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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

04
Set07

Puto sortudo

pickwick
Notícia (desta vez na imprensa portuguesa):
Argentina: Detida mulher de 50 anos que foi viver com rapaz de 12 anos

Uma argentina de 50 anos foi hoje detida pela polícia, na cidade de Paso de los Libres depois de ter deixado o marido para ir viver com um rapaz de 12 anos, cujos familiares a denunciaram às autoridades.

A mulher comunicou segunda-feira ao companheiro que se tinha apaixonado por um menor e foi-se embora para ir viver com o rapaz em casa de uma amiga.
Os pais do rapaz apresentaram queixa à polícia por "sequestro" e "abuso sexual" e as autoridades detiveram imediatamente a mulher.
O rapaz, por seu lado, foi internado num hospital para ser submetido a uma série de exames que deverão determinar se foi abusado pela mulher.”
Isto é o que se chama um puto com sorte. Imagino que o mesmo me tem acontecido quando eu tinha doze anos. Havia de ser o bom e o bonito. E logo eu, com aquela idade, com a parvoíce no zénite e o cérebro escondido na arca frigorífica na garagem da casa dos meus pais. Uma mulher com 50 anos apaixonava-se por mim (cof ! cof! cof!) e levava-me para casa de uma amiga, passando a viver lá os três, em perfeita harmonia. Calhava muito bem esta paixão, pois, com aquela idade, e se a memória não me falha, estava mesmo a começar a dominar o fenómeno da masturbação. Presumo que a profunda diferença etária entre mim e a minha apaixonada estaria associada, também, a um profundo mau funcionamento da gaiola dos pirolitos, sendo que, por uma mera questão de associação lógica, a amiga também deveria ter uma falha algures. Assim, tudo levaria a crer que a minha prestação sexual teria que ser a dobrar, ora para uma, ora para outra, ou, eventualmente, para as duas ao mesmo tempo, no caso de não haver ciúmes nem invejas. Cansativo, mas interessante. Assim, evitava o incómodo da adolescência, de ter que andar com revistas deslumbrantes escondidas no fundo de gavetas. Passando à frente o detalhe da prestação sexual a que me veria obrigado, e considerando que não haveria constrangimentos provocados por uma eventual deterioração natural dos órgãos sexuais das senhoras, com hipotéticos reflexos no meu aparelho olfactivo e no choque visual com estruturas orgânicas não previstas, sinto-me tentado a concluir que a vida seria extremamente cor-de-rosa. Muito cor-de-rosa! Ver televisão até cair para o lado de enjoo (embora quando eu tinha 12 anos a televisão portuguesa não chegava para as encomendas). Não fazia a cama, não limpava o pó, não aspirava o chão, não levantava a mesa depois da refeição nem lavava a loiça (a pila serviria de moeda de troca na perfeição, em contraste com a adolescência que vivi de facto, durante a qual qualquer insubordinação era imediatamente regularizada com dois prontos e certeiros chapadões). Ia comer guloseimas e doces todos os dias até estes me encherem o estômago e chegarem cá acima ao céu da boca (naquele tempo, ui!, uma travessa de arroz doce dava para duas semanas). Ia beber Coca-cola fresquinha aos dois litros de cada vez (em mil novecentos e oitenta e troca o passo, a água imperialista entrava em minha casa com o estatuto de champanhe, tal era a raridade). Todos os jantares seriam constituídos por uma taça enorme cheia de Cerelac, Nestum ou Pensal (no meu tempo, a minha mãezinha só me deixava comer uma taça média, e só podia ser ao Sábado). Não ia à escola, nem ia esbanjar tempo precioso a estudar ou a virar as folhas dos livros (até podia ir à escola, ver as garotas, carne fresca em vez de carcaças peludas, mas estudar é que não, abrir os livros é que não, ora essa). Havia de ir bastas vezes jantar fora, comer que nem um alarve, ao cinema todas as semanas, à praia ver carne fresca, à piscina ver carne fresca, passear de carro para trás e para a frente, enfim, esturrar os trocos à senhora e à amiga da senhora. E isto tudo, toda esta boa vida, este luxo todo, a troco de quê? Da pilinha de um puto de 12 anos? Há gente com gostos muito enviesados… pickwick