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Sexta-feira, 14 de Setembro de 2007
Vou mudar de profissão
Notícia num jornaleco qualquer:
Romenos detidos libertados
Os quatro indivíduos romenos detidos pela Polícia Marítima (PM), na madrugada de anteontem, em flagrante, quando furtavam três motores de barcos ancorados no rio Coura, foram colocados em liberdade pelo tribunal. Os suspeitos ficaram obrigados apenas a apresentar-se depois de amanhã na delegação Serviços de Estrangeiros e Fronteiras de Viana do Castelo, fim de cumprir várias formalidades. Recorde-se que a partir do próximo dia 15, com a entrada em vigor do novo código de processo penal, apenas ficará em prisão preventiva quem cometer um crime com uma moldura penal igual ou superior a cinco anos.”
Vamos lá ver isto novamente. Então, vou ali à ourivesaria, parto os vidros, roubo o que me apetecer, regresso calmamente a casa, escondo algumas das peças e mantenho as outras no bolso. Nisto, aparece a GNR para me levar. Não há que ter medo. Amanhã estou em casa, novamente, descansado, podendo repetir o processo, sei lá, digamos que numas bombas de gasolina, ou numa velhinha coxa, ou o banco, ou um motor de um barco (que estafadeira), ou uma criancinha, ou uma loja de telemóveis, e por aí fora, sendo sempre, sempre, sempre libertado no dia seguinte, ou no próprio dia, desde que a “moldura penal” seja abaixo dos cinco anos. Roubar motores de barco, mesmo apanhado em flagrante, dá menos de cinco anos de prisão e liberdade imediata. Parece-me bem. Não sei para que raio vou todos os dias para o trabalho. Vou perder tempo, aturar peruas e desnudadas, dar ao dedo e à língua, levantar, sentar, gastar gasolina, etc. Desnecessariamente. Praticando diariamente uns roubos aqui e além, vejo-me sempre em liberdade, o tribunal enguiça porque o processo nunca mais acaba, e vou acumulando uma fortuna fantástica. Aliás, posso tentar ver isto por uma perspectiva ainda mais divertida. Os trogloditas acéfalos que inventaram este esquema todo de um gajo não ir preso e poder continuar a ganhar uns trocos à custa dos bens alheios, por certo que são endinheirados e possuidores de muitos bens. Não lhes ficaria nada mal alimentar o próprio esquema que inventaram. Isto é, serem diariamente assaltados pela minha pessoa. Um carro num dia, um computador no outro, uma televisão (para oferecer), os telemóveis, o armário dos digestivos, sei lá, coisas assim, o motor do barco, o GPS do barco, o forno micro-ondas do barco, o colchão de um dos beliches do barco, o volante do leme do barco, o armário dos digestivos do barco, e por aí fora. Mas, quem é que, não tendo motivos muito obscuros e satânicos, cria umas leis destas? Só podem ter motivos obscuros e satânicos. Só pode haver grandes jogadas por trás. Algumas, que nos transcendem, provavelmente uma jogada qualquer internacional para os autores se exibirem nas praças mundiais como pais de leis mais avançadas e não sei quê. Tem que haver aqui muita coisa obscura no meio disto tudo. No mínimo, é ridícula toda esta situação e choca com o mais elementar bom senso e sentido de liberdade de cada um. Entenda-se por liberdade a capacidade que um cidadão tem para circular livremente e viver diariamente sem que a sua vida e os seus bens estejam constantemente ameaçados. Assim, nestes moldes, acaba-se rapidamente a liberdade. Mais, com isto, posso ir a qualquer país da União Europeia divertir-me a roubar o que me apetecer, pois logo a seguir poderei continuar em liberdade e circular por onde me apetecer e roubar o que me apetecer. Isto não bate mesmo certo. Eu cresci a ler livros de cowboys, capa e espada, e muitas aventuras, sendo que, em todos eles, em rigorosamente todos eles, o crime e a maldade tinham como certa a consequência de subtrair o criminoso à sociedade, quer pendurando-o por uma corda de cânhamo, passando-lhe o pescoço a lâmina de espada, ou atirando-o para o fundo de um calabouço. Pronto, nem tudo tem que ser resolvido esticando o pernil ou laminando esófagos, mas, a bem dizer, o fundo de um calabouço não deixa de ser uma forma civilizada de privar o cidadão comum do risco de ficar sem os seus bens ou ver a sua vida por um fio. Esses valores, os tais de que o crime não compensa e não sei quê, já se foram. Agora, mais do que nunca, o crime compensa. Compensa, porque, em rigor, se eu às 8h30 assaltar o banco da minha aldeia e me deixar apanhar, às 18h00 estarei ali na tasca da esquina a molhar as goelas com uma cervejola fresquinha, gozando de uma duradoura liberdade. Compensações à parte, não me ficava nada mal um gravador de DVD’s no meu PC, umas garrafitas de digestivos envelhecidos no armário, um carro novo e pimpão, e um telecomando para o portátil para quando estiver a ver filmes. E uma casa? Também dá para roubar uma casa? Quero dizer, vou na rua, ah e tal, que casa gira, vou roubá-la e ficar com ela toda só para mim. Será que também dá? Com piscina e sauna, já agora. Tenho que ver isso. Com a celeridade dos tribunais, ainda me habilitava a desfrutá-la durante uns cinco anos, findos os quais seria eventualmente condenado a X anos de presídio, evitáveis com mais um roubo que enguiçaria as coisas todas em tribunal e que me deixaria mais uns largos anos em liberdade e não sei quê. Ainda há gente que paga para irem para um paraíso qualquer no cu de Judas. Para quê? Basta aproveitar essa coisa da “moldura penal” e o paraíso será como o Natal: a qualquer hora, em qualquer dia, em qualquer lugar. pickwick
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publicado por pickwick às 00:17
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