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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

29
Ago07

Maria H., és uma vaca

pickwick

No “Conta Coisas” conheci a Carlinha. Bom, “conheci” não é o termo mais correcto, dada a minha pouca predisposição para a conversa com raparigas desconhecidas vestidas de preto, por mais simpáticas que sejam. Aliás, minha falta de predisposição para a conversa aplica-se a quem quer que seja, vista preto ou branco. Deve ser um qualquer trauma de infância. Seja como for, a Carlinha é autora de dois livros, o que é muito bom, já que eu sou autor de zero livros. Um dos livros chama-se “Estrela Sem Norte” e é “composto por poemas, caracterizados por uma certa soturnidade e melancolia, quase como um reflexo do lado mais negro da vida”. Eu gosto especialmente da parte do lado negro da vida. Fascina-me, pronto. O outro livro chama-se “Alma de Fogo” e é uma história de fantasia, envolvendo magia, amor e vingança, num universo completamente diferente do nosso, onde quase tudo é possível. Gosto particularmente da parte da vingança, a tal que se quer servida fria. Pessoalmente, não gosto de poesia. Faz-me bocejar, pronto. Não critico, mas não tenho paciência. Embora haja momentos, claro. Se for necessário, também escrevo poemas, e, se tiverem que ser sobre o lado negro da vida, ui!, no problem, também cá se arranja! Para o provar, e também como um tributo à Carlinha, que é uma miúda simpática, vou compor já de seguida um poema sobre o lado negro da vida. Aqui vai. 

Maria H., és uma vaca

 

És uma vaca, por certo,

Tão certo como o vermelho do sangue

Que fizeste escorrer do coração do teu maior amor.

 

Queres tanto dos homens,

Como os homens querem de um Porsche,

Mostrar, exibir, passeá-los pela rua.

 

Não olhaste a sentimentos,

Não olhaste ao coração alheio,

Não olhaste a nada, para além de ti.

 

És uma vaca, portanto.

Com um lado mais negro

Que uma vaca alguma vez poderia ter.

 

Trocaste o amor

Pelo espelho de valores vazios,

Pelo retrato que a sociedade demanda.

 

Trocaste o amor

Pela falta dele, pela sua aberração,

Pelo desprezo do teu companheiro.

 

Trocaste o amor

Por uma obrigação,

Por um estatuto.

 

Enfim, és uma vaca,

Porque preferes o material

Em detrimento do sentimental.

 

E, tal como as vacas têm sorte,

Tu também a tiveste,

Em abundância.

 

Tiveste sorte, muita sorte,

Porque, se o teu amor fosse eu,

Esperava-te aí, numa rua escura,

Enchia-te de pancada,

Partia-te os dentes,

Arrancava-te os cabelos,

Furava-te os olhos,

Quebrava-te uma rótula,

Esborrachava-te o pâncreas,

Chamava-te vaca,

E deixava-te para aí,

Caída, moribunda,

A chorar, a mugir,

E ia comer umas febras com batatas fritas.

(este poema é dedicado a um amigalhaço, que muito sofreu com o lado negro - muito negro - de uma mulher) pickwick

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