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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

28
Ago07

As tripas e as birras

pickwick

Outro dia, fui até Vila Real, lá no norte, acima do Douro. Fui visitar um amigalhaço, ah e tal, e agora vou fazer publicidade. O amigalhaço tem uma loja de conveniência, ali relativamente perto do McDonald’s da cidade, na qual se vive um ambiente pouco tradicional. Chama-se “Conta Coisas” (http://coisascontadas.blogspot.com/) e é um mix. Vende artesanato. É aderente ao Comércio Justo. Vende preservativos a vinte cêntimos. É aderente ao Bookcrossing. Vende tripas. Apoia eventos culturais. Vende batas brancas com desenhos de animais, para estudantes de Medicina Veterinária. Se o cliente não for estudante de Medicina Veterinária, não faz mal, pode comprar a bata na mesma que o dono da loja não fica chateado. Também vende caixas decoradas artesanalmente. E chocolates. E mais não sei o quê. Eu, que sou um gajo muito esquisitinho, só dou consumo a duas coisas: a bela da tripa, e a bela da birra. A tripa, para os menos cultos, é uma coisa que se tornou famosa ali para os lados de Aveiro, sendo feita com aquela massa da “bolacha americana” ainda meio crua, recheada com qualquer coisa. Tradicionalmente, imponho eu, tripa que é tripa, é com ovos moles. Nada de morangos, nada de frutos silvestres, nada de bacon, nada de lagostins, nada de chocolate. Ovos moles é que é! Cai na chapa, solidifica, dobra para aqui, dobra para ali, a mando do mestre da tripa, é barrada com ovos moles, dobra para acolá, dobra para acoli, e serve-se com uma pitada de canela por cima. Inexplicavelmente delicioso. Eu já tenho idade para ter juízo e saber que não devia comer destas coisas, pois devia ter mais cuidado com a saúde e fazer uma alimentação equilibrada e rica em coisas saudáveis como alface, grelos, tomates, leite magrinho a saber a água choca, feijão verde, fruta, cenoura, água, chá, errr… não sei quê integral, fibras, errr… pronto, coisas assim. Devia saber, e sei. Mas, derivado do meu profundo problema com o Alzheimer, vejo-me frequentemente privado de todo o meu discernimento e capacidade de análise, pelo que, quando dou comigo, estou a ingerir quantidades astronómicas de porcarias que não fazem muito bem à saúde mas que sabem tão bem que um gajo fica num estado alucinado, a babar-se e a pedir por mais. Enfim, é assim com as tripas. É viciante. Antigamente, tinha que fazer 100 km até Aveiro para lhes poder sentir o cheiro. Mas, agora, basta fazer 100 km até Vila Real para lhes tomar o gosto. É que dá um gajo viver no meio dos montes: para qualquer coisinha, toma lá 100 km. Até para uma tripinha, que é tão docinha e sabe tão bem assim com ovinhos moles e nham e depois trinca-se e “hum!” e os ovos moles escorrem e é preciso ir a correr com os beiços e lamber tudo e depois já se pode trincar outra vez mas depois escapa-se mais um bocadinho de ovinhos moles e é preciso lamber mais um bocado e lambe e trinca e geme “hum…” e trinca e lambe e fica a ponta do nariz com canela e é preciso limpar a ponta do nariz com o guardanapo onde repousa a tripa mas com a habilidade a tripa inclina-se e escorre mais um fio de ovinhos moles e é preciso lamber e ah e tal e depois quando se acaba tudo um gajo está tão cansadinho destas coisas e tão fraquinho e tão diabético que é preciso logo logo logo a seguir pedir mais uma tripa para não desfalecer ali mesmo e tombar com os dentes na lousa do chão. Ah pois é! Vida difícil! Tripas à parte, e no âmbito dessa coisa bonita que é o Comércio Justo, no “Conta Coisas” vende-se uma cervejola especial de corrida com turbo, nas versões Scura e Chiara. Para os amigos, versões preta e branca. A marca é Birra. Ou não. Não sei, mas é o que diz no rótulo numas letras em tamanho XXL. É uma cervejola feita com arroz da Índia e quinua da Bolívia. Dupla fermentação. Coisas assim. Alguém sabe o que é quinua? Eu não sei. Podia ser bolacha Maria ou pasta de dentes. E o que é uma dupla fermentação? Alguém sabe? Eu não sei. Mas, quando um gajo bebe, dá a impressão que a segunda parte da fermentação desta cervejola vai ter lugar dentro do estômago, originando uma grande revolução e três dúzias de arrotos-à-pastor. E o que é um arroto-à-pastor? Trata-se de um arroto que pode ser libertado sem limites sonoros, nem condicionantes éticos, como se à volta não houvesse mais que ovelhas, pasto e chaparros. Mas, servida fresquinha, esta Birra cai no estômago como a cereja na nata. E, em cima de uma tripa, mais perfeito fica. Tripa, fica. Poxa, quase que rimava! Por falar em rimar, o “Conta Coisas” estava a ajudar a promover os livros de uma jovem autora e poetisa, a Carlinha, que estava na loja quando lá fui, o que me lixou a vida porque comi três tripas e bebi duas cervejolas e tive vergonha e não pude arrotar-à-pastor e isto de um gajo beber cervejolas e depois ter que reprimir a natureza é muito chato. Ai, como a vida é difícil!... pickwick 

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