma forma, mais ou menos discreta, um aniversário. É um mistério, mas dá-me vontade de bater em toda a gente. Para que é que as pessoas comemoram os aniversários? Não bastava dizerem para si próprias: mais um? Claro que bastava. Mas, não. Querem beijinhos, querem que toda a gente saiba que fazem anos, depois dão os parabéns, mais beijinhos, sorrisos, ah não sabia, ah e tal, abraços, beijinhos, e blá blá blá. Esta vice-patroa, vibra claramente com isto.
 
4. Os bolinhos
Vibra de tal maneira que, logo pela manhã, chegou com um monumental bolo de chocolate e noz, para ser partilhado entre todos, na pausa matinal para o café. Eu, que detesto comer em magote, aproveitei dois dedos de conversa para não ir lá emborcar uma fatia. Mais tarde, fui lá sorrateiramente, aproveitando que não havia ninguém na sala, mas, não sei porquê, já nem o prato do bolo lá estava. Azar, pronto. Ah, bolo, e café para todos. Ou chá.
 
5. Chá das 17h20
Por falar em chá. À tarde, a formação teve que terminar abruptamente, porque a aniversariante (formanda) tinha umas colegas à espera para lancharem todas juntas e beberem um chá e comemorarem o aniversário. É a vitória da gula sobre a sapiência, uma guerra há muito perdida. Seria o resto do bolo de chocolate e noz que apareceu de manhã? Claro que não. Era outro bolo, com rodelas de ananás e mais um montão de coisas que não percebi, nem mesmo depois de enfardar duas grossas fatias. Com chá. Foi um momento bonito, as colegas cantaram os parabéns enquanto eu fazia de conta que estava a tratar de um assunto importante e por isso não podia cantar mas até podia cantar porque não estava a ocupar a voz nem o cérebro. Enfim. Não curto aniversários, pronto!
 
6. As palavras misteriosas
Vi-me a braços com o desconhecimento de uma série de passwords de contas de correio electrónico e acessos a serviços online. Era suposto haver uma lista, mas não havia, que o ex-patrão não tinha e na secretaria também não havia e ninguém sabia delas e algumas delas até ninguém imaginava que poderiam haver. O ex-patrão, era, portanto, um gajo mesmo muito organizado. Raios o partam. Felizmente, a Internet estava lá, e deu para sacar um programa grátis, à borla, que se instalava e conseguia descobrir todas as passwords alguma vez registadas no computador. Deu para safar a maior parte. Ainda faltam duas ou três, mas nada que não se resolva com um contacto formal.
 
7. Pila de gorila-manso retalhada
Estou prestes a receber um carregamento de trinta litros de aguardente. Bagaço, aliás. Objectivo: quinze litros para fazer licores (o de uva é fantástico) e outros quinze para armazenar com lascas de madeira de carvalho (para tentar envelhecer). Para os licores são necessários muitos frascos. Por isso, tive que andar a investir em alimentação que seja vendida em frascos. Feijão, por exemplo. E salsichas de Frankfurt. E polpa de tomate. Com estes ingredientes, inventei um manjar requintado e nutritivo, ao qual dei o sóbrio nome de “Pila de gorila-manso retalhada”. Modo de preparar: faz-se um refogado, deita-se o feijão branco, a polpa de tomate, umas ervilhas, e polvilha-se tudo com especiarias saudáveis, tipo pimenta e colorau e caril e o picante; retalham-se quatro salsichas de Frankfurt, que parecem pilas de gorila-manso, e deitam-se também na panela; deita-se água; e massa. E prontinho! Não querendo enjoar ninguém, devo dizer que os nacos de salsicha ensopados na polpa de tomate recriam o cenário quase real de um gorila que foi atacado com uma navalha de talhar cortiça e privado da sua virilidade. As ervilhas fazem de conta que eram os mamilos do gorila. Quanto aos feijões brancos, é como se fossem bolsas de pus resultantes de inúmeras infecções cutâneas. Bem, por falar em enjoar, isto não está a correr nada bem. Maldita imaginação… pickwick