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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

23
Set07

35 milhões de euros

pickwick
(comentário político… então?, quando é que me chamam para o jornal das 20h?)
 
“José Mourinho vai encaixar cerca de 35 milhões de euros como forma de indemnização pelo despedimento do cargo de treinador do Chelsea. A decisão do multimilionário e dono do clube, Romam Abramovich, interrompe um contrato que tinha validade até ao final da época de 2010, mas o técnico português vai receber tudo a que teria direito se continuasse no cargo até essa data.”
 
Obviamente que eu também quero! Também quero que a minha patroa-madre-superior, que é uma patareca, mal encarada, mal educada e muito bruta, me interrompa o contrato e me pague já, já, já, tudo a que eu teria direito se continuasse nas minhas funções até ao final da minha carreira. Aliás, querida patroa, deixa-me só fazer as contas, que já te digo. Ora bem, se fizer as contas por baixo, isto é, se considerar que não seria aumentado até ao final da minha carreira, coisa que tu tanto adorarias porque me estimas como a um filho bastardo ranhoso e se morresse pelo caminho melhor ainda porque terias que pagar a alguém em início de carreira para me substituir e que sairia muito mais barato e eu também gosto muito de ti e se morresses tu pelo caminho eu deitava uns foguetes e uns panchões e abria uma garrafa de champanhe porque acho que és uma pobre de espírito com defeitos graves de fabrico e muitos traumas de infância e psicologicamente doente e não fazes falta nenhuma ao mundo porque não sabes o que andas a fazer mas tens a mania que vives num pedestal e não sei quê e já não sei onde é que ia porque agora perdi-me com o entusiasmo de te chamar nomes feios e até fiquei com as unhas de fora… hum… contas… contas… ora bem, desculpa lá este desvio, já cá estou novamente. Contas feitas, terias a pagar-me a magra quantia de 437500 euros. Já! Eu sei que nem sequer chega a meio milhão de euros, é uma vergonha. Mas, ao menos, sou uma pessoa de bem. Um gajo que nos próximos três anos ganharia trinta e cinco milhões de euros, não é uma pessoa de bem. Aliás, nem sequer é uma pessoa normal. Nem ele, nem a aberração do Abramovich. É tudo gente perigosa, doente, distorcida. Deviam ser engolidos por um sapo gordo e cuspidos na sarjeta. Não, não é inveja. O dinheiro na posse de grunhos, ainda que em quantidades difíceis de imaginar, não causa inveja. Repúdio, é o sentimento. É como os novos-ricos da nossa praça, pirosos até mais não, idiotas em abundância, grunhos e pobres de espírito. Deles só têm inveja os que se batem pelos mesmos valores, os também pobres de espírito. Bem, os velhos-ricos também acabam por não ser muito melhor, que isto do dinheiro em abundância normalmente está associado a limitações do espírito. Há excepções, claro. No caso concreto do Zé das Mouras, e apesar de eu não apreciar o “futebol” profissional - que nem se devia chamar futebol porque não é propriamente um desporto -, o homem padece do mal que assola a minha patroa-madre-superior. É bruto, é mal encarado e é mal educado. Ou seja, se lhe tirassem as roupinhas pirosas de marca e todos os sinais exteriores de riqueza e lhe esvaziassem as contas bancárias, teríamos algo parecido com um brutamontes das obras: porco, grosseiro, brejeiro, idiota e pobre de espírito. Por falar em pastéis de bacalhau, este homem não deveria pagar ao Estado Português uma gorda percentagem desses trinta e cinco milhões? Tipo, uns doze milhões? Ah e tal, imposto sobre rendimentos e não sei quê. Não devia? Vai pagar? Às tantas, não vai. Enfim, estou para aqui a falar mal de um fulano ordinário, quando devia estar a falar de gajas. É melhor falar de gajas ordinárias, do que gajos ordinários, é certo, mas esta coisa dos trinca e cinco milhões deixou-me mal disposto. Se eu recebesse, de repente, essa quantia, por via de um despedimento, em vez de uma patética quantia que nem chega a meio milhão, isso, sim, é que era vida. Começava por espancar a minha patroa-madre-superior com uma mangueira de borracha cheia de areia por dentro. Dada a ligeireza do abandalhado Código do Processo Penal, e as facilidades dadas aos facínoras, poderia continuar por aí, em perfeita liberdade, a espancar as pessoas que se me atravessassem no estômago, a comer bifes de novilho com batatas fritas em restaurantes, e até me poderia dar ao luxo de ser ordinário, bruto, mal encarado e mal educado, porque, na pior das hipóteses, acabaria ofuscado pelas luzes da ribalta, com a fronha escarrapachada nas manchetes de revistas e jornais, a servir de tema para sonhos eróticos de dois terços da população feminina, e, pela certa, teria que contratar uma secretária para gerir o parque de fãs tresloucadas e insaciáveis. pickwick

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