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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

12
Set07

Chouriças, lágrimas, tartes, baba e ranhetas

pickwick
Mas que raio de dia, este. Até não começou muito mal, com os colegas de trabalho a comparecerem em peso, uns mais cedo que outros, os primeiros para trabalhar, os segundos para a reunião geral. A curiosidade pela distribuição de serviço e os horários de trabalho, as saudades, enfim, parecia um formigueiro. Pessoalmente, afligem-me estas situações pois, para além de ser alérgico a gatos e gatas, também tenho uma alergia crónica a ajuntamentos de pessoas. Mesmo que sejam todas conhecidas. É mais forte que eu. Não sei explicar. Mas, pronto, a profissão assim o exige e mais não há que fazer senão encaixar a situação. Da parte da tarde, assim que acabou a reunião geral, juntaram-se os três grupos de profissionais desta instituição, somando para cima de setenta pessoas. Juntaram-se, porque é bonito juntarem-se, especialmente se for na cantina, com meia dúzia de mesas exageradamente repletas de iguarias, petiscos, doces e bebidas. Uma concentração de comida suficiente para alimentar – à vontade – umas quatrocentas pessoas. Um momento de convívio gastronómico, para começar o ano depois das férias. Um completo exagero. Deve ser mania do povo aqui das beiras, que, quando toca ao rancho, não se atrevem a deixar espaço vazio na mesa. Não é que me esteja a queixar. Fiz um bocado de cerimónia porque, como já referi, tenho alergia a ajuntamentos de pessoas, seja à mesa, ou numa festa do pijama molhado. Fiz um bocado de cerimónia, mas, ainda assim, deu para provar algumas coisas saudáveis, como chouriças, bolas de carne, pasteis, tinto, bolinhos, tartes, presunto, Sumol, enfim, coisas assim. Comedidamente. Isto é, com discrição, comendo apenas duas fatias da bola de carne, em vez de devorar a bola toda, comendo apenas uma elegante fatia de tarte, em vez de repetir sete vezes, comendo apenas uma fatia de presunto, em vez de esvaziar o prato, e por aí fora. Estes momentos de confraternização mexem-me com os nervos. Andar ali a vadiar de uma ponta para a outra da mesa, metade das pessoas a fazerem também cerimónia, a olharem umas para as outras. Ora converso de pé, ora converso sentado, ora fico só e abandonado de pé, ora fico só e abandonado sentado, ora controlo os trajes femininos da ocasião, ora aproveito para verificar as medidas da D. Susana – que, pela primeira vez, vislumbrei à civil, sem a “farda” de trabalho. Não gosto destas cenas. Parecem aqueles cocktails do jet-set, pirosos, autênticas percas de tempo. Para comer, com prazer, é com os amigos, não com os colegas de trabalho. Mas, enfim, ossos do ofício. Entretanto, aproveita-se a ocasião para, de uma forma suave, passar a mão no pêlo às fãs do ex-patrão, encetando diálogos presunçosamente agradáveis e debates amigáveis, na tentativa de fazer confluir opiniões e sentimentos. No meio disto tudo, soma-se o desespero de algumas colegas, a chorarem baba e ranhetas por causa do horário de trabalho que lhes coube, nomeadamente por causa de umas insignificâncias que, no feminino, assumem proporções catastróficas, dignas de uma bíblia ou de um filme tipo “Jurassic Park”. Andam pelos cantos, lacrimejam, ficam com ranhetas penduradas das narinas, fungam, suspiram, fogem e simulam uma infelicidade maior do que se tivessem sido violadas a seco e com areia por um gorila-da-montanha muito macho mas muito bruto. O patrão Zé, coitado, perdeu logo o apetite com a estória das colegas choramingas. Coitado, e logo ele, que tem perdido noites a tentar que as meninas ficassem com um horário porreiro e aceitável. Não é justo. Mas, com gajas, já se sabe, a justiça não tem corpo, não tem alma e não passa de uma nuvem lá ao longe. Apeteceu-me pegar-lhes pela nuca e enfiar-lhes as fronhas na travessa das rodelas de chouriça assada, ou no prato da tarte de maçã, ou, então, pegar-lhes pelo elástico das cuecas e catapultá-las janela fora. Também tenho alergia a gajas a chorar. Não se aguenta. Não há necessidade. E não há paciência. Ainda por cima, volta e meia ando eu aqui a elogiá-las, ah e tal, ui ui, e não sei quê. Hoje, só me apetecia varrê-las para debaixo do tractor do estrume e passar-lhes com as rodas por cima. Sacanas! Gajas! Ai, que nervos! Por falar em gajas, quero terminar com uma singela referência ao facto de a loira dentuça ter sido a grande dinamizadora dos enchidos neste convívio gastronómico, organizando a assadura de dezenas de chouriças de carne, chouriças de sangue e alheiras, que sobraram em quantidades absurdas, mas que, mesmo às rodelas, não escondem a sua forma original: a de óbvios símbolos fálicos e potenciais apaziguadores de ansiedades primitivas. Além de muitos carros e pouca roupa, a loira dentuça também gosta de se ver rodeada de muitas chouriças. Não lhe fica nada bem, com aquela idade e aqueles dentes. pickwick