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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

05
Set07

O Forno e o Zé do Pipo

pickwick
Aproveitando a proximidade das fraldas da Serra da Estrela, demos um pulinho à bela e apetecível Praia Fluvial de Loriga. Água límpida, extremamente potável em comparação com o caldo suspeito que corre das torneiras das vilas e cidades, cheia de relva e com escadinhas a dar para a água. Uma coisa lindíssima. Ah e tal, splash, mergulho, spaf, spaf, braçadas, ui e tal, salta para fora da água que o sol já se pôs e a ventania não agrada. Mais uma paragem ou duas, para visitar este e aquele ermo, e fomos parar ao belo do lugar da Senhora do Desterro, ali mesmo à beirinha de São Romão, Seia. A Senhora do Desterro é conhecida por ter quase mais capelas do que casas. Em tempos idos contei pessoalmente nove capelas, mas, desta feita, vi um quadro com fotografias de dez capelas. Enfim, deve ser mais um daqueles produtos das mentes pirosas dos novos-ricos. À beira da ponte, como que a chamar por nós, estava o restaurante “O Forno”, o qual faz parte do roteiro turístico da zona. Ainda vacilámos, entramos, não entramos, entramos, não entramos, pois uma tasca num lugarejo no sopé da serra tanto pode ser uma surpresa agradável como um poio mal cheiroso onde pomos o pé por engano. Enfim, dada a hora da noite, optámos pelo risco, como se a ida a um restaurante desconhecido fosse uma actividade radical com requisito de uso de capacete. Cá fora, uma placa de ardósia anunciava a modalidade de 12,50 euros para pagar entradas, pratos, sopas, sobremesas. Bebidas à parte. Dava a entender que o serviço seria abundante. É o preço normal para um rodízio à brasileira com infinitas fatias de carnes e infinitos feijões pretos. Ah e tal, a casa funciona assim, explicava a senhora que nos atendeu. Éramos os únicos clientes. Azar do caraças, o único prato – o prato do dia – era Bacalhau à Zé do Pipo. Torci o nariz ao ver frustrados os meus intentos de comer um mega-bife e afogar as mágoas num balde de batatas fritas. Ainda assim, imaginei uma mega-posta de suculento bacalhau, que, com um bocadinho de imaginação, poderia passar por bife de novilho. Vieram as entradas. Frustração. O presunto não se serve com coirato! Tive uma sensação idêntica à que teria um dinossauro esfomeado a invadir uma aldeia alentejana e a meter à boca todos os habitantes, os quais tinham o estranho hábito de estarem sempre agarrados a uma enxada com cabo em madeira maciça. O queijo não se serve rançoso. Serve-se fresquinho, com ar de quem foi cortado agora mesmo, e não com ar de sobra de um pequeno-almoço qualquer algures em Janeiro. Os croquetes, esses, não se podem parecer com caganitas de raposa mergulhadas em pão ralado e atiçadas no óleo a ferver de uma frigideira. O pãozinho, escusava de parecer aquele pãozinho cheio de hélio que se compra na cidade, até porque, no sopé da serra, o pão tem obrigação de ser excepcional. A sopa, mesmo sendo um creme de cenoura, deve vir na malga até cima, e nunca, mas nunca, a cinco centímetros da borda da malga, como que a dar o aspecto de que já não havia mais. Quanto ao Bacalhau à Zé do Pipo, tenho algo a dizer ao fulaninho que deu o nome a este prato.
Senhor Zé do Pipo: o prato com o seu nome é uma fraude! O senhor engana o povo com postas de bacalhau estragado, habilmente disfarçadas debaixo de uma camada de substância suspeita, que mais parecem borras de natas estragadas. Para além de estragado, o bacalhau apresenta-se, também, com textura de platex, tornando-se simplesmente intragável, ainda que ensopado na tal substância suspeita, ou misturado com o puré ou molhado em Super Bock. Não há volta a dar-lhe. Como se não bastasse, metade da posta é feita de espinhas, e eu, trabalhador por conta de outrem, não acho muita piada dar o meu dinheirinho - que tanto custa a ganhar - para andar a catar magras lascas de bacalhau no meio de uma multidão absurda de espinhas e tudo isto encharcado numa mistela branca queimada. O senhor pensa que disfarçando a coisa toda com a substância branca consegue enganar o bom apreciador de gastronomia, mas não consegue. O bom garfo, só funciona com nacos generosos e limpos. Fique sabendo.
Já no capítulo das sobremesas, a modalidade era arrear as nádegas da cadeira, ir à mesa das ditas e servir a gosto, sob o olhar pouco discreto do dono do restaurante. Não gosto de gente a olhar enquanto me sirvo. E não gosto de sobremesas feitas em 1987 e servidas em 2007, com um ar ressequido e suspeito, desidratadas pelo tempo. Enfim, um restaurante onde nunca regressar, apesar de a decoração ser bem gira, com muito granito, muita madeira e muitos artefactos tradicionais da zona. E nem os guardanapos de pano dobrados em forma de lírio me convencem. Da próxima vez, não arrisco estes pretendentes a restaurante. Da próxima vez, vou direitinho ao “Mocas”, em Folgosinho, e não se fala mais no assunto. pickwick

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